Enquanto o mundo mediático discute se os factos da diminuição da criminalidade demonstram a realidade de forma mais ou menos credível que as perceções de parte dos decisores políticos, as grávidas de Portugal são cobaias silenciosas.

Em Lisboa e Vale do Tejo as grávidas só podem entrar nos hospitais após contactarem o SNS 24. O Governo apresentou a medida como uma forma de organização eficiente, mas, na realidade, é uma forma de transferir responsabilidades para quem mais necessita de apoio. O ónus de uma rápida assistência fica do lado dos profissionais de uma linha telefónica sobrecarregada e das próprias grávidas.

A insensatez desta medida é demonstrada na frieza dos cartazes colocados à entrada dos hospitais. Muitas mulheres, desinformadas, acabam por não ser atendidas, outras têm de descrever os seus sintomas a um operador telefónico, sem a segurança de uma avaliação presencial. Como pode uma grávida decidir sozinha, em casa, a gravidade de uma dor? Decisões que deveriam ser tomadas por profissionais experientes são agora exigidas a quem está em situações de extrema vulnerabilidade.

Um direito fundamental foi transformado em mais um obstáculo no acesso ao SNS e em mais uma motivação para que, quem possa, recorra aos serviços privados de saúde. Esses, em caso de gravidade, não precisarão ligar para o SNS 24 para transferir as gestantes para um hospital do SNS.

O próprio governo duvida da eficácia desta medida, caso contrário, caso tivesse evidência científica que sustentasse a decisão, não teria anunciado que esta medida tem em Lisboa um projeto piloto. Isto é, as grávidas são cobaias de uma experiência. Bastará uma percentagem menor de atendimentos de urgência para se anunciar o sucesso, no entanto, os riscos deste sucesso quantitativo é a saúde das gestantes e dos bebés nos próximos meses e anos. Esses números dificilmente serão identificados como consequência desta experiência.

Não resolve qualquer problema estrutural: a dificuldade de reter e atrair recursos humanos, o excesso de carga horária de muitos profissionais, centros de saúde sem médicos, sem senhas, sem possibilidade de receber os casos menos graves e consultas com tempos de espera indesejáveis.

A linha telefónica não resolve as deficiências estruturais do SNS. É apenas um paliativo que quer disfarçar os verdadeiros problemas. Problemas mais difíceis de solucionar e incompatíveis com discursos populistas. Quem perde? As grávidas que precisam do SNS , e, em vez de assistência, encontram obstáculos e são vítimas de um sistema que as coloca em experiências.