Acredito que dois fenómenos vão marcar os próximos anos:

  • Um mundo menos global e cooperativo a que nos habituámos nos últimos setenta anos, onde a própria democracia não pode nem deve ser tida como garantida, e onde a defesa dos valores universais e humanísticos será um desafio.
  • O desenvolvimento da Inteligência Artificial e, acima de tudo, o seu controlo e regulação de forma que os riscos de se vire contra a própria Humanidade possam ser eliminados.

Com este pano de fundo, que papel deve ter a Educação – e, em particular, a educação superior e para executivos?

A primeira resposta é clara: a educação não pode limitar-se à transmissão de conhecimentos técnicos ou científicos. Num contexto de incerteza e complexidade crescentes, é imperativo formar líderes capazes de interpretar sinais contraditórios, agir com coragem e, sobretudo, tomar decisões ancoradas em princípios éticos sólidos. Mais do que nunca, a capacidade de pensar criticamente, de questionar suposições e de compreender as implicações de cada decisão para a sociedade e para o planeta será determinante.

A segunda resposta é que a educação tem de se preparar para a mudança permanente, o conhecimento envelhece rapidamente e as competências técnicas de hoje podem ser obsoletas amanhã. Por isso, o papel das universidades e escolas de negócios não é apenas “ensinar”, mas criar uma mentalidade de aprendizagem contínua, de curiosidade intelectual e de adaptação rápida. A formação para executivos deve tornar-se um espaço seguro onde se experimentam ideias, se exploram cenários futuros e se treinam respostas a crises imprevistas.

Se assim é, o desafio passa a ser como articular estas respostas com os dois fenómenos citados ao início.

No campo geopolítico, num mundo fragmentado e mais competitivo, a educação deve promover competências de diplomacia, negociação intercultural e construção de consensos. A colaboração internacional pode estar sob pressão, mas continuará a ser essencial para enfrentar desafios que não conhecem fronteiras: alterações climáticas, pandemias, migrações e regulação tecnológica. Formar executivos capazes de liderar com empatia, de ouvir o outro lado e de construir pontes será um imperativo estratégico.

E no caso da Inteligência Artificial, não basta formar especialistas em programação ou análise de dados. Precisamos de líderes que compreendam tanto o potencial transformador da tecnologia como as suas implicações éticas, jurídicas e sociais. É preciso saber formular as perguntas certas, avaliar riscos, criar mecanismos de transparência e envolver múltiplos stakeholders no processo de decisão. A tecnologia, por si só, não garante progresso – é a forma como a usamos que determinará se ela reforça ou ameaça a Humanidade.

Apesar das incertezas, há espaço para esperança, o futuro não está pré-determinado – é moldado pelas decisões que tomamos hoje. E é precisamente nos momentos de maior tensão que a educação pode ter um efeito multiplicador: inspirar pessoas a agir, a inovar e a procurar soluções que equilibrem prosperidade económica, coesão social e sustentabilidade ambiental.

O desafio para universidades e escolas de negócios é claro: assumir um papel ativo na formação de líderes mais conscientes, preparados para lidar com realidades complexas e dispostos a usar o seu poder de influência para criar impacto positivo. Não se trata apenas de preparar para o próximo trimestre ou para a próxima meta de crescimento, mas de capacitar para pensar a 10, 20 ou 30 anos – com visão estratégica e sentido de responsabilidade global.

Porque, mesmo com um horizonte marcado por riscos e instabilidade, a história mostra que sociedades que investem na educação das suas lideranças saem mais fortes das crises. O futuro pode ser incerto, mas está nas nossas mãos – e nas mãos daqueles que formamos – transformá-lo num lugar de oportunidades, onde inovação e valores caminhem de mãos dadas.