Apesar de os sucessivos governos afirmarem a intenção de valorizar o ensino profissional, os dados mais recentes indicam uma queda do número de alunos matriculados. Além disso, a escolha dos cursos, levanta uma questão: estarão os jovens a escolher os cursos certos para responder aos desafios do mercado de trabalho e aceder a melhores oportunidades salariais?
Na minha opinião e pelos dados de que disponho, o ensino profissional continua marcado por um estigma social persistente e por um desalinhamento estrutural entre as qualificações efetivamente requeridas pelo mercado de trabalho, a oferta disponibilizada pelas entidades formadoras e as decisões educativas tomadas por alunos e respetivas famílias
Testemunho, enquanto professora e vice-presidente de uma associação com relevante experiência em aproximar o tecido empresarial e as instituições de ensino, muitas situações que ilustram esta realidade. Observo desde preconceitos dos familiares, dos jovens e dos professores até à desinformação nas próprias instituições de ensino.
Uma aluna confidenciou-me que os familiares e amigos insistiram para não optar por um curso profissional — “esses cursos são para os burros”, disseram-lhe. Este tipo de comentário continua a ser comum, refletindo uma visão desatualizada e injusta sobre este tipo de formação que deveria ser valorizado. Nas salas de professores, também se perpetuam ideias semelhantes: os alunos sem sucesso no ensino regular são frequentemente vistos como os “candidatos naturais” ao ensino profissional, como se este fosse um caminho de segunda escolha.
Os professores, por sua vez, mostram resistência em lecionar estas turmas, apontando a indisciplina e a desmotivação como um problema generalizado. Por outro lado, os diretores de curso, incumbidos de garantir estágios em empresas, relatam dificuldades em encontrar entidades dispostas a cumprir verdadeiramente o seu papel na formação prática dos jovens.
Um exemplo revelador foi partilhado por um aluno, que contou ter passado grande parte do estágio a tirar fotocópias ou ao telemóvel, sem tarefas concretas relacionadas com o curso que frequentava.
A desinformação é muita e a diferentes níveis. Quer professores, quer alunos e famílias desconhecem que há possibilidade de prosseguir estudos universitários, quais as saídas profissionais e a percentagem de empregabilidade.
Paradoxalmente, empresas de diversos setores manifestam dificuldade em encontrar técnicos qualificados. Algumas estão dispostas a acolher estagiários e a colaborar com as escolas, mas enfrentam um obstáculo inesperado: a falta de alunos interessados. As escolas com capacidade para oferecer cursos alinhados com estas necessidades relatam dificuldades em atrair estudantes — muitos jovens preferem outras áreas, como a do desporto, mesmo sem garantias de empregabilidade e mais fascinados pelo prestígio social.
Ora em janeiro deste ano, a Comissão Europeia lançou a iniciativa Competitiveness Compass, um quadro estratégico para impulsionar a inovação e a reindustrialização da Europa, que a concretização das obras previstas através do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) têm esbarrado na escassez de mão de obra qualificada e que empresários de diversos setores têm reiterado a urgência de alinhar a formação profissional com as necessidades reais do tecido produtivo, especialmente em áreas técnicas, onde o envelhecimento da população ativa agrava ainda mais a falta de jovens qualificados, é inevitável perguntar: o que está a falhar?
Apesar dos sucessivos governos afirmarem a intenção de valorizar o ensino profissional, os dados mais recentes indicam uma queda do número de alunos matriculados. Além disso, a escolha dos cursos, levanta uma questão: estarão os jovens a escolher os cursos certos para responder aos desafios do mercado de trabalho e aceder a melhores oportunidades salariais?
Uma análise simples revela o desfasamento. O somatório do número de alunos inscritos, nos últimos anos em cursos profissionais, nas áreas de formação, por exemplo, de eletrónica e automação, de construção civil e de metalurgia/metalomecânica, setores importantes para a economia, designados no gráfico abaixo como “restantes cursos” é menor do que o número de alunos inscritos em cursos na área de desporto, que não enfrentam dificuldades em atrair candidatos. Sublinhe-se que em “restantes cursos” foram consideradas três áreas de formação que integram quarenta e três cursos profissionais e a área de formação desporto contempla dois cursos profissionais.
Impõe-se perguntar: se estes alunos e as respetivas famílias tivessem tido acesso a dados concretos sobre a empregabilidade e o salário médio associados a estas formações, teriam feito a mesma escolha? Será que a sociedade portuguesa encara com menos estigma um curso de desporto do que um curso de eletrónica ou construção civil? A resposta parece óbvia. Persistem preconceitos sociais enraizados que influenciam decisões determinantes para o futuro dos jovens e para o desenvolvimento do país.
É, pois, inevitável perguntar: quais serão, a médio e longo prazo, as consequências económicas desta desinformação e desta desconexão entre o ensino profissional e o mercado de trabalho? As consequências estão à vista: faltam técnicos qualificados em setores estratégicos como a indústria, a energia ou a construção, enquanto escolas com capacidade para formar jovens nestas áreas não conseguem preencher vagas.
Urge, pois, trabalhar, de forma concreta e coordenada, em dois eixos fundamentais: a comunicação e o envolvimento do tecido empresarial.
É necessário comunicar com transparência, eficácia e coragem. Os jovens precisam de ter acesso a dados reais sobre empregabilidade, salários e perspetivas de carreira. Essa informação deve ser divulgada através dos meios que estes realmente utilizam.
As escolas têm de dispor de informação clara e atualizada sobre a empregabilidade de cada curso, os salários médios e as reais perspetivas de futuro em cada área. Só com esses dados poderão orientar de forma responsável os alunos. Além disso, é fundamental reforçar o trabalho de proximidade com as famílias. Muitos pais desconhecem por completo as implicações das escolhas dos filhos, confiando em perceções erradas ou em tendências sociais. E sendo parte ativa no processo, podem estar mais alinhados com o futuro.
O envolvimento do tecido empresarial é crucial no desenvolvimento das formações. Sendo, em grande maioria de pequena e média dimensão, a sua organização em clusters, com o envolvimento das autarquias, permitiria formar os profissionais necessários e adaptar os conteúdos às necessidades.
Desse modo, e sob pena de continuarmos a formar jovens para o desemprego, impõe-se, pois, um esforço coordenado entre escolas, famílias, empresas e decisores para que o potencial do ensino profissional não continue a ser subvalorizado e, com isso, perdidas oportunidades de um futuro mais promissor para muitos jovens e para o desenvolvimento de setores estratégicos da economia.