A propósito da Cimeira da Indústria, que o Observador organizou, em parceria com a AEMinho, desafiámos alguns especialistas a escrever sobre os desafios da economia e indústria do futuro.
A indústria voltou ao centro do debate económico europeu. Durante anos, a atenção concentrou-se nos serviços, na digitalização e na economia do conhecimento. Contudo, a pandemia, as disrupções nas cadeias de abastecimento, a crise energética e a crescente fragmentação geopolítica vieram recordar uma realidade muitas vezes esquecida. Sem uma base industrial sólida não existe verdadeira autonomia económica, nem resiliência, nem crescimento sustentável.
E Portugal não é exceção. A recente Cimeira da Indústria, promovida pela Associação Empresarial do Minho e pelo Observador, com o apoio da Universidade Católica Portuguesa, permitiu discutir alguns dos principais desafios que se colocam às empresas portuguesas e à economia nacional. A conclusão é relativamente simples: Portugal tem talento, capacidade empresarial e setores industriais competitivos. O problema está nos bloqueios estruturais que continuam a limitar o nosso potencial de crescimento.
O primeiro desses bloqueios é a produtividade. Há décadas que Portugal apresenta níveis de produtividade significativamente inferiores à média europeia. Este é provavelmente o problema económico mais importante do país, porque condiciona quase tudo o resto: os salários, a capacidade de investimento, a competitividade e o crescimento económico.
Importa dizer claramente que a baixa produtividade portuguesa não resulta de falta de esforço dos trabalhadores ou dos empresários. Resulta, sobretudo, de uma estrutura económica caracterizada por empresas de pequena dimensão, limitada capitalização, reduzida incorporação tecnológica e insuficiente capacidade para gerar valor acrescentado.
Daqui decorre um segundo desafio: a falta de escala. Portugal continua a ser um país de micro e pequenas empresas. Muitas delas são extraordinariamente competentes, inovadoras e resilientes. Contudo, a dimensão continua a ser um fator crítico para competir em mercados globais, investir em tecnologia, atrair talento e financiar o crescimento. A escala não é um fim em si mesmo. É uma condição para sustentar a competitividade.
O terceiro obstáculo é constituído pelos custos de contexto. Burocracia excessiva, processos de licenciamento demorados, complexidade regulatória, lentidão da justiça e instabilidade administrativa continuam a representar custos significativos para as empresas. Muitas vezes, o problema não é a falta de apoios. É o excesso de complexidade.
A estes fatores junta-se uma carga fiscal que continua a penalizar o investimento, a retenção de talento e a competitividade internacional das empresas. Finalmente, surgem os salários. O debate público tende frequentemente a tratar os salários baixos como um problema isolado. Na realidade, eles são sobretudo uma consequência. Sem ganhos consistentes de produtividade e sem maior criação de valor acrescentado, dificilmente será possível assegurar aumentos salariais sustentáveis.
Os desafios estão identificados há muito tempo. A questão relevante é perceber porque é que algumas empresas portuguesas conseguem prosperar apesar deles. A resposta encontra-se frequentemente na qualidade da gestão.
Quando observamos empresas que crescem, exportam, inovam e competem internacionalmente encontramos quase sempre características semelhantes. Liderança forte, visão estratégica, capacidade de adaptação, internacionalização, investimento contínuo em pessoas e tecnologia e uma cultura organizacional orientada para a execução. Por outras palavras, o contexto económico importa. Mas não determina totalmente os resultados.
Esta é uma mensagem particularmente importante para a indústria portuguesa. Num mundo marcado pela inteligência artificial, pela automação e pela crescente competição global, a vantagem competitiva dependerá cada vez mais da capacidade de adaptação das organizações.
Neste domínio, Portugal possui uma vantagem frequentemente subestimada. As empresas portuguesas aprenderam a operar em ambientes difíceis. Desenvolveram flexibilidade, proximidade ao cliente e uma notável capacidade de resposta à mudança. O desafio consiste agora em transformar essas qualidades em ganhos de escala, produtividade e valor acrescentado.
Um bom exemplo desta capacidade encontra-se precisamente no Minho. A região tem demonstrado ao longo das últimas décadas um dinamismo empresarial e industrial notável, afirmando-se como um dos principais motores da economia portuguesa. Empresas dos setores da construção, metalomecânica, têxtil, vestuário, automóvel, tecnologia, saúde ou materiais avançados competem hoje nos mercados internacionais, inovam, exportam e criam emprego qualificado. Muitas delas constituem referências nacionais e internacionais e demonstram que é possível crescer a partir de Portugal e competir com sucesso à escala global.
Este dinamismo não surgiu por acaso. Assenta numa forte cultura de empreendedorismo, numa tradição industrial profundamente enraizada e, sobretudo, em lideranças capazes de enfrentar a incerteza, assumir riscos e construir projetos de longo prazo. São lideranças resilientes, próximas das suas pessoas e dos seus clientes, mas também assentes em valores éticos e numa visão clara do futuro. Num contexto cada vez mais complexo e imprevisível, estas características podem constituir uma das mais importantes vantagens competitivas da economia portuguesa.
E a indústria pode desempenhar um papel central neste processo. Mas não o conseguirá fazer sozinha. Precisamos de empresas mais produtivas, mais inovadoras e mais internacionalizadas. Precisamos de melhores condições para investir e crescer. Precisamos de uma ligação ainda mais forte entre empresas e universidades. E precisamos de reconhecer que o debate sobre competitividade é também um debate sobre liderança, gestão, talento e qualidade das instituições.
A Cimeira da Indústria é um evento organizado pelo Observador, em parceria com a AEMinho, e conta com o apoio institucional da Câmara Municipal de Braga. Pretende debater os desafios da indústria para o crescimento da economia em Portugal.
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