Ao tentarem agradar todos, os grandes partidos acabaram por não agradar  ninguém. As legislativas de 2025 confirmaram que o eleitorado português já não  quer consensos mornos. Quer escolhas claras, causas fortes e identidades  políticas definidas.

Estas legislativas não trouxeram apenas uma nova composição parlamentar.  Trouxeram um obituário político. O centro, representado historicamente pelo PS e PSD, perdeu não só votos, mas também relevância simbólica. Portugal  juntou-se ao grupo de democracias europeias onde os partidos “catch-all”  deixaram de representar alguém.

Os partidos catch-all tiveram a sua origem no pós Segunda Grande Guerra  Mundial, mais propriamente na década de 50, procurando atrair o maior número  de eleitores possível. Durante décadas, a moderação garantiu estabilidade. A  teoria do eleitor mediano, de Anthony Downs, explicava esse sucesso: vencer  eleições era conquistar o centro – e para isso, era preciso suavizar posições e  discursos para agradar ao maior número de eleitores possível. Funcionou. Em  Portugal, o PS e o PSD seguiram essa cartilha e alternaram-se no poder com  base nessa lógica. Mas 2025 mostrou que esse modelo está esgotado.

O centro ficou vazio e o eleitorado foi embora.

O cidadão português já não quer apenas bons gestores tecnocratas. Quer  políticos com ideias, causas e coragem. E encontra isso noutros partidos: Chega,  Iniciativa Liberal e Livre. Esses partidos cresceram, cada um à sua maneira,  porque representam algo. Simbolizam confronto, identidade e, sobretudo, uma  visão política mais definida. Votar deixou de ser um cálculo racional e voltou a  ser um gesto simbólico, emocional e de posicionamento.

O centro, por outro lado, ficou vazio: vazio de ideias, de mobilização, de  convicções. Em vez de respostas, oferece slogans. Em vez de visão, repete  diagnósticos. E, pior: continua a acreditar que basta uma campanha sem erros  e uma figura “presidenciável” para convencer eleitores. O eleitor de 2025 não  vota como o eleitor de 1976.

Política sem alma não tem lugar em 2025. A crise dos partidos centristas em  Portugal é, acima de tudo, cultural. A nova geração de eleitores hiperconectada,  ativista e exigente, quer coerência, não ambiguidade. Espera que os partidos  tomem posições claras, mesmo que isso custe votos. Não é de estranhar que  nestas legislativas o PS tenha tido o pior resultado desde os anos 1980 (22,83%),  o PSD tenha vencido sem entusiasmos (31,79%) e partidos como o Chega  (22,76%), a Iniciativa Liberal (5,36%) e o Livre (4,07%) consolidaram novas  bases eleitorais com discursos firmes e identitários.

Há quem veja neste novo cenário um perigo: a fragmentação parlamentar, a  instabilidade governativa e a ascensão de extremismos. Esses riscos existem.  Mas há também uma oportunidade histórica de redefinir a política e o debate político português. A política deve voltar a ser um espaço de confronto  democrático real, onde as ideias voltam a ter peso e as escolhas voltam a ser  distintas.

Se o centro não mudar, continuará a ser irrelevante. Os partidos tradicionais têm  dois caminhos pela frente: reinventar-se, assumir causas, arriscar discursos mais firmes, reformular a ligação com a sociedade; ou continuar o declínio lento, deixando o espaço vago para aqueles, goste-se ou não, ainda têm algo a dizer.

A política precisa de compromisso, sim, mas também de clareza e tensão  criativa. Precisa de estabilidade, mas também de alma. E, sobretudo, precisa de  partidos que não tenham medo de se definir. Se a estratégia continuar a ser  agradar tudo e todos, o destino continuará a ser perder todos. O centro político  português não morreu por ser moderado. Morreu por não ter nada a dizer.