Por vezes, é necessário provocar, incomodar e até ser desagradável para despertar consciências e  obrigar a olhar para aquilo que preferimos ignorar. Não se trata de provocar por provocar, mas de  questionar o percurso que, há muitos anos, enquanto sociedade, temos vindo a seguir, muitas vezes  sem perceber, ou sem querer reconhecer, para onde nos está a conduzir. Um caminho marcado pelo  crescente afastamento dos cidadãos da vida pública, pelo enfraquecimento do sentido de pertença à  nação, pela desvalorização do Estado e pela indiferença perante questões fundamentais de soberania,  identidade e responsabilidade coletiva.

Até que ponto a qualidade de uma sociedade depende também da exigência, do conhecimento e da  responsabilidade dos seus próprios cidadãos?

Talvez o maior problema do mundo não seja a falta de conhecimento, competência ou sentido crítico,  mas o facto de estarmos progressivamente a entregar o poder, a influência e o reconhecimento público  a quem menos demonstra possuir estas qualidades. Pior ainda, começámos a aceitar a  mediocridade como uma condição normal da vida em sociedade, a confundir ignorância com  autenticidade e a tratar a competência como um defeito. Quem sabe é acusado de arrogância,  quem pensa é visto como complicado e quem grita, insulta e apresenta soluções absurdamente  simples encontra frequentemente uma multidão disposta a aplaudir. Chegámos a um ponto em que  ser popular parece valer mais do que ter razão, e a capacidade de provocar reações passou a contar  mais do que a capacidade de construir alguma coisa.

Basta olhar para o mundo que temos diante de nós. Assistimos a guerras, ameaças militares, disputas  territoriais, crises económicas, desigualdades profundas e ao enfraquecimento de instituições que  demoraram gerações a construir. Enquanto estas questões exigem prudência, conhecimento e  responsabilidade, parte da discussão política internacional transformou-se numa sucessão de  provocações, insultos, ameaças e demonstrações de força. Há dirigentes que comunicam como se  estivessem numa discussão de café, figuras públicas que confundem popularidade com autoridade e  responsáveis políticos que parecem medir o sucesso pela capacidade de humilhar adversários. O  espetáculo ocupa cada vez mais espaço, enquanto a discussão sobre as consequências das decisões  se torna secundária.

Seria fácil responsabilizar apenas os governantes, os partidos políticos ou as elites económicas. Mas  existe uma verdade muito menos confortável: os dirigentes não aparecem do nada e a mediocridade  não se mantém no poder sem encontrar quem a aceite, desculpe ou recompense. Uma sociedade  que aplaude a mentira quando esta favorece os seus interesses, que tolera a incompetência quando esta veste as cores da sua preferência política e que confunde agressividade com coragem acaba por  criar as condições para ser governada precisamente por aquilo que alimenta.

A democracia reconhece aos cidadãos o direito de escolher os seus representantes, mas nunca  garantiu que essas escolhas seriam acertadas. O voto tem o mesmo valor independentemente do  conhecimento de quem o exerce, e assim deve continuar. O problema não está na igualdade política,  mas na crescente facilidade com que a opinião desinformada se transforma em certeza absoluta e a  convicção substitui qualquer necessidade de compreender os factos. Quando milhões de pessoas  passam a admirar mais a insolência do que a competência, a qualidade da governação deixa de  depender apenas dos candidatos disponíveis e passa também a refletir aquilo que a sociedade está  disposta a valorizar.

Uma sociedade entretida com a própria decadência 

Na Roma antiga, o poeta Décimo Júnio Juvenal criticava uma população que parecia satisfeita com  pão e espetáculos, progressivamente afastada das preocupações da vida pública. Dois mil anos  depois, o mecanismo não desapareceu, apenas se tornou mais sofisticado. Aos anfiteatros da Roma  antiga sucederam-se novas arenas de entretenimento, dos estádios de futebol às redes sociais, onde  o espetáculo se prolonga muito para além das bancadas, porque cada pessoa transporta no bolso um  mundo de entretenimento permanente, disponível a qualquer hora e concebido para disputar cada  segundo da sua atenção.

Enquanto o mundo enfrenta guerras, disputas pela soberania dos Estados, instabilidade económica e  problemas que ameaçam o futuro dos serviços públicos, uma parte considerável da sociedade  consegue mobilizar uma indignação extraordinária por uma polémica futebolística, uma celebridade  ou uma publicação nas redes sociais. Há quem conheça todos os pormenores da vida privada de  pessoas que nunca encontrou, mas desconheça quem governa o seu município, como funciona a  Assembleia da República ou quais são as competências do Presidente da República. Acompanha os  resultados desportivos, comenta cada escândalo mediático e discute durante horas acontecimentos  sem grande relevância coletiva, enquanto demonstra um desinteresse quase absoluto pelas decisões  políticas e económicas que condicionam os seus direitos, os seus rendimentos e o futuro dos seus  filhos.

