Foi finalmente lançado e está no mercado o livro 110 Vozes sobre Inteligência Artificial. Conclui-se, transversalmente, que temos máquinas cada vez mais capazes e organizações que continuam a confundir comprar tecnologia e licenças com saber gerir. Uma subscrição não é uma estratégia. Um chatbot não resolve uma empresa desorganizada. Pode ajudá-la a produzir disparates mais depressa. E até pode acertar. Obra do acaso!

O livro 110 vozes sobre IA generativa, bots, agentes e robôs deixa um aviso: a facilidade de usar inteligência artificial está a ultrapassar a capacidade de perceber o que fazemos com ela. Toda a gente consegue obter uma resposta. Quantos conseguem avaliar se está certa? Quantos conhecem como chegar à resposta? Quantos criticam essa mesma resposta?

A análise do léxico dos capítulos é reveladora. Depois da própria IA, o humano ocupa o primeiro lugar entre os termos temáticos analisados. Decisão, pessoas e trabalho também pesam. E bem. O livro fala de máquinas, mas obriga-nos a olhar para quem as dirige. Senão veja-se o ranking em termos temáticos:

É aqui que começa a parte incómoda. Queremos produtividade, mas evitamos redesenhar processos. Queremos inovação, mas mantemos chefias que confundem controlo com liderança. Queremos profissionais autónomos, mas habituámo-los a aceitar respostas que não sabem discutir. Depois chamamos transformação a esta soma de atalhos. Ou será de equívocos?

Há uma pergunta que devia entrar em todos os conselhos de administração e em todas as escolas: se a máquina faz as tarefas onde os mais novos aprendiam, onde vão eles aprender? Ninguém nasce sénior. Sem prática, erro e confronto, teremos operadores rápidos e profissionais frágeis. A fatura chegará quando for preciso reconhecer o erro da própria máquina. Aliás, a fatura não está apenas nas escolas e nas universidades. Já chegou, e bem, ao mercado de trabalho.

Mas, como sempre, a responsabilidade não desaparece dentro de um algoritmo. Quem escolhe o sistema, autoriza o seu uso e aceita o resultado continua a ter de responder pelas consequências. «Foi a IA» é uma desculpa miserável para uma decisão com impacto na vida de alguém. Repito e soletro: M-i-s-e-r-á-v-e-l.

A oportunidade é enorme. Mas exige formação, dados fiáveis, supervisão competente e coragem para mudar a organização do trabalho e do ensino. Mudar tudo. Exige investimento nas pessoas. Muito. Muito investimento. A tecnologia pode libertar-nos tempo para pensar. Entregar-lhe também o pensamento é apenas uma escolha nossa. Só nossa. Mas mais cedo do que tarde percebermos que é uma péssima escolha. E aí pouco ou nada há a fazer porque estaremos reféns.