A melhor poesia é uma espécie de doença contagiosa. Como a lepra, atravessa as massas de sombras nocturnas para cravar-se na carne dos homens. Aparece sem pregões e instala-se nos sofás da eternidade sem pedir licença. Nunca pede desculpa nem procura condecorações. Ninguém sabe de onde ela vem, se de incursões galvânicas electrocutando as meninges, despejando fogo e enxofre pelo cérebro abaixo, se de um polipeiro de pesadelos nato e criado na espessura do sangue. Não tem prógonos, porque os trai. Não deixa epígonos, mas bastardos que se revoltam porque ousam superá-la ou, quando não o conseguem, admiradores emasculados.

Falo da melhor, da que perdura. Espécie de rocha ígnea lavrada pela violência. Pela demência. É uma escrita de quem morre sobre a pluma, de quem espreme a polpa de que é feito, de quem luta ferinamente contra o anjo negro da morte, de quem vomita a antiga e sempre nova angústia humana. É bílis transfigurada em beleza. Quem a lê, quem a lê verdadeiramente e não com olhos ramelosos, passa sempre por um estado febricitante de irrealidade, por uma vigília deliquescente em que se esvazia das suas faculdades intelectuais primárias. É esse o pacto fáustico entre grandes escritores e grandes leitores, firmado sob a violenta luz de um sorriso mefistofélico.

Tudo isto para falar de Lorca, o maior poeta espanhol (não direi da Hispânia, porque dela fazemos parte) desde Quevedo, essoutra descarga eléctrica que escreveu Amor constante, más allá de la muerte. Lorca, o sempre jovem. Lorca, o do verde que te quiero verde. Lorca, o do a las cinco de la tarde. Lorca, o do Un muerto en España está más vivo como muerto que en ningún sitio del mundo. Lorca, o assassinado! Lorca, o símbolo! Lorca, o Cristo poeta!

Hoje, data do seu assassinato cobarde e misterioso – o falangista Luis Hurtado Alvarés escreveria, meses depois, que A la España imperial le han asesinado su mejor poeta -, não queremos conspurcar o seu silêncio com biografismos, hipóteses ou curiosidades desorbitadas. Falemos então do seu duende, do tener duende. Falemos desse poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica.

Até hoje, a famosa conferência Teoria y Juego del duende, por mais proverbial que o termo se tenha tornado, contém uma das chaves hermenêuticas mais visceralmente explicativas dessa força misteriosa e profunda presente na grande poesia. Lorca via o duende em todas as artes, mas sobretudo na música (o cante jondo do flamenco, com nomes como Manuel Torres e La Paquera de Jerez, que nasce dois anos antes da morte de Lorca), na dança e na poesia oral, por serem formas que nascem e morrem de modo perpétuo, acompanhando a metamorfose de um corpo vivo. Não o sabia explicar, porquanto apenas se explica aquilo que se compreende. E a vocação do duende, força irreprimível de difícil apreensão, é justamente ser incompreensível.

É célebre o aforismo de Santo Agostinho, segundo o qual, referindo-se ao esforço de intelecção humano para abarcar a totalidade divina, Se compreendes, não é Deus. Pois bem, Lorca vai mais longe. Sustentando que se sabem os caminhos para chegar a Deus, seja com uma torre como Santa Teresa ou com três caminhos como São João da Cruz — duas almas enduendadas —, declara que para o duende não há mapa nem exercício. Apenas se sabe que queima o sangue, que esgota, que rejeita toda a doce geometria aprendida, que quebra os estilos. É a arte luciferina, o bafo quente das furnas infernais que Lorca convoca e tenta captar.

Relativamente às touradas, Lorca, em deliciosa contradição com o animalismo purista e a hemofilia emotiva moderna, referia-se-lhes como “liturgia dos touros”, vendo nelas um autêntico drama religioso onde, tal como sucede na missa, se adora e sacrifica um Deus. Muito além da camisa de forças do bem e do mal, o que Lorca procurava era essa fascinação pelo fazer sofrer, por esse drama de formas vivas repleto de medo, raiva e lágrimas, marcas-d’água da proximidade ou aparição do duende. Poder de sons negros, não um obrar; luta, não pensamento: tal o duende, que não está na garganta, mas sobe por dentro desde a planta dos pés. Daí o toureiro, olhando de frente a alimária negra da morte e com ela dançando.

Não há na teoria lorquiana definições precisas, formulações enxutas ou bafos enregelados de academia, de onde sai aquele tipo de gente que, vendo uma borboleta dourada, prontamente a mata para efeitos de taxonomia. Há apenas poesia e o sacolejar de um cérebro plenamente vivo no seu endiabramento, que sabe até onde se tem de ir para Criar. E que só os grandes poetas não descem da Cruz que para si talharam. Não é a musa de Hesíodo, que dita com voz melíflua. Não é o anjo de Herrera, que guia e deslumbra. É uma força telúrica, cega e irrefreável, quase báquica, como às vezes são os cavalos da poética lorquiana, galopando entre a sombra das ramagens e a água negra.

Lorca, Lorca, Lorca! Este erre repuxado pela língua fascina, surpreende, amedronta, como o som do teu corpo ensanguentado caindo no ventre de uma campa desconhecida, puro ritmo enduendado. Como a luz da tua ferida e esse absurdo desejo de sofrer para viver e de viver sofrendo. Como o amor terrível da tua voz.

Lorca!