As noites de quinta-feira são do YouTube. Enquanto os canais de televisão servem o guião do costume, eu vou onde o lápis azul não chega. Entre o Econoclasts e o Quite Right!, ou, para desanuviar, o Mechanix Illustrated e o The Race, há sempre lugar para Katharine Birbalsingh, de quem já aqui falei, a directora de escola, que Londres, consoante o dia da semana, ora idolatra ora crucifica. Esta semana, no Strictly Education, o tema era Nikole Hannah-Jones, um nome que em Portugal diz pouco, embora algo da sua história seja bem nosso.

Na Fenprof, no Livre ou no Vamos, há-de haver um altar em seu nome, com Mamadou Ba a acender as velas. Em Agosto de 2019, concebeu para a New York Times Magazine o Projecto 1619, um número inteiro dedicado aos quatrocentos anos da chegada dos primeiros africanos escravizados à Virgínia. A tese era ousada: 1619, e não 1776, foi a data da fundação de facto do país.

No ensaio de abertura, assinado por ela, lia-se que um dos principais motivos da independência fora proteger a escravatura. Cinco historiadores, dois deles vencedores do Pulitzer de História, escreveram ao jornal a contestá-lo. Nenhum deles disse nada que o jornal não soubesse. Leslie M. Harris, a historiadora que o próprio New York Times contratara para verificar o texto, tinha contestado a tese ainda antes de sair. O jornal publicou-a na mesma. Em Março de 2020, admitiu que a afirmação não se sustentava como estava escrita e corrigiu-a. A dita correcção resumiu-se em duas palavras: onde se lia “colonos”, passou a ler-se “alguns dos colonos”. Noutro ensaio da mesma série, um sociólogo de Princeton explicava que o contabilista que amortiza um activo, ou o gestor que passa a tarde a preencher uma folha de Excel, repete rotinas nascidas nas plantações de escravos. Esquecendo que a chamada “partida dobrada” foi inventada pelos banqueiros italianos da Baixa Idade Média, séculos antes das plantações da Virgínia.

Foi com ideias destas, ou precisamente por elas, que se tornou a coqueluche do movimento woke. E ser apóstolo woke paga bem. A Universidade do Wisconsin pagou-lhe 55 mil dólares por uma palestra. A do Oregon pagou 25 mil por uma aula por Zoom. E o centro que fundou na Universidade Howard recebeu 20 milhões de dólares em donativos. Pelo caminho, a Fundação MacArthur deu-lhe a bolsa dos génios, destacando um ensaio de 2016 sobre a escola que escolhera para a filha.

Nesse ensaio de 2016, Hannah-Jones explicava porque recusara as escolas prestigiadas que podia pagar e matriculara a filha na P.S. 307, em Brooklyn, junto a um bairro social, com 91% de alunos negros e latinos. Sentia a obrigação de pôr o bem colectivo à frente da vantagem individual. Não sabia se tomara a decisão certa, escreveu, mas sabia que fora a decisão justa. A filha acabou como cobaia de uma batalha cultural que a mãe travava por convicção. Hannah-Jones fez o que prega, e isso distinguiu-a, senão de toda, da maioria da gente que a aplaudiu. E se não lhe abriu os olhos, abriu-os à filha. Os nossos evangelizadores nunca correriam esse risco. Para eles, o bem colectivo é matéria de horário nobre.

Dez anos depois, a filha feita cobaia falou. A 20 de Setembro, na mesma revista, Hannah-Jones publicou a sequela, com uma pergunta por título: ao lutar por todas as crianças negras, terei traído a minha? Na primária, descreve crianças à solta à hora de almoço, a bater e a empurrar-se enquanto as auxiliares assistiam, entediadas, e professores cronicamente ausentes. A cidade tinha deixado de lado os testes como requisito para decidir as passagens de ano e, com eles, as escolas tinham deixado de corrigir os exercícios. Sem uma coisa nem outra, Najya foi passando de ano a julgar-se boa a Matemática, que era a disciplina de que mais gostava. Era como jogar futebol sozinho a vida inteira e achar que se é o Cristiano Ronaldo. A mãe seguiu apontando ao suspeito do costume, o racismo do sistema. Vinte anos a escrever sobre o racismo do sistema e nenhum sobre exercícios por corrigir.

A filha resumiu tudo numa frase: «Nunca cheguei a ter a educação que queria.» A mãe, noutra: «Sinto que falhei aos meus valores e à minha filha.» Para o liceu, deixou a escolha à filha, com uma única condição: que fosse público. Najya escolheu uma escola pública selectiva, num bairro rico, com alunos maioritariamente brancos e asiáticos, precisamente o género de selecção que a mãe denunciara durante anos como instrumento de segregação. Selectiva não como aqui, por exame nacional, mas pelas notas que cada aluno traz da escola de onde vem. Foi admitida com os As, os nossos vintes, de uma escola onde ninguém corrigia exercícios. Uma mãe nova-iorquina lembrou-lhe o resto: as escolas como aquela passaram anos a ser acusadas de segregação, e só existem hoje porque houve pais que resistiram a que lhes tirassem os critérios de entrada. Najya entrou por uma porta que a mãe procurou fechar.

