Em 1994, Michael Porter fez a pergunta certa: porque prosperam alguns países em determinados setores e outros, com recursos semelhantes, não? Trinta e dois anos depois, a resposta portuguesa continua desconfortável. O problema nunca foi apenas escolher setores. Foi transformar trabalho, capital e conhecimento em produtividade. André Paula Santos, Alcino Lavrador e Bruno Damásio revisitaram, em 2026, os relatórios de Porter e fizeram novamente um diagnóstico.
1. Produtividade. Portugal trabalha mais, mas produz menos valor por hora: 104,2% das horas trabalhadas da UE, mas apenas 66,8% da produtividade por hora. É a quarta mais baixa da União. Este ponto é fulcral. Mau, mas fulcral. Pergunto-me muito frequentemente se as pessoas sabem efetivamente o que é produtividade. No rácio e na prática.
2. Crescimento sem eficiência. Nos clusters analisados, i.e., automóvel, vinho, turismo, madeira e cortiça, têxtil e calçado, a produtividade total dos fatores foi negativa. Crescemos com mais capital e trabalho, não com melhor combinação dos fatores.
3. Educação. Não basta aumentar diplomas. Precisamos de literacia, numeracia, capacidade digital, pensamento crítico, comunicação e aprendizagem contínua. A competitividade começa muito antes da empresa. O problema da educação, neste momento, não é o acesso. O problema é a qualidade e a relevância económica e de gestão do que se ensina e do que aprende. E de como se transfere para a prática.
4. Gestão. Capital sem gestão não cria produtividade. Tecnologia sem gestão também não. Precisamos de mais capacidade real em operações, finanças, pricing, dados, IA, internacionalização e execução. Falhámos redondamente na execução.
5. Liderança. Gerir é melhorar o que existe; liderar é definir a trajetória. Muitas PME portuguesas crescem até ao limite do seu dono-gestor. Esse teto é também um teto de competitividade. A liderança está claramente nas mãos de quem não sabe liderar.
6. Escala. As grandes empresas são apenas 0,25% do universo empresarial, mas geram cerca de 32% do VAB e 62% das exportações. Portugal tem menos emprego em grandes empresas do que a média europeia. Sem escala, é mais difícil investir e internacionalizar.
7. Clusters. Porter acertou em muito: vinho, automóvel, turismo, têxtil, calçado, madeira e cortiça ganharam relevância. Mas ganhar quota sem produtividade significa competir demasiado pelo preço e pouco pela sofisticação.
8. Novos clusters. Hoje falamos de IA, data centers, semicondutores, defesa, hidrogénio, baterias, saúde e deep tech. Excelente. Mas novos setores com velhos problemas de gestão, talento e escala não resolvem nada. Pergunto-me até se 21 clusters serão necessários para um país tão pequeno. É que quem olha assim à primeira vista, 21 clusters implicam investimento disperso, baixa escolha, e espalhar dinheiro por todos para ganhar eleições.
9. Estado e continuidade. A nova leitura volta a três condições: escala, continuidade e Estado. Regulação previsível, políticas que sobrevivam a governos (ninguém na política quer isto, ninguém; vejo o mesmo há anos demais) e execução consistente são ativos competitivos. O País Basco talvez seja um bom exemplo.
10. Execução. Porter regressou em 2002 e disse que Portugal tinha avançado na macroeconomia, mas falhado na microeconomia. A conclusão de 2026 é mais dura: o diagnóstico estava certo; falhou a execução.
Mais, e pior que isto, falhou a execução e continua a falhar clamorosamente a ambição. Um país sem ambição é um país de pequeninos. E sempre será.
Portugal não sofre, pois, de falta de relatórios, desenho de estratégias ou sequer oportunidades. Sofre de insuficiente capacidade para transformar conhecimento em decisão, decisão em execução e execução em produtividade. A próxima década não se ganha com mais horas. Ganha-se com melhor educação, melhor gestão, melhor liderança, maior escala (e mais foco), muito mais exigência na execução e muitíssima ambição. Resultado: muda-se a cultura! A questão é como. Porque a cultura do triste fado não se muda assim.