Este artigo não visa a defesa de ninguém, muito menos, o ataque seja a quem for. Trata-se de uma análise que coloca a filosofia no seu papel de criadora de conceitos, procurando ultrapassar debates superficiais e desprovidos de sentido.
Não é novidade a ideia disseminada de uma suposta incompatibilidade entre Maçonaria e Cristianismo, sobretudo no contexto do Catolicismo. Se, por um lado, a Igreja Católica e alguns ramos protestantes mantêm a sua posição de rejeição face à Maçonaria, por outro, é sabido que, em várias lojas maçónicas, a adesão exige que o candidato afirme a sua fé num Deus revelado.
Em vez de reiterar argumentos intemporais e muitas vezes vazios, importa questionar – a partir da experiência humana – se existe, de facto, uma incompatibilidade real entre estas duas realidades.
Começo por me socorrer de Søren Kierkegaard, o autor que escreveu um livro para explicar que não era apenas um filósofo ou um escritor estético, mas sim um autor religioso cujo objetivo é ajudar os indivíduos a tornarem-se verdadeiros cristãos: “Om min Forfatter-Virksomhed” ( traduzido para português como “ Ponto de Vista Explicativo da Minha Obra como Escritor”). Para Kierkegaard, ser cristão não consiste numa mera adesão institucional, mas numa tarefa existencial que exige decisão e compromisso pessoal, num contexto em que a experiência da fé é frequentemente negligenciada.
Esta abordagem valoriza a vivência individual e a escolha existencial, contrapondo-se a visões que procuram compreender o Cristianismo por meio de sistemas racionais e objetivadores. O que verdadeiramente importa é a prática pessoal do Cristianismo, que se traduz num compromisso ético e espiritual intrinsecamente humano.
Kierkegaard critica ainda o conceito de “Cristandade” enquanto obstáculo à verdadeira fé. Segundo ele, ao institucionalizar a religião, a sociedade transforma o Cristianismo num conjunto de rituais e doutrinas desprovidas do elemento vital – o compromisso pessoal com Deus. Para ele, a fé não é um exercício meramente racional, mas um paradoxo existencial que exige um salto qualitativo – uma entrega radical ao sagrado, revelada na vivência autêntica da existência, na tensão entre a finitude e aquilo que a transcende.
Esta perspetiva remete-nos às palavras de Cristo no Sermão da Montanha:
“Tu, quando rezares, vai para o teu quarto e , fechando a porta, ora ao teu pai em segredo. E o teu pai, que vê no que está escondido , recompensar-te-á” (Mateus 6,6, tradução de Frederico Lourenço).
Aqui encontramos o chamado à experiência íntima e direta da fé, livre dos dogmas e dos sistemas teológicos. Santo Agostinho expressa uma ideia semelhante quando afirma: “Se compreendeste, não é Deus” (Si comprehendis, non est Deus, sermão 117,3). Ou seja, o divino não se apreende por meio de formulações racionais ou sistemas teóricos, permanecendo misterioso e vivo na experiência pessoal.
Se, ao abandonar dogmas em prol de uma fé autêntica e existencial, se compreende que o Cristianismo assume uma dimensão essencialmente pessoal, torna-se evidente que não existe uma incompatibilidade fundamental entre Maçonaria e Cristianismo. Ambas partilham um percurso ético que transcende o mero ritual, fundamentando-se na vivência direta do sagrado.
Numa Europa desesperadamente à procura de identidade, é imperativo mapear a história – não no sentido tradicional, mas à luz do novo materialismo, que propõe uma abordagem dinâmica, relacional e não linear, centrada nas interações e forças que moldam a realidade. Assim emerge o paradoxo da fé: uma tensão entre o material e o transcendente que se revela como elemento constitutivo da sabedoria necessária à reconstrução da essência ocidental, por oposição à sabedoria baseada no conformismo. Desta forma, instituições tão importantes na formação do pensamento ocidental devem ultrapassar antagonismos artificiais e abraçar um diálogo profundo sobre a condição humana, desafiando-nos a transcender os limites do finito.