Perante tudo isto, Hannah-Jones não perdeu a fé. A culpa é da segregação, da escolha dos outros pais, da falta de meios, e assim por diante. Vale a pena pôr essa falta de meios em perspectiva: a P.S. 307 tinha nove alunos por professor e gastava mais de cinquenta mil dólares por ano em cada um, aproximadamente sete vezes o que Portugal gasta por aluno. Nove crianças por adulto, cinquenta mil dólares cada, e ninguém a controlar recreios ou corrigir os exercícios. Hannah-Jones tem, porém, um mérito e convém sublinhar, pois é raro. Fez a experiência com a filha e publicou os resultados sem os esconder. Provou, com nomes e moradas, que uma escola sem exames, sem trabalho corrigido e sem autoridade não funciona, e que quem pode vota com os pés. Jenisha Watts, redactora da Atlantic, amiga e confidente, tirou a conclusão lógica e vai pôr o filho no privado.

Os nossos evangelizadores, esses, não perderiam tempo com romances destes. Em Junho de 2016, uma coluna no Público recomendava a Alexandra Leitão que lesse «o extraordinário exemplo pessoal» de Hannah-Jones. A secretária de Estado que acabara de assumir o corte nos contratos de associação com os colégios não precisava do conselho: para as próprias filhas já tinha encontrado outra solução, a Escola Alemã, em nome de «um currículo internacional». António Costa pôs os filhos no Colégio Moderno, da família Soares. Pedro Nuno Santos fez o mesmo com o filho. Na TVI, este último garantiu não haver contradição nenhuma, «como se os socialistas fossem contra a existência do ensino privado». Tem razão, são clientes reincidentes. Os filhos de José Sócrates passaram, segundo a imprensa, pela Escola Alemã, e o próprio reduziu a «vida faustosa» de que o acusavam em Paris a tê-los numa escola privada internacional. Rui Tavares tem os seus numa escola internacional privada.

E se a prática é distinta, o guião dos nossos é o mesmo. Lá, deixaram de usar os testes para decidir as passagens de ano. Cá, acabaram-se os exames nacionais do básico. Em ambos os casos, as notas no papel subiram, a realidade ficou escondida até alguém de fora a medir, e a culpa foi sempre da estrutura, nunca de quem estava na sala. É a mesma fé: o problema é sempre o sistema, e a solução é sempre mais do mesmo sistema. O sindicato sabe sempre melhor, o dinheiro nunca chega e a batalha entre opressores e oprimidos nunca acaba. O resultado conhece-se. No PISA divulgado a 8 de Setembro, Portugal teve a Leitura no pior resultado de sempre, abaixo do que registou em 2000, e a Matemática perdeu 33 pontos desde 2018, qualquer coisa como ano e meio de escola pela bitola da OCDE. Os americanos caíram ao mesmo tempo e pela mesma ordem de grandeza. Duas maneiras diferentes de chegar ao mesmo sítio, e nenhuma delas por falta de gasto público. Hoje, 28 de Setembro, o ano lectivo ainda nem leva um mês e já seis mil professores estão em baixa médica. Uma pandemia selectiva, aparentemente pouco interessante para ser investigada a fundo. Na terça-feira passada, dois mil horários continuavam por preencher, metade deles desde 4 de Setembro.

Em Fevereiro de 2024, depois de um debate entre Rui Tavares e André Ventura dominado pelo assunto, João Miguel Tavares escreveu no Público que perguntar onde estudam os filhos dos políticos não é invasão de privacidade nenhuma. Tinha razão, e fica-se por aí. A pergunta é legítima, mas devia chegar mais longe. O que interessa não é onde estudam os filhos deles, é o que mudava se estudassem noutro sítio. Hirschman explicou, em 1970, o preço dessa saída: quando os pais que mais exigem trocam a escola pública pelo colégio, a escola fica sem a voz que a obrigava a melhorar. Friedman acrescentou o resto. Ninguém gasta o dinheiro dos outros com o cuidado com que gasta o seu, e ninguém decide tão mal como quem não sofre a decisão. Imagine-se, por hipótese, um país onde quem manda na escola pública tivesse lá os filhos. Do presidente da junta ao Presidente da República, passando pelo último nome de qualquer lista. Não era preciso mudar-lhes as convicções, bastava-lhes um Setembro. Ao segundo ano sem professor de Matemática, o debate deixava de ser sobre o estatutos, progressões, escalões e a interminável colecção de direitos que a Fenprof foi elevando à categoria de emergência nacional. E passava a ser sobre problemas reais. Bastava uma reunião de pais.