O problema não está no futebol, no entretenimento ou na legítima necessidade de procurar  momentos de distração. Está na inversão das prioridades, quando assuntos secundários despertam  paixões desmedidas e questões fundamentais para a sociedade são recebidas com indiferença. Uma  população pode divertir-se sem abdicar da capacidade de pensar, questionar e participar na vida pública. O que dificilmente pode é transformar o entretenimento na sua principal relação com a  realidade e continuar a lamentar a qualidade das decisões tomadas em seu nome, quando nem sequer  demonstra interesse em compreendê-las.

Esta realidade não resulta exclusivamente da distração ou do desinteresse dos cidadãos. Existe uma  indústria que aprendeu a transformar a atenção em lucro, a polémica em audiência e a indignação em  instrumento de influência. Políticos, comentadores, influenciadores e plataformas digitais beneficiam  de um ambiente em que a provocação alcança maior visibilidade do que a reflexão e a mensagem mais  agressiva circula mais depressa do que uma explicação fundamentada. O conhecimento exige tempo,  leitura e capacidade de análise, enquanto a estupidez pode tornar-se viral em segundos. Quando o  número de seguidores passa a funcionar como certificado de credibilidade, deixa de interessar aquilo  que alguém sabe ou a consistência do que afirma. O que conta é a dimensão da multidão que  consegue reunir, mesmo que nada tenha de substancial para lhe dizer.

Gerações com direitos, mas cada vez mais distantes dos deveres 

Existe outra questão que merece uma reflexão particularmente exigente: a relação das gerações mais  novas com a sociedade, o Estado e a própria ideia de nação. Seria intelectualmente desonesto afirmar  que toda a juventude se tornou indiferente à vida coletiva. Existem jovens empenhados, qualificados,  solidários e politicamente ativos. Mas também é legítimo questionar até que ponto determinados  comportamentos sociais revelam um afastamento dos valores de responsabilidade, participação e  pertença que sustentam uma comunidade política.

Crescemos a ouvir que a educação deveria preparar cidadãos livres, informados e capazes de  participar na construção do futuro coletivo. Hoje, perante a centralidade das redes sociais, da  exposição pessoal e da gratificação imediata, vale a pena perguntar que lugar ocupam a história, a  cultura, a cidadania e o sentido de responsabilidade nessa formação. Que relação pode estabelecer  com a nação alguém que desconhece a sua história, não compreende o funcionamento das  instituições e nunca foi levado a refletir sobre os direitos e deveres que acompanham a vida em  sociedade?

Uma nação não é apenas um território delimitado por fronteiras, nem se reduz aos símbolos que  exibimos em competições desportivas. Representa uma comunidade histórica e política, construída  através de experiências partilhadas, instituições, património cultural, memória coletiva e projetos de  futuro. O Estado não é uma entidade abstrata destinada apenas a cobrar impostos ou distribuir apoios.  É a organização institucional através da qual uma comunidade estabelece regras, assegura direitos,  presta serviços públicos e procura responder a necessidades coletivas. Quando estes conceitos

deixam de fazer parte da formação cívica dos cidadãos, a ligação entre o indivíduo e a comunidade  política corre o risco de ficar reduzida a uma relação de conveniência.

É precisamente aqui que surge uma contradição difícil de ignorar. Exigem-se direitos, oportunidades,  proteção social, educação, saúde, habitação e condições de vida dignas, exigências perfeitamente  legítimas numa sociedade democrática. Mas nem sempre encontramos a mesma disponibilidade para  compreender os deveres, os custos coletivos, a necessidade de participação cívica ou a  responsabilidade individual perante o funcionamento das instituições. O Estado é frequentemente  apresentado como responsável por resolver todos os problemas, enquanto a obrigação de contribuir  para a sua sustentabilidade parece pertencer sempre a alguém diferente.

Também não podemos ignorar a responsabilidade das gerações anteriores. Foram os adultos que  construíram os sistemas educativos, definiram prioridades políticas, normalizaram determinados  comportamentos e entregaram aos mais novos um ambiente digital onde a atenção é constantemente  disputada. Seria demasiado conveniente criticar os jovens pela superficialidade de uma cultura que  não foram eles a criar. Se pretendemos cidadãos conscientes da história, comprometidos com a  democracia e capazes de compreender o valor das instituições, precisamos de perguntar que  formação lhes proporcionámos e que exemplos encontram naqueles que exercem responsabilidades  públicas.

