Durante anos, a transição energética foi quase sempre apresentada como um caminho único: substituir progressivamente os combustíveis fósseis por eletricidade de origem renovável. A ideia ganhou força, simplificou o debate e ajudou a mobilizar decisões. Mas, a realidade veio mostrar que o caminho exige alternativas complementares e que a verdadeira transição precisa disso mesmo: da estabilidade que o complemento traz à equação da mudança.

A instabilidade geopolítica voltou a colocar a energia no centro das preocupações europeias. A volatilidade dos mercados, os riscos associados às cadeias de abastecimento e a exposição externa da Europa evidenciam uma realidade que parecia, para muitos, ultrapassada. A verdade é que a segurança (e a autonomia) energética continua a ser um tema crítico.

Ao mesmo tempo, a crescente pressão sobre os sistemas elétricos – resultado da eletrificação de consumos e da intermitência das fontes renováveis – levanta uma questão que já não pode ser ignorada: pode a transição energética depender, quase exclusivamente, da eletrificação?

É neste ponto que o debate sobre o papel do gás precisa de ser feito com mais clareza, com mais objetividade, e menos preconceito.

O gás não desapareceu do sistema energético. Nem vai desaparecer tão cedo. O que está a mudar é a forma como o olhamos. De combustível dominante, passa a elemento de equilíbrio. De solução de base, passa a garantia de flexibilidade, de capacidade de resposta.

Num sistema elétrico cada vez mais dependente de fontes renováveis – como a solar ou a eólica – cuja produção varia em função das condições naturais, a capacidade de resposta rápida torna-se essencial. E é precisamente aqui que o gás continua a desempenhar um papel insubstituível: assegura redundância e estabilidade, responde a picos de consumo e funciona como complemento ao sistema elétrico (assegurando-o inclusive em alguns contextos).

Ignorar esta função não acelera a transição. Compromete-a.

Reduzir este debate a uma defesa do gás tal como o conhecemos seria um erro. A transformação mais relevante está a acontecer dentro do próprio setor.

O desenvolvimento dos gases renováveis, em particular do biometano – em que Portugal tem cartas para dar – está a alterar o enquadramento. Pela primeira vez, é possível produzir gás de forma sustentável, a partir de recursos locais, e integrá-lo diretamente nas infraestruturas existentes. Sem necessidade de alterar redes, sem exigir novos equipamentos aos consumidores, sem criar ruturas no sistema. Então porque continuamos a desvalorizá-lo?

Num país como Portugal, este potencial não é teórico. A disponibilidade de resíduos orgânicos, agrícolas e urbanos abre caminho a uma produção significativa de biometano, com impacto direto na redução da dependência externa. A lógica é simples, mas poderosa: transformar resíduos em energia, fechar ciclos – promover de facto uma economia circular – e reforçar a autonomia energética. Esta não é uma solução de longo prazo, dependente de maturidade tecnológica futura. É uma solução disponível hoje.

Ainda assim, o ritmo de desenvolvimento continua aquém do necessário. Não por falta de tecnologia, de investimento ou de conhecimento. O problema continua o de sempre: processos de licenciamento complexos, enquadramento regulatório pouco claro e ausência de mecanismos estáveis de mercado continuam. São estes fatores que continuam a atrasar projetos que poderiam estar já em operação. Num momento em que a Europa procura reduzir a sua vulnerabilidade energética, este atraso tem custos económicos, ambientais e estratégicos.

Apesar disso, começam a surgir sinais positivos. O desenvolvimento de sistemas de certificação, a criação de garantias de origem e o cumprimento de critérios internacionais de sustentabilidade demonstram que o setor está a estruturar-se e a ganhar credibilidade. Já não estamos no plano das intenções. Estamos no início de uma transformação concreta. O tempo não sobra, mas ainda é possível.

E tem de ser possível em várias dimensões: por uma política energética que que valorize o papel do biometano e o hidrogénio verde na valorização económica e descarbonização da Rede Pública de Gás; no quadro das políticas públicas de proteção ambiental, promover o biometano é melhorar o desempenho ambiental das explorações agropecuárias e das estações de tratamento de águas residuais; no âmbito da política industrial, é não atirar a toalha da resiliência ao chão, e promover a competitividade de setores chave da economia nacional em que a eletrificação ainda não é custo-eficiente.

Há ainda uma dimensão que raramente aparece neste debate com a clareza que merece: a da descarbonização industrial. Uma parte significativa dos processos industriais – a produção de cimento, vidro, cerâmica, papel ou aço – exige calor a temperaturas superiores a 150°C, para as quais a eletrificação não é, hoje, uma solução tecnicamente madura nem economicamente viável. Não por falta de vontade política, mas por constrangimentos físicos e económicos que ainda não têm resposta elétrica à escala industrial. Para estes setores, o biometano e o hidrogénio verde não são uma segunda opção: são a única via realista de descarbonização a médio prazo.

O mercado abrangido pelo Comércio Europeu de Licenças de Emissão (CELE) representa em Portugal, atualmente, cerca de 30% das emissões totais de gases geradores de efeito de estufa (GEE). As exigências da nova vaga legislativa, o ETS2, estendem o perímetro de abrangência das obrigações e antecipam desafios importantes para os gases de origem renovável.

A transição energética não consiste em escolher entre eletricidade ou gás, entre renováveis ou fósseis. Consiste em construir um sistema capaz de responder a diferentes necessidades, em diferentes contextos, com soluções complementares.

Num cenário de crescente incerteza, insistir em visões simplistas pode sair caro. A segurança energética, a competitividade económica e a descarbonização exigem pragmatismo, objetividade e conhecimento. Sem preconceitos.

Comecemos por reconhecer o óbvio: o gás, cada vez mais renovável, continuará a ser uma peça essencial no mix energético português.