Nas últimas semanas, o Porto viu-se novamente dividido por uma questão que vai muito além da arquitetura: a polémica em torno das torres projetadas para a Foz do Douro revelou fraturas profundas na forma como concebemos o futuro urbano da cidade.

Está prevista a construção de três torres residenciais na Avenida Nun’Álvares, com alturas entre os 78 e os 86 metros e 25 pisos cada. Um processo aprovado pela maioria da vereação da Câmara Municipal do Porto, com base num plano de urbanização discutido publicamente durante vários meses. No entanto, a proposta gerou uma mobilização cívica inédita, centrada sobretudo na elite residente na zona da Foz. Os argumentos invocados são familiares: excesso de densidade, congestionamento, alteração da paisagem urbana e, em última instância, o receio de “gente a mais”.

Curiosamente, projetos com volumetrias semelhantes noutras zonas da cidade, como o Campo 24 de Agosto, passaram praticamente despercebidos à opinião pública. A indignação, portanto, não é contra a altura em si, mas contra a sua localização. O problema não são as torres, mas sim a quem as torres fazem sombra.

Este episódio ilustra de forma paradigmática uma característica estrutural da cultura urbana portuguesa: a aversão à construção em altura, que em certos contextos se transforma em resistência quase caricatural. Em vez de debatermos com seriedade os méritos ou deméritos da densificação — do ponto de vista da sustentabilidade, da equidade, da eficiência urbana — resvalamos frequentemente para um debate populista, emocional e territorializado. E, neste caso, a proximidade das eleições autárquicas amplifica as posições mais conservadoras.

Contudo, é precisamente em momentos como este que importa repensar o papel da verticalidade na cidade contemporânea. A construção em altura, quando devidamente regulada e integrada, tem benefícios claros: reduz a pegada ambiental, permite cidades mais densas e compactas, viabiliza modelos de mobilidade sustentável e liberta território rural para a sua função ecológica e produtiva. É também uma forma de responder à pressão imobiliária sem recorrer à expansão descontrolada do perímetro urbano.

Além disso, os lotes em causa neste projeto incluem áreas destinadas a habitação acessível, um fator que raramente ganha o mesmo destaque mediático que as preocupações estéticas dos residentes.

Há, evidentemente, espaço para debater a qualidade arquitetónica e urbanística do projeto. Mas rejeitá-lo à partida, apenas porque rompe com a escala tradicional da Foz, revela um medo do futuro disfarçado de defesa do património. É a velha história portuguesa: sempre que há uma oportunidade de crescimento urbano, surgem os “velhos do Restelo” a avisar que perderemos a nossa identidade.

O que esquecem é que a cidade é, por definição, mudança. O Porto de hoje não é o mesmo de há cinquenta anos — e ainda bem. É uma cidade que atrai talento internacional, que vê regressar emigrantes qualificados, que se afirma como destino cultural e económico à escala global. Essa energia de transformação deve ser canalizada com visão, não travada com receio.

Por isso, a questão de fundo permanece: pode a altura de um edifício medir a ambição de uma comunidade? Num certo sentido, sim. Não se trata apenas de metros de betão, mas de medir a nossa disponibilidade para viver próximos, partilhar o espaço urbano, criar densidade, diversidade e riqueza coletiva. Rejeitar tudo o que seja novo, alto ou diferente é um sintoma de um urbanismo defensivo, elitista, de costas voltadas para o futuro.

Com este projeto, como com tantos outros, não está em causa retirar nada a ninguém. Está em causa aumentar o bolo: oferecer mais habitação, mais cidade, mais espaço público, mais qualidade de vida. O que está em jogo é se queremos uma cidade para todos ou apenas para alguns.

Num tempo em que o mundo enfrenta uma crise climática, uma crise habitacional e uma crise de confiança nas instituições, a cidade precisa de soluções corajosas. A ambição de um povo mede-se na forma como desenha o seu território e, sobretudo, na generosidade com que o partilha.

Imagem das três torres que podem nascer na futura via Nun’Álvares