O verdadeiro problema não é uma geração ser diferente da anterior. Todas o foram. O problema está  em considerar dispensáveis a memória histórica, a responsabilidade coletiva e o conhecimento das  instituições, como se uma comunidade política pudesse sobreviver indefinidamente sustentada  apenas por interesses individuais. Não se exige nacionalismo acrítico, obediência ou uniformidade de  pensamento. Exige-se algo bastante mais elementar: compreender que pertencer a uma sociedade  implica direitos, responsabilidades e um compromisso mínimo com aquilo que permite a sua  continuidade.

A ignorância deixou de provocar vergonha 

Talvez uma das transformações mais preocupantes seja a facilidade com que o desconhecimento  passou a apresentar-se publicamente como autoridade. Nunca foi tão simples consultar informação,  mas também nunca pareceu tão fácil formar opiniões definitivas sobre assuntos que não  compreendemos. A política internacional explica-se em trinta segundos, a economia resolve-se com  uma frase, a ciência é contestada com um vídeo e qualquer pessoa que tenha acesso a uma rede social  parece sentir-se habilitada a contrariar décadas de investigação.

Naturalmente, ninguém tem obrigação de dominar todas as matérias. O problema não é desconhecer,  mas recusar aprender e transformar essa recusa numa demonstração de superioridade. Há uma  diferença enorme entre questionar especialistas e acreditar que uma opinião improvisada possui o  mesmo valor que conhecimento sujeito a investigação e escrutínio. A liberdade de expressão garante  o direito de falar, não a obrigação de considerar inteligente tudo o que é dito.

O Digital News Report 2026, do Reuters Institute, ajuda a compreender esta transformação: as redes  sociais e as plataformas de vídeo passaram a ser, no conjunto dos mercados estudados, a via mais  utilizada para aceder a notícias digitais. Entre os jovens dos 18 aos 24 anos, mais de metade identifica  as redes sociais, as plataformas de vídeo ou os sistemas de inteligência artificial como principal meio  de acesso à informação. Estes dados não demonstram falta de inteligência ou de interesse cívico, mas  revelam uma alteração profunda dos intermediários através dos quais se forma a perceção da  realidade.

E talvez seja essa uma das maiores fragilidades do nosso tempo. Estamos a formar opiniões políticas,  económicas e sociais num ambiente em que a visibilidade depende frequentemente da capacidade  de provocar emoções e não da qualidade dos argumentos. A verdade continua a existir, mas precisa  de competir com versões mais simples, mais convenientes e, muitas vezes, muito mais apelativas.  Para quem procura apenas confirmar as próprias convicções, uma mentira confortável pode tornar-se  mais aceitável do que um facto desagradável.

O país que exigimos e o país que ajudamos a construir 

Portugal não está imune a estas contradições. Criticamos o funcionamento do Estado, a burocracia, a  lentidão da justiça, as dificuldades dos serviços públicos e a qualidade das decisões políticas. Muitas  dessas críticas são justificadas, mas raramente aplicamos ao nosso comportamento a mesma  exigência que dirigimos às instituições.

Queremos serviços públicos eficientes, mas toleramos a falta de responsabilidade quando ela nos  favorece. Exigimos transparência aos governantes, mas relativizamos comportamentos eticamente  questionáveis quando são praticados por pessoas próximas das nossas preferências políticas.  Defendemos o mérito, mas continuamos a aceitar que relações pessoais, influência e conveniência  ocupem espaços que deveriam pertencer à competência. Reclamamos contra a corrupção, mas nem  sempre demonstramos igual indignação perante as pequenas práticas quotidianas que alimentam  uma cultura de favorecimento e desrespeito pelas regras.

Existe também uma facilidade preocupante em confundir o Estado com o governo do momento e a  nação com determinada orientação partidária. O Estado deve servir a comunidade política  independentemente de quem exerce temporariamente o poder, enquanto a Nação representa uma  continuidade histórica que ultrapassa governos, partidos e ciclos eleitorais. A incapacidade de  distinguir estas realidades empobrece a discussão pública e transforma questões fundamentais de  interesse coletivo em instrumentos de confrontação partidária.

A recente votação nas Nações Unidas sobre a escravatura transatlântica e as reparações históricas é  um exemplo da necessidade de defender a história nacional com conhecimento, rigor e independência  política. Reconhecer os abusos e as injustiças do passado, à luz dos valores e princípios morais  contemporâneos, não significa aceitar que acontecimentos de há vários séculos possam ser utilizados  para atribuir responsabilidades às gerações atuais ou exigir indemnizações financeiras ao Estado  português.

A história deve ser compreendida no enquadramento de cada época, considerando as circunstâncias,  os protagonistas e as realidades políticas, económicas e sociais que marcaram os acontecimentos,  sem os subordinar a interpretações orientadas por agendas políticas.

