A Rosa vive na Margem Sul, é mãe solteira de dois filhos, um com 8 anos e outro com 15.
Acorda todos os dias às 5h30m para preparar as refeições e a roupa do filho mais novo. Às 6h30m, já está a caminho de Lisboa onde trabalha como empregada doméstica numa casa de família. O filho mais velho, de 15 anos, é responsável por levar o irmão à escola, mas os atrasos são frequentes. A Rosa tenta coordenar tudo por telefone, mas nem sempre consegue. Já foi chamada à escola devido às faltas do filho, mas não pode fazer nada.
Entre as 16 e as 19h, tem mais dois turnos de trabalho e regressa pelas 20h30m a casa. Aos sábados ainda trabalha no café do bairro onde reside para complementar o orçamento familiar, pois “todo o dinheiro faz falta”, explica.
Recentemente, o filho de 15 anos pediu à mãe um iPhone de presente de aniversário, porque todos os amigos têm um. A Rosa, por sua vez, questiona-se: como é possível que algumas das famílias dos amigos do filho que vivem com apoios sociais consigam oferecer bens tão caros aos filhos?
Enquanto professora do ensino público, testemunho frequentemente situações semelhantes à descrita anteriormente. Estas questões são, muitas vezes, comentadas em tom discreto na sala de professores, por receio de que o politicamente correto, cada vez mais presente, imponha uma espécie de censura ao debate.
Sempre que encontro oportunidade, reforço junto dos meus alunos a importância dos estudos como caminho para uma vida melhor. Informo-os de que, na generalidade, há uma relação de proporcionalidade direta entre a
formação académica e os salários que poderão auferir no futuro. Contudo, na maioria das vezes, esta ideia não é aceite com facilidade.
O argumento que mais escuto é alarmante: “os nossos pais trabalham arduamente e mal conseguem sustentar a família, então por que devemos estudar e trabalhar, se podemos viver sem esse esforço?”. Esta perspetiva revela um problema estrutural que ultrapassa a sala de aula e lança luz sobre questões
profundas relacionadas com a motivação, a meritocracia e os valores que são transmitidos às novas gerações.
Questiono se estamos a falhar na comunicação do real valor do trabalho e da educação? Que sinais estamos a dar àqueles que serão os próximos protagonistas da sociedade? Se, muitas vezes, a perceção entre os jovens é de que esforço e estudo não garantem um futuro melhor, como poderemos esperar que valorizem a formação e se empenhem no desenvolvimento pessoal e profissional? E, será que devemos falar baixinho sobre este assunto ou denunciá-lo abertamente? E se denunciarmos, que acontece? A quem devemos dirigir as nossas preocupações?
Se, também, e de acordo com a 20ª edição do Global Risks Report, do Fórum Económico Mundial, a falta de mão-de-obra e talento é uma das principais preocupações dos líderes portugueses, que está a falhar? A requalificação profissional oferecida é inadequada? Os beneficiários cumprem efetivamente as suas obrigações? Ou há falhas no sistema de fiscalização? São questões urgentes que precisam de respostas.
Por outro lado, é notório que as propostas para a realização de trabalho de natureza social são escassas. Mas será que não existe necessidade? Afastar os beneficiários de subsídios do mercado de trabalho será realmente benéfico para a sua reintegração e autonomia?
Urge envolver as entidades públicas e o setor empresarial, para que trabalhem em conjunto na criação de modelos que ajustem as necessidades do mercado de trabalho às formações disponíveis. É fundamental que haja uma ponte eficaz entre a qualificação e a empregabilidade, permitindo que aqueles que recebem
apoio do Estado possam ter oportunidades reais de requalificação e inserção profissional.
A evolução tecnológica proporciona ferramentas avançadas para este desafio. A inteligência artificial e as plataformas informáticas já têm capacidade de recolher, tratar e cruzar dados para identificar oportunidades de emprego e formação adequadas aos perfis dos beneficiários. Porque não utilizar estas ferramentas de forma colaborativa entre as instituições públicas e privadas?
Este é um tema que deve ser discutido de forma aberta e transparente. O silêncio apenas gera espaços vazios, frequentemente ocupados por narrativas distorcidas e factualmente falsas. É essencial que a sociedade encare esta questão de forma construtiva, promovendo soluções que beneficiem tanto os indivíduos como a comunidade.
Como professora, vejo a importância de transmitir aos jovens o valor de um Estado social e humanista, que não apenas apoia nos momentos difíceis, mas também oferece meios para recomeçar.
Caso contrário, corremos o risco de formar uma geração descrente, sem ambição e sem a esperança de que, do esforço individual resulte progresso e ascensão social. E, nesse cenário, todos sairemos a perder.