Quem pratica desporto sabe que as lesões fazem parte do jogo. Normalmente ouvimos falar em lesões do joelho ou em problemas musculares, mas há outra área que tem ganho atenção nos últimos anos: a anca.
Durante muito tempo, acreditava-se que as lesões da anca não tinham significado em contexto desportivo ou confundiam-se com pubalgias (dor na zona do púbis) ou hérnias desportivas da parede abdominal. Só em 2003 começou a falar-se de forma clara do chamado conflito femoro-acetabular, na sequência de um estudo a uma série de doentes com deformidade óssea na anca. Trata-se de uma deformação no osso da anca que provoca dor na virilha, sobretudo em jovens que praticam desportos de grande intensidade e movimentos de grande amplitude da anca, como futebol, rugby, ténis, ginástica, ballet ou artes marciais. Além da dor, este problema pode ser uma das principais causas de artrose precoce.
No caso de futebolistas, por exemplo, quando sofrem de uma deformação como o conflito femoro-acetabular, o movimento do remate pode obrigar a bacia e a coluna a compensações posturais, que aumentam o risco de pubalgias, hérnias ou roturas musculares.
A boa notícia é que, quando diagnosticado cedo, este problema pode ser tratado de forma eficaz, evitando dores crónicas e reduzindo o risco de artrose. O tratamento é feito através de uma cirurgia minimamente invasiva (artroscopia da anca), que devolve ao osso a sua forma natural e melhora o desempenho desportivo, prolongando a saúde da articulação.
Atualmente, cada vez mais jovens treinam com grande intensidade enquanto ainda estão em crescimento, fazendo com que fiquem com pernas e coxas muito desenvolvidas, mas músculos do tronco e abdómen ainda fracos. Isto cria desequilíbrios nos músculos da zona da bacia, o que aumenta o risco de lesões, sobretudo no início da época desportiva, quando o corpo ainda não está bem preparado.
Mas este problema não afeta só os mais novos. A prática desportiva intensa em idades mais avançadas — como maratonas ou padel após os 40 ou 50 anos — também coloca maior pressão na anca e, nos casos em que os praticantes de desporto sofrem de conflito femoro-acetabular, aumenta o risco de desenvolver artroses mais precoces da anca.
Por tudo isto, é essencial que atletas, treinadores e preparadores físicos conheçam melhor esta condição. O diagnóstico precoce faz toda a diferença: permite tratar a dor, prevenir complicações futuras e garantir que quem gosta de desporto o possa praticar por muitos mais anos.