Portugal optou pela abstenção, acompanhando a posição europeia, quando poderia ter afirmado de  forma mais autónoma a sua posição histórica. Não se trata de negar ou justificar os acontecimentos  do passado, mas de recusar que a história de uma nação com quase nove séculos de existência seja  reduzida aos episódios que hoje merecem maior condenação, ignorando a sua contribuição para a  ciência, a cultura, a navegação e as relações entre povos. Uma nação que não conhece, não  compreende e não sabe defender a sua história abre espaço para que outros a interpretem e utilizem  segundo os seus próprios interesses.

Uma sociedade politicamente madura deveria conseguir criticar um governo sem hostilizar o Estado,  reconhecer problemas nacionais sem desprezar o país e defender a sua identidade sem transformar a  diferença numa ameaça. Quando estas distinções desaparecem, o debate degrada-se numa sucessão  de acusações em que quase todos reclamam direitos, poucos aceitam responsabilidades e a  construção de soluções acaba subordinada à necessidade permanente de encontrar culpados.

A vitória dos idiotas não precisa de um golpe de Estado 

Quando se fala na possibilidade de os idiotas tomarem conta do mundo, imaginamos frequentemente  figuras autoritárias a conquistar instituições ou dirigentes irresponsáveis a acumular poder. Mas existe  uma possibilidade bastante mais desconfortável: a mediocridade pode instalar-se democraticamente,

com eleições, aplausos, maiorias e uma população perfeitamente convencida de que está a fazer as  escolhas certas.

Não é necessário acabar com a liberdade de expressão quando a própria discussão pública se  transforma numa competição de insultos. Não é necessário proibir livros quando uma sociedade perde  o interesse pela leitura. Não é necessário destruir a educação quando o conhecimento deixa de ser  valorizado. E não é necessário impedir os cidadãos de participar na vida política quando estes se  afastam voluntariamente dela, convencidos de que nada merece o seu tempo, exceto aquilo que lhes  proporciona satisfação imediata.

A decadência de uma sociedade raramente se anuncia como decadência. Pode apresentar-se como  modernidade, liberdade individual, entretenimento permanente ou rejeição das autoridades  tradicionais e nenhuma destas realidades é necessariamente negativa. O problema surge quando a  liberdade se confunde com ausência de responsabilidade, a modernidade com desprezo pela  memória e o pensamento crítico com rejeição indiscriminada de todo o conhecimento.

Também seria perigoso acreditar que apenas os menos instruídos contribuem para esta situação. A  mediocridade atravessa classes sociais, níveis de escolaridade, profissões e instituições. Existem pessoas altamente qualificadas que utilizam o conhecimento para manipular, dirigentes  experientes que colocam interesses pessoais acima do interesse público e cidadãos instruídos que  abandonam qualquer espírito crítico quando estão em causa as suas preferências ideológicas. A  estupidez não possui classe social, certificado académico ou filiação partidária.

Quando deixamos de pedir competência a quem governa, rigor a quem informa, responsabilidade  a quem exerce influência e consciência cívica a quem participa na vida coletiva, criamos um  ambiente onde a mediocridade deixa de encontrar resistência. Quanto maior for o número de  pessoas que aceita estas condições, menor será o esforço necessário para as perpetuar.

Talvez a frase que dá título a este texto seja mais séria do que parece. Os idiotas não precisarão de  demonstrar mérito, conquistar respeito ou apresentar soluções. Bastará que sejam suficientemente  numerosos, suficientemente ruidosos e suficientemente persistentes para transformar a  superficialidade numa referência coletiva. O problema não está apenas nos políticos que temos, nos  dirigentes que observamos ou nas gerações que criticamos. Está também naquilo que toleramos, nos  comportamentos que premiamos e nas responsabilidades que recusamos.

Uma sociedade que perde a ligação à sua história, deixa de compreender o valor das suas instituições  e transforma os deveres coletivos numa preocupação secundária não precisa de ser conquistada por  ninguém. Vai entregando gradualmente a capacidade de decidir o seu próprio futuro, enquanto  permanece convencida de que a liberdade consiste apenas em poder fazer aquilo que lhe apetece.

E talvez a maior tragédia não seja o dia em que os idiotas tomarem conta do mundo, mas o facto de  podermos chegar a esse momento sem sequer perceber o que aconteceu. Estaremos demasiado  ocupados a discutir a última polémica, a defender o nosso político preferido ou a acompanhar  mais um espetáculo irrelevante. Quando finalmente olharmos à nossa volta, talvez já não reste  muito para defender.

O pão continuará a ser distribuído, o circo continuará cheio e os aplausos continuarão a ouvir-se. A  única diferença é que, desta vez, não poderemos dizer que ninguém nos avisou.