A tomada de posse de Zohran Mamdani como novo mayor do estado de Nova Iorque foi celebrada pelos media como uma derrota da direita radical e, em particular, de Donald Trump. No entanto, aquilo que se fez sentir nas urnas não foi apenas uma rejeição de Trump, mas a consolidação de um modelo de governação que combina radicalismo económico com ativismo identitário. O intitulado democratic socialist apresenta um programa que promete a todos habitação acessível, custo de vida reduzido, serviços públicos gratuitos e uma expansão significativa da máquina ideológica do Estado.

No que toca à habitação, o grande mantra passa por taxar os “richer and whiter neighborhoods”, uma ideia já defendida por Kamala Harris na campanha presidencial de 2024. Se a lógica fosse invertida, dificilmente escaparia à acusação de racismo, mas como o alvo são bairros maioritariamente brancos, a medida passa a ser apresentada como discriminação positiva, partindo do pressuposto ideológico de que os brancos não podem ser alvo de racismo.

A isto junta-se a proposta de congelar as rendas, através da nomeação de pessoas da sua confiança política para o Rent Guidelines Board, o órgão que delibera anualmente os aumentos máximos das rendas em Nova Iorque. A história mostra que o controlo de rendas reduz o investimento, degrada o parque habitacional e diminui a oferta, mas estes efeitos colaterais parecem irrelevantes face à narrativa política. Como promessa final, Mamdani compromete-se a construir 200 mil novas casas de renda acessível nos próximos dez anos, sem explicar de forma convincente como ultrapassará os custos de construção, a burocracia ou a resistência local, transformando a proposta mais num slogan do que num plano exequível.

No combate ao aumento do custo de vida, Mamdani propõe a criação de uma rede de mercearias city owned, focadas em manter os preços baixos, em vez de obter lucro. Sem pagar renda nem impostos sobre a propriedade, estas lojas reduziriam despesas e transfeririam essa poupança para os consumidores. O Estado passaria assim a competir diretamente com o setor privado, beneficiando de vantagens artificiais e distorcendo o mercado, numa lógica que ignora décadas de experiências falhadas. No mesmo pacote surge a promessa da creche gratuita universal para todas as crianças entre seis semanas e cinco anos, acompanhada da equiparação salarial dos trabalhadores do setor aos professores da escola pública. A intenção pode parecer louvável, mas o impacto financeiro é enorme e, mais uma vez, não é acompanhado por um plano sustentável de financiamento.

No plano identitário, Mamdani pretende transformar Nova Iorque numa “LGBTQIA+ Sanctuary City”, criando o Office of LGBTQIA+ Affairs com um orçamento inicial de 15 milhões de dólares, destinados a programas de habitação e apoio material para jovens e adultos. Em contexto escolar, propõe ainda a presença de pelo menos um “LGBTQIA+ liaison” em cada distrito, integrado numa nova estrutura administrativa dedicada a estas matérias, com um custo adicional de três milhões de dólares. Independentemente das convicções pessoais de cada cidadão, é legítimo questionar se a função primordial da escola pública deve ser a educação ou a institucionalização de ativismo identitário.

Para além do seu conteúdo político, o plano LGBT apresentado por Mamdani condiciona de forma estrutural as grandes opções orçamentais da cidade, ao cristalizar prioridades ideológicas em despesa permanente e crescente. A criação de novos departamentos, cargos e programas específicos por critério identitário gera compromissos financeiros plurianuais que reduzem a margem de manobra orçamental e aumentam a pressão sobre a receita fiscal, sobretudo em contextos de desaceleração económica. Ao institucionalizar estas estruturas no sistema educativo, o Estado ultrapassa ainda o seu papel regulador e prestador de serviços essenciais, intervindo num domínio que não lhe compete.

Perante este vasto conjunto de promessas, a pergunta sobre o financiamento torna-se inevitável. A resposta de Mamdani resume-se a uma palavra: impostos. Impostos sobre a propriedade, incidindo sobretudo sobre bairros ricos e maioritariamente brancos; aumento das taxas municipais sobre lucros empresariais; e maior tributação de imóveis comerciais de alto valor.

A estratégia é clara: sufocar fiscalmente os mais produtivos na esperança de que continuem a financiar indefinidamente um Estado cada vez mais pesado. A história económica, porém, ensina que o capital é móvel e que empresas e contribuintes de elevado rendimento não permanecem onde são sistematicamente penalizados. Quando estes saírem de Nova Iorque, restará uma base fiscal mais pequena, incapaz de sustentar os caprichos eleitorais de Mamdani.