Refugiado do calor, num antigo convento convertido agora num museu, confrontando-me com uma das mais belas obras portuguesas contemporâneas – para mim, claro! – fecho os olhos por um instante e vejo, cá dentro, a dançar numa coreografia perfeitamente alinhada, a preto e branco de cinescópio, Diana Ross e as Supremes a interpretarem “Stop! In the name of Love”.
Não sei porquê, de repente. Mas percebo, de seguida, a razão.
Estou quase sozinho naquela sala. E sei, quase com certeza absoluta, que as praias estão cheias, os centros comerciais devem estar intransitáveis e as fontes de imperiais nas esplanadas correm em contínuo para servir as imensas sedes que se fazem sentir, mesmo que os ultravioletas estejam ao rubro.
Olhando em volta, de novo, penso que o algoritmo natural dos poucos que por ali se aproveitam do fresco e da arte que os rodeia, deve ter uma programação bem diferente daquele que nos é servido nas redes sociais que nos têm cativos nos scrolls infinitos, mesmo que as câmaras dos telemóveis estivessem em pleno uso para “picar o ponto” e postar de seguida a “descoberta”. É por isso que a música que me assolou o espírito era apenas o mote para refletir com o leitor sobre a importância de fixar o olhar, por mais do que um instante, numa imagem ou em qualquer realidade exatamente materializada à nossa frente, absorvendo-a apenas com os sentidos, sem máquinas, dispositivos, apps ou qualquer tecnologia pelo meio. Este luxo – porque, cada vez mais, parece ser um luxo raro, mas tão acessível – é mais do que um cliché: é a capacidade de olhar para alguma coisa e conseguir “absorver” o objeto à nossa frente com todos os sentidos e de todos os ângulos, sem a mediação de uma lente de 100 megapixels integrada com zoom panorâmico ou de um ecrã amoled UHD; ou, pior ainda, quando essa mesma imagem, plasmada, plastificada, verticalizada, é vista apenas por breves instantes no perfil de outrem, enquanto scrolamos (de certeza que já deve existir este verbo!) e damos mais atenção à legenda, aos comentários e às intrigas que os mesmos provocam no feed.
Esta necessidade de dizer que “estive aqui” retira muita da intensidade da visita a um qualquer novo local, mas talvez seja a conjugação de consequências das massificações do turismo e das redes sociais. Cada vez mais, quando visitamos um local, mais do que deixarmos deslumbrar-nos pelo novo, pelo belo, pelo desconhecido, pelo diferente, deixamo-nos levar apenas pelo melhor ângulo na paisagem para a selfie, do melhor filtro para evidenciar o “chique” que é aquela comida, do melhor título para postar a evidência de estarmos perante a descoberta de uma nova cultura ou de uma obra de arte que deveria assoberbar-nos a alma. Mas esta já está refém da droga barata do loop infinito dos posts, da dopamina que nos inunda as conexões que, se olhássemos à volta, seriam de maior prazer.
Não é uma crítica que aqui faço: é a constatação da realidade em que todos – eu, incluído – vivemos. Sem que seja positivo, sem que seja negativo, sendo apenas a expressão do mundo em que vivemos, dando um novo sentido ao antigo ditado, que gora talvez seja: cada um sabe de si, e nas redes sociais sabemos de todos.
Desconhecemos o que a inteligência artificial poderá trazer de positivo à arte mas, positivista como sou, espero que traga o melhor. Mas o que achávamos que as redes sociais e o aumento do turismo iam trazer aos museus, ao património, à cultura, parece que não se verifica hoje em dia. Todos considerávamos que maior divulgação traria mais visitantes, mais interesse e, por consequência, uma sociedade intelectualmente mais sólida. Na realidade, até agora só trouxe filas de gente ansiosa por pôr mais um visto na sua bucket list de coisas a postar e a mostrar aos outros, mas pouco acrescentado ao conhecimento de cada um, aumentando as receitas de bilheteira, deixando mais dinheiro para conservar, mas deixando de parte o questionamento profundo sobro o quê e o porquê daquilo que se está ali a ver.
Nem sei se falta uma política cultural. Talvez porque a cultura não se faça por decreto. Mas faltará uma reflexão profunda sobre a forma de dar alimento cultural às cabeças enquanto vagueiam de olhos vazios pelos feeds. Talvez a cultura tenha que descer do pedestal e entrar nas redes sociais de uma forma didática, combatendo a frívola informação daquele tiktok de 10 segundos de um qualquer influencer está a gravar, enquanto perturba o direito ao silêncio da minha contemplação, perante a grandiosidade daquela obra e da música que me ocupava, em surdina, a minha cabeça vazia.