Foi recentemente aprovado um projeto-lei que determina a proibição do uso de qualquer veste que cubra integralmente o rosto em espaços públicos. Trata-se de uma medida que visa proteger princípios fundamentais da nossa convivência democrática, e que contou com o voto favorável do PSD, IL, CDS e CHEGA. Já a esquerda, fiel ao seu hábito, mostrou-se incapaz de se libertar de um dogmatismo que a impede de reconhecer que há limites para a tolerância.
Lembro-me bem de estar na primeira aula de Ciência Política, no 12º ano, quando o Professor lança uma provocação à turma: se entrasse nesta sala uma rapariga de burca, não a deixaria entrar até que a tirasse. Movidos pela inocência, reagimos com algum espanto. Foi então que, recorrendo ao Paradoxo da Tolerância de Karl Popper, o Professor explicou: ao tolerarmos um comportamento intolerante estamos nós próprios a ser intolerantes.
Esta frase levo comigo desde então.
Vivemos numa sociedade de matriz judaico-cristã, construída sobre pilares como a liberdade, igualdade entre homens e mulheres e a defesa dos direitos humanos. Estes não são meros conceitos abstratos, são conquistas civilizacionais que custaram séculos de luta e que não podem ser relativizadas em nome de uma mal-entendida tolerância cultural.
Nos últimos anos temos presenciado uma imigração em massa de pessoas oriundas de países com raízes culturais e identitárias amplamente opostas (e por vezes incompatíveis) aos valores ocidentais. Países onde a mutilação genital feminina é uma prática corrente,
onde os casamentos infantis atormentam milhares de meninas, e onde a mulher é considerada propriedade do homem, impedida até de sair de casa sem a sua autorização. Países que se regem por fundamentalismos religiosos que apelam à morte dos infiéis.
Aparentemente, estes são comportamentos censurados no mundo europeu. Porque haveremos então de permitir que uma mulher ande tapada dos pés à cabeça?
A burca não é uma mera peça de indumentária característica de uma determinada cultura e religião. A burca é um verdadeiro instrumento de opressão e subjugação das mulheres. É o símbolo que expressa a inferioridade feminina aos olhos do mundo islâmico.
A esquerda voltou a mostrar que só está ao lado dos direitos das mulheres quando é para brincar ao faz de conta. Enche a boca de frases sonantes mas quando é chamada a agir o resultado é evidente: total inércia!
Pouco tempo bastou até que fosse lançada a cartada do racismo e islamofobia. Como já nos fomos habituando, este é um argumento sem qualquer tipo de fundamento. A proibição da burca em edifícios do setor público foi já implementada em países de maioria muçulmana. Serão a Argélia e a Tunísia países racistas e islamofóbicos?
Como disse Rui Rocha durante a discussão do projeto-lei: “As religiões não são todas iguais, as civilizações não são todas iguais, as sociedades não são todas iguais”.
E, de facto, não são. O progresso humano constrói-se com base em valores universais que devem prevalecer sobre tradições que negam esses mesmos valores.
Defender a proibição da burca não é atacar uma religião, é proteger a liberdade das mulheres de viverem de rosto descoberto, com voz própria e com a dignidade que lhes é devida.
Porque numa verdadeira democracia, a liberdade de uma mulher não se pode esconder atrás de um véu.