A hipocondria é o último refúgio da liberdade de expressão. As opiniões que eu tenho sobre a minha saúde são inescrutáveis. As que tenho sobre a dos outros são inesgotáveis. Falar sobre as oscilações da saúde própria ou alheia é motivo de alegria selvagem.

A hipocondria é felizmente encorajada. Confrontados com a inexistência de grandes assuntos de conversa, com o fim de aventuras e perigos, e com uma certa reticência em relação à justificação das nossas ideias, os cientistas sociais perceberam logo que era importante que as energias que os nossos antepassados tinham usado para falar de deuses, caçar ursos e provar teoremas fossem convenientemente aproveitadas. Agora que os príncipes deste mundo têm o espírito e o poder das ciências sociais, o aproveitamento dessas energias passou a ser uma questão de políticas públicas.

Eis simplificada a génese dos costumes e instituições de saúde modernos. Diz-se muitas vezes que a saúde constitui um direito. Em que sentido porém será um direito? Entendida em abstracto, como um direito natural, a ideia de direito à saúde é uma contradição nos termos, tão vápida como o direito a construir uma ameixa ou a deixar um prédio casar-se: a quem nos queixaríamos de uma pedra no rim? A única defesa do direito à saúde só pode ser a defesa da liberdade de expressão. A saúde encoraja com efeito que nos exprimamos em público a respeito de nós próprios e dos outros, e representa mesmo o último, e possivelmente o único, assunto a respeito do qual  qualquer pessoa pode falar com desenvoltura e autoridade.

Não admira por isso que a imprensa livre dependa do sistema nacional de saúde. Logo que arrumadas as solicitações mais urgentes daquilo que acontece acontecer, reiteradamente cantam-se ali no modo hipocondríaco calos, ambulâncias, consultas e nervos. O cimento das sociedades onde coexistem sistemas de saúde e uma imprensa livre deve-se à possibilidade de partilhar histórias de doenças e dos seus arredores.

‘Também eu fiz uma rinite’, confessa-se nessas cerimónias, intimando apuro e conhecimento técnico. De facto, num estado de saúde moderno nada acontece e tudo se faz. Mas ao falar das várias coisas que fiz, e quantas vezes a propósito da saúde dos outros, estou a falar daquelas acções realizadas em que não compito com mais ninguém, de acções a respeito das quais, como à minha rinite amoravelmente feita, não reconheço a mais ninguém capacidade de se pronunciar. Quando canto as minhas dores tenho por isso duas alegrias ao mesmo tempo: posso proclamar a ignorância irremediável de todos os outros seres humanos e posso proclamar o facto de ser a maior autoridade viva a respeito de mim próprio.