O melhor livro de memórias do século XIX português são as longas memórias do sétimo Marquês de Fronteira, D. José Mascarenhas (1802-1881). Não foram escritas no sentido normal: foram ditadas quase por desfastio, vinte anos antes de morrer; e só foram publicadas muito tempo depois por um vizinho que não o conheceu, que as reviu, e que provavelmente lhes terá retocado a prosa.
Essa prosa é clara mas não é distinguida; e o livro contrasta com o grande (embora curto) De Jersey a Granville (1831), de Alexandre Herculano (1810-1877), que cobre uma pequena parte do mesmo período e manifesta inclinações artísticas (“então conheci bem a verdade de uma frase de Milton”). Mas a diferença maior é de ponto de vista: Herculano ignorava o que se poderia vir a passar depois daquilo que está a contar; e Fronteira acreditava que todas as coisas interessantes já se tinham passado quando ditou o seu livro.
Os historiadores, com razão, vêem as memórias de Fronteira como um documento precioso, não apenas sobre acontecimentos históricos, políticos e militares gerais, como sobre incidentes particulares e pormenores de vida. Fronteira tinha sido educado para ser militar; e os tempos serviram à sua educação, sobretudo durante a guerra civil, entre 1832 e 1834. Descreveu todas as personagens históricas conhecidas da altura, e muitas das menos conhecidas, e exprimiu opiniões sobre a maior parte delas.
Como Fronteira nunca foi muito importante nem viveu muito ocupado, teve tempo livre para se lembrar daquilo a que tinha assistido. Mas o que emerge das suas descrições bélicas e do seu modo de vida, como dos heróis de certos romances, são movimentos de gente sem propósito, anedotas embaciadas e conversas incompreensíveis a terceiros. A coisa a que se chama vida aparece sempre nas melhores memórias com esplendor trivial.
A vida (militar, política ou privada), é para Fronteira, e para toda a gente, uma série de acontecimentos pequenos e quase nenhuns grandes. Como nos romances, os seus períodos militares combinam sempre agitação e aborrecimento. Ao falar de 1824, um tempo de paz relativa, consegue arrumar num único capítulo uma intriga política, um número enorme de primos, três bailes, uma dificuldade sobre formas de tratamento, um naufrágio e duas marchas forçadas; e escreveu muitos outros capítulos deste género.
Naquele capítulo particular, num jantar interminável no Rossio de Abrantes em casa de um tenente, queixou-se de um velho maçador “que tinha a reputação de ser o maior mentiroso da província do Alentejo” e que contava histórias genealógicas e militares “que nos promoviam o sono.” Ninguém sabe onde estará hoje essa gente, e quem lhes herdou as histórias: mas são imagens como esta, de um miúdo de vinte e dois anos a lutar contra o sono que lhe causa a conversa de mesa dos adultos, que dão às memórias de Fronteira o ar de literatura por que ganham em ser lidas.