E eis que chegou a vez da Gen Z ascender transversalmente à liderança. Novos, entre os 24 e os 27 anos (a geração Z vai mais ou menos até aos que hoje têm 27 anos, porque os mais velhos são geração Y ou Millennials), estão a assumir posições em que comandam pares. Os dilemas são mais que muitos. As contradições emergem por todo o lado. Há quem não aceite. Mas há quem aceite a promoção e seja muito mal interpretado. E quando lidera pares, iguais, da mesma geração, tudo se complica. Porque, lá está, há um indiscutível ganho de poder. Sem que o poder seja o clássico poder mas é seguramente ganho de autoridade moral e/ou reconhecimento pelo mercado (será pelos pares?). Por pontos sensíveis:
1. A contradição entre a igualdade e a hierarquia
A perceção de incoerência: A Gen Z valoriza estruturas horizontais e igualitárias. A liderança, por definição, implica uma posição de autoridade (mesmo se apenas moral) – manifeste-se ela de que forma for. A resistência à liderança está a começar a emergir com mais força quando a geração Z é promovida e lidera os seus pares. Dilemas do líder e desconforto pela liderança está a fazer-se sentir em várias indústrias e empresas e os relatos começam a emergir de vários lados, estando a ser contestada a efetiva capacidade para, de facto, a “geração Z” ser capaz de exercer a liderança.
2. A prova da legitimidade
Os desafios à autoridade: A liderança de pares exige que o líder prove continuamente, muito mais que noutras gerações, a sua competência, já que não há uma “distância hierárquica” que respalde automaticamente a posição de liderança. Frases como “porquê tu e não eu?” ou “quem te deu o direito?” estão a surgir, ditas direta ou indiretamente, mais do que em qualquer outra geração que passou pelo mesmo.
O medo da solidão, mesmo digital: Um líder Geração Z tem o temor de perder a amizade ou o respeito dos pares – mais do que em qualquer outra geração que esteja para trás – ao necessitar de tomar decisões impopulares e, sobretudo, definir regras de jogo.
3. A dificuldade em lidar com feedback negativo
A fragilidade emocional: A geração Z tem, em geral e por natureza, uma relação mais sensível para com críticas (daí terem já sido apelidados de snowflakes, sentido pejorativo), sendo que os liderados mais jovens podem tomar o feedback negativo, por parte de líderes jovens, como ainda mais ofensivo em termos pessoais, dificultando o equilíbrio emocional necessário para liderar e para ser liderado.
Cultura de validação: Habituados a procurar reconhecimento constante, os líderes gen Z (e há vários relatos neste sentido, em várias empresas e em vários setores do mundo ocidental) estão a frustrar-se quando não recebem apoio imediato ou enfrentam rejeição. Já se sabe, de há tempos, como adoram gratificação imediata, o que amplia tudo isto em termos de problemas e paradoxos.
4. O conflito com o ideal de autenticidade
“Ser eu mesmo” versus “ser líder”: Líderes Gen Z frequentemente lutam para alinhar o seu desejo de ser autênticos com a necessidade de atender às expectativas organizacionais. Isso mesmo está a gerar várias dissonâncias internas, especialmente em contextos corporativos mais formais ou conservadores.
E, também, a pressão por agradar: Os “geração Z” estão a hesitar em tomar decisões difíceis para evitar conflitos, prejudicando claramente a sua capacidade de liderar com eficácia.
5. O impacto nas relações
A mudança de dinâmica: A promoção de um colega (par) a líder está, igualmente, a causar ressentimento entre amigos e próximos, alterando por completo a dinâmica do grupo.
A perceção de “venda”: Alguns estão a ver novos líderes como os que “se venderam ao sistema” ou “perderam a essência”, criando divisões. Os promovidos começam, em várias áreas e empresas, a sentir culpa porque confundem liderança com o terem-se eventualmente vendido.
A abordagem correta, com formação para a liderança e muito apoio organizacional, poderia transformar estas contradições e paradoxos em forças, vindo assim a promover uma liderança mais humana, mais empática e mais colaborativa. Em todo o caso, liderança! Ou será que estas promoções todas de gen Z serão o epitáfio de uma geração de zelotas organizacionais?
É relativamente curioso perceber para onde vai tudo isto porque os próximos líderes serão, cada vez mais, líderes gen Z. E talvez seja por aí que muitos dos anticorpos que criaram face a gerações anteriores se possam esbater. Uma espécie de pares com ascendente sobre os pares. Parece poder haver uma implosão por dentro, fruto das promoções dos “geração Z”.