Ser liberal em Portugal é uma afirmação desconfortável. Um gesto que implica recusar o controlo disfarçado de proteção, desconfiar do amparo disfarçado de empatia e pensar por conta própria num país onde o consenso mora no Estado. Não é uma excentricidade nem um privilégio de classe. É uma escolha racional: acreditar que a liberdade individual, a responsabilidade e o mérito não são ameaças, mas condições de dignidade.
Essa escolha, quando vem de uma mulher jovem, provoca um espanto particular. Não raras vezes surgem insinuações de que se trata de vaidade, oportunismo ou submissão intelectual a um discurso “masculino”. Como se a autonomia feminina só fosse legítima se fosse determinada pelo poder público ou legitimada por consensos institucionais. O liberalismo desconcerta porque rasga esse guião.
Em Portugal, ser liberal incomoda. Não por prometer revoluções, mas por recusar fantasias. Num país habituado à tutela, a simples ideia de confiar nas pessoas em vez de no Estado é recebida com sarcasmo. Defender liberdade de escolha na saúde? “Queres acabar com o SNS.” Questionar o aumento estrutural da despesa pública? “És contra os pobres.” O debate público em Portugal tornouse um ritual de caricaturas. Já não se argumenta, etiqueta-se e cancela-se. E o liberal é muitas vezes o alvo preferencial do silenciamento por desconcertar tanto a esquerda como a direita tradicional.
Mas viver nesse desconforto é precisamente o que confirma o valor das ideias liberais. A recusa da passividade fiscal. A exigência de um Estado que funcione, e não apenas que cresça sem critério. A defesa do mérito sem culpa. A liberdade com responsabilidade. Não é frieza. É a convicção de exigir mais e uma forma de acreditar no país.
Portugal vive preso a uma espécie de progressismo paternalista: discriminaliza o aborto, mas mantém o cidadão dependente. Reconhece o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas perpetua estruturas económicas que sufocam a autonomia. Reformistas em alguns costumes, conservadores na estrutura. O Estado continua a ser visto como uma entidade omnipresente: pai, tutor, juiz, salvador. O problema é que esse Estado não cumpre. Temos um SNS em colapso e escolas públicas que falham nos mínimos. A máquina administrativa castiga quem tenta criar, investir ou simplesmente agir. Mas qualquer tentativa de reformar é recebida como heresia. A dependência tornou-se virtude. A tutela passou a ser sinónimo de conforto. O país recusa mudar porque prefere continuar igual a ter de escolher. E é aqui que o liberalismo se torna desconfortável porque rompe com a inércia institucionalizada. Esse hábito quase sebastianista de esperar por soluções mágicas já provou não funcionar.
O liberalismo não é um manifesto para desmantelar o Estado. Propõe que ele se contenha naquilo que deve fazer e o faça bem. O indivíduo não é um obstáculo à justiça social. É o seu ponto de partida. Respeitar a sua maturidade cívica, tratar os cidadãos como adultos: não é neoliberalismo selvagem. É respeito.
Em Portugal, o liberalismo continua a ser tratado como uma importação exótica. Mas não é novo. Nem radical. Locke, Stuart Mill, Hayek ou Popper não propunham um mundo sem regras, mas uma sociedade onde o poder se justifica e se limita. Ser liberal é lembrar que liberdade e compaixão não são opostas. São inseparáveis. O que torna o liberalismo verdadeiramente ousado não é querer reinventar o mundo, mas justamente o contrário: acreditar que a sociedade melhora quando se valoriza a responsabilidade individual e não quando se prende as pessoas a um molde único. O Estado deve proteger os mais frágeis, sim, mas sem infantilizar todos os cidadãos.
Continuar a nadar contra a corrente não é um gesto de heroísmo. É uma forma de não desistir, não de um ideal abstrato, mas de um país que será tanto maior quanto menos depender da intervenção permanente do Estado e mais confiar na coragem livre dos seus cidadãos.