O dia começa cedo: filhos para vestir, pequeno-almoço para preparar, lancheiras, casacos, birras e emoções para gerir. No meio de tudo isso, ainda há que encontrar tempo para nos arranjarmos e sair de casa com alguma serenidade — prontas para o escritório. Sair a tempo de os deixar na escola, entrar pontualmente naquela reunião das 9h, trabalhar com foco para conseguir sair a horas decentes de ir buscá-los. Uma pausa num trabalho apenas para começar outro: o de ser mãe. Banhos, jantares, logística do final do dia… e quando finalmente adormecem, ligamos novamente o computador para fechar o que ficou por fazer.
E nem falemos do que vai dentro das nossas cabeças: o jantar de amanhã, as roupas por lavar, o trabalho da escola, a festa de aniversário, as consultas. Sem contar com a gestão das nossas próprias emoções — tentar ser paciente, presente, dedicada, boa mãe, boa profissional, boa companheira.
Ser mãe e trabalhar é um desafio diário, um trapézio entre o amor e a exaustão, entre o tempo que damos aos outros e o pouco que sobra para nós. Ser mãe e trabalhar é um desafio e uma constante angústia sobre o tempo que dedicamos aos nossos filhos, à nossa casa, às nossas relações e à nossa carreira profissional.
Nos últimos tempos, muito se tem falado sobre os direitos das mães no trabalho em Portugal. A verdade é que o caminho a percorrer ainda é longo: a licença parental continua a ser curta, o horário reduzido só é assegurado até ao primeiro ano de vida da criança ou durante o período de amamentação e implica atestados médicos e burocracias desnecessárias. O resultado é que muitas mães regressam ao trabalho sem condições reais para conciliar a vida profissional com a vida familiar.
É natural sentirmo-nos frustradas. Mas talvez esteja na altura de olharmos para este tema de uma perspetiva diferente. E se, em vez de apenas apontarmos o que falta, víssemos também o poder que temos, enquanto mães, para influenciar devagarinho a mentalidade das nossas empresas?
O que a lei garante
Em Portugal, as mães têm direitos importantes, como a licença parental, a proteção contra despedimento e a possibilidade de redução do horário de trabalho até ao primeiro ano da criança. Estes direitos são essenciais, mas na prática revelam-se, muitas vezes, insuficientes para responder às necessidades reais das famílias.
O que sentimos na pele
Muitas mães regressam ao trabalho a sentir que estão sempre em dívida: para com os filhos, para com a empresa e até para consigo próprias. A pressão é real e não pode ser ignorada.
Não é por acaso que tantas mulheres acabam por desistir da ascensão profissional, acreditando que não são capazes de conciliar responsabilidades familiares e ambições de carreira. Mas será mesmo assim?
A boa notícia é: É possível! Nós também podemos mudar mentalidades
As empresas não são feitas apenas de regras e políticas — são feitas de pessoas. E nós, mães trabalhadoras, também fazemos parte dessa cultura. Se mostrarmos que a flexibilidade não nos torna menos produtivas, mas sim mais motivadas e focadas, podemos ajudar a abrir caminho para novas formas de trabalhar.
Há pequenos gestos podem ter impacto – e têm muito mais poder do que imaginamos:
Mostrar aos líderes que produtividade se mede em resultados e não apenas no número de horas passadas no escritório.
Dar exemplos concretos de como um horário flexível ajuda a conciliar responsabilidades familiares e profissionais, traduzindo-se em mais foco, motivação e até melhores resultados para a empresa.
Partilhar sugestões construtivas com as camadas de gestão ou com os recursos humanos, contribuindo para criar soluções que beneficiem tanto as mães como a organização.
Cada vez que comunicamos com clareza e mostramos que ser mãe não é um “obstáculo”, mas uma oportunidade para desenvolver competências únicas (organização, foco, empatia), estamos a transformar perceções.
Um olhar para o futuro
A mudança cultural não acontece de um dia para o outro. Mas acontece. E começa com passos pequenos, dados todos os dias por mães que acreditam que é possível trabalhar bem e, ao mesmo tempo, estar presentes para os seus filhos.
Ser mãe no trabalho é um desafio, mas também é uma oportunidade de abrir caminho para quem vem depois de nós.
Se cada uma fizer a sua parte, devagarinho, vamos mostrando às empresas que apoiar as mães não é um custo — é um investimento em talento, motivação e futuro.
A boa notícia é: nós, mães, temos o poder de transformar o mundo do trabalho (e não só) a partir de dentro. E podemos começar já hoje