A 3 de janeiro de 2025, Nicolás Maduro deixou de ser apenas o símbolo de um regime resistente às sanções internacionais para se tornar o centro de um desfecho que parecia improvável: a sua captura.
O momento foi apresentado como uma vitória da justiça, da paz e da democracia. Para muitos venezuelanos, foi, sem dúvida, um bom dia. Depois de anos de escassez, repressão e medo, a queda do líder do regime trouxe alívio, esperança e a sensação rara de algo que finalmente vai mudar. Quem vive sob colapso não pensa primeiro em petróleo ou equilíbrios geopolíticos. Pensa em salários dignos, liberdade, segurança e normalidade.
Ainda assim, como quase tudo na política internacional, este desfecho chegou tarde e carregado de ambiguidades.
Durante anos, os Estados Unidos oscilaram entre duas estratégias contraditórias em relação à Venezuela. De um lado, sanções duras e isolamento diplomático. Do outro, concessões graduais, flexibilização económica e negociações discretas, cada vez menos disfarçadas por interesses energéticos e estratégicos. Jogou-se verde durante demasiado tempo e só agora se colheu Maduro.
A flexibilização parcial das sanções ao petróleo venezuelano, apresentada como incentivo a eleições livres, foi o exemplo mais claro dessa ambivalência. Washington apostou na ideia confortável de que algum crescimento económico produziria abertura política. O resultado foi o inverso: o regime ganhou fôlego, reforçou o controlo interno e normalizou-se externamente sem nunca abdicar do poder.
Maduro soube jogar o jogo. Aceitou mesas de negociação, fez promessas vagas, simulou reformas. Enquanto isso, a repressão manteve-se, a oposição fragmentou-se e o sistema permaneceu fechado. As sanções deixaram de ser apenas um instrumento de pressão e tornaram-se, paradoxalmente, um álibi político: primeiro para explicar a crise, depois para justificar a permanência no poder.
A sua captura, ainda que politicamente relevante, não apaga esse percurso. Pelo contrário, expõe o fracasso de uma estratégia que confundiu pragmatismo com cedência e valores com discurso. A democracia foi invocada quando conveniente e relativizada quando os custos estratégicos se tornaram demasiado elevados.
Importa também dizer sem rodeios: não é possível concordar esta intervenção americanas que viola o princípio da soberania de um Estado, mesmo quando o regime em causa é autoritário. Esse precedente não existe num vazio. O que é justificado em nome da democracia pode amanhã ser invocado por outras potências para legitimar intervenções “preventivas” nos seus próprios termos. O famoso direito internacional enfraquece-se não apenas quando é violado por regimes autoritários, mas também quando é flexibilizado por democracias.
Os Estados Unidos nunca esconderam os seus interesses na Venezuela. Num contexto de instabilidade energética global, o país voltou a ser menos um problema moral e mais um ativo estratégico. A captura de Maduro não pode ser dissociada desse cálculo.
A incógnita central reside agora nos planos de transição. Tudo indica que os Estados Unidos terão um papel determinante no período intermédio, “governando” de facto até à consolidação de uma nova liderança. Isso pode ser eficaz no curto prazo, mas levanta questões sérias sobre legitimidade, autonomia e reconstrução institucional a médio prazo.
Por isso, o momento do dia 3 de janeiro de 2025 deve ser lido com cautela. Não como redenção, mas como correção tardia. Não como prova de coerência, mas como reconhecimento implícito de que a estratégia anterior falhou e de que a solução encontrada levanta novos dilemas.
A verdadeira pergunta não é se a captura de Maduro representa justiça. É se ela chega tarde demais para os venezuelanos comuns, que passaram anos presos entre colapso económico, repressão política e promessas vazias de transição. E se o custo dessa demora não foi pago, mais uma vez, por quem nunca esteve à mesa das decisões.
Na política internacional, jogar verde pode parecer prudente. Mas quando se joga demasiado tempo, corre-se o risco de não colher democracia — apenas autoritarismos mais resilientes.