Imagine um tipo que acorda de manhã, cheio de vontade de se dedicar à coisa pública e a prestar serviço à comunidade. Veste-se, penteia-se, apanha o autocarro, sai no Largo do Rato ou na São Caetano à Lapa – tanto faz – apresenta a documentação necessária para filiar-se no partido e, depois de receber em mãos o cartão de afiliado, olha candidamente para o horizonte, e pensa: “agora sim, posso finalmente dedicar-me ao bem comum”. Não dá uma vontade arrebatadora de rir da cara deste sujeito?
Mas de onde, exatamente, vem esse riso? Numa primeira análise, o riso parece justificar-se por acreditarmos conhecer os meandros da vida partidária, seus sucessivos escândalos e vigarices, e sabermos que o bem comum deve estar abaixo da décima quinta prioridade dos políticos; mas quando dissecamos a fundo aquilo que nos causou o riso, percebemos que a graça reside sobretudo no facto desta pessoa que acorda de manhã, penteia-se, e sai de casa movida pelo interesse em servir o bem comum, ser absolutamente inverosímil. Esta pessoa não existe, não faz parte do que entendemos por “género humano” . Neste quesito, para comprovar a sua inexistência, temos aqui, bem perto, um fiel exemplar que nos permite estabelecer a comparação: nós próprios.
Em 2025, ainda não houve um único dia em que eu tenha saído de casa por outro motivo que não fosse o interesse próprio. Por acaso doei umas roupinhas ao Exército de Salvação (em muito bom estado de conservação, diga-se de passagem), mas tenho de admitir que o que me moveu verdadeiramente foi a necessidade de ganhar espaço no guarda-fato. O que nos tira de casa pode ser resumido num cálculo que o filósofo, Jeremy Bentham (séc. XVIII), sorveu dos hedonistas da Antiguidade Clássica: soma-se os prazeres, subtrai-se as dores; se o resultado for positivo, ora aí está um nobre motivo para o meu amigo sair de casa. Somos assim. Vamos trabalhar porque queremos dinheiro; queremos dinheiro para comprar coisas (hoje o marketing mistifica e já não vende coisas – vende “experiências”); e consumimos “experiências” para as enfiar no grande vazio existencial que nos consome a nós. Sabendo quem somos, a pergunta que importa colocar é a seguinte: se somos assim, por que razão esperaríamos que os políticos não fossem assim? Serão eles feitos de outra substância? Quando fizerem os psicotécnicos no secundário e aquilo “deu pra político”, estariam eles imbuídos de grande espírito de sacrifício, a preparar o início de um cursus honorum inteiramente dedicado ao bem comum, ou estariam simplesmente à procura de uma carreira corporativa como os outros meninos? Quando estouram os escândalos, olhamos viscosamente para os políticos, porque de facto não era suposto que eles se movimentassem dentro do partido, da junta de freguesia ou da assembleia da república, com as mesmas prerrogativas com que nós nos movimentamos dentro das empresas privadas. Mas que conversa é esta de nós e eles? Faríamos diferente? Tiverem, eles (e nós), horizontes para fazer diferente no esteio de um século tão individualista?
A propósito de horizontes, vale a pena abandonarmos, por um minuto, o século XXI – cujo tédio que me provoca não consigo disfarçar – e recuarmos ao XVIII, a Edmund Burke, Member of Parliament e teórico político. Neste século, a Inglaterra já não conhecia vestígios do absolutismo abolido na Revolução Gloriosa (1688-89), mas mesmo os acólitos da liberdade operada pela monarquia constitucional, tinham as suas reservas quanto ao sistema de partidos. O termo usado no debate da época era “sectarismo” – não exatamente “partidarismo” – e o consenso nesse debate girava em torno da ideia de que o sectarismo prejudicava a harmonia e integridade do Estado.
Lord Bolingbroke, um Tory, entendia que o uso da razão pelas mentes esclarecidas, por conter caráter universal, conduzia invariavelmente a uma solução política boa para todos, sendo, portanto, insuscetível de divergência de opinião. Baseado neste argumento, defendeu a preponderância de um sistema de partido único em que a governação caberia ao “Rei-Patriota e seus homens de talento”. Edmund Burke, o velho Whig, aparece uns anos mais tarde a desmontar este argumento, num panfleto intitulado Thoughts on the Cause of the Present Discontents, no qual denuncia o “despotismo inovador” do rei George III, acusando-o de estar a domesticar o parlamento. A respeitabilidade atribuída ao sistema de partidos tem, neste texto, um antes e um depois. Ele nota que pessoas racionais podem, e devem, discordar, assim como podem organizar-se conforme os assuntos em que concordam; por conseguinte, o bem comum, em prol da sua preservação, deveria ficar ao cuidado, não de uma, mas de múltiplas fações que, por desconfiarem umas das outras, se vigiariam mutuamente.
A virtude da existência de partidos políticos, de acordo com Burke, reside no facto destes poderem simultaneamente escrutinar o governo em nome dos interesses do povo, e filtrar os excessos das paixões populares em nome dos interesses do governo. Mas o sistema de partidos só consegue provocar esta fricção – cuja utilidade pública me parece inegável – se a paisagem humana que os povoa for independente, isto é, se os políticos precisarem menos da política do que a política precisa deles.
Alguém sabe onde estão essas pessoas? Para apurá-las, Edmund Burke sugere um itinerário que deixo aqui resumido:
“Ser criado num ambiente cálido e afetuoso; estar habituado ao escrutínio público; tomar atenção à opinião pública desde cedo; firmar-se em terrenos elevados, de modo a poder ter uma visão rasgada sobre as combinações infinitamente diversificadas e abrangentes dos homens e das coisas; ter tempo para ler, refletir e conversar; estar habituado a fruir e atrair a atenção das pessoas sábias e educadas, onde quer que eles se encontrem (…); ser ensinado a desprezar o perigo na busca da honra e do dever (…); estar entre os ricos negociantes que – atendendo ao seu sucesso – se presume terem entendimentos agudos e vigorosos, possuírem as virtudes da diligência, ordem, constância e regularidade, e terem cultivado um respeito habitual à justiça comutativa.”
Sim, esta passagem é uma apologia à aristocracia. O itinerário sugerido por Edmund Burke não coincide com o itinerário do autocarro. Não obstante, vale recordar que Burke era um comum. Não um lorde. Um comum. Em tempos democráticos isto parece uma aberração, mas dá para imaginar estas aberrações a acordar de manhã com o firme propósito de servir a coisa pública. Já os nossos carreiristas, consigo imaginá-los a acordar e, talvez, de manhã.