1. O divórcio, a separação conjugal, o rompimento de relações é uma das práticas mais generalizada no modo de vida contemporâneo. O divórcio tem vindo a banalizar-se no seio da vida familiar constituindo-se, nas suas múltiplas consequências, como um dos grandes dramas do nosso tempo; reconfigurou por completo a fisionomia das sociedades ocidentais. Os números são epidémicos: em Portugal, segundo dados da Pordata e Censos, em 2021 foram celebrados 29 057 casamentos e 17 279 divórcios, ou seja, em cada 100 casamentos, há 60 divórcios. É inegável que a instituição familiar é uma necessidade natural e intrínseca da condição humana; a humanidade sempre viveu em famílias, verdadeiras sociedades domésticas, pré-políticas, mais antigas que quaisquer outras. A família fundada no casamento é então o berço da vida; é essa a natureza da espécie humana.

A dissolução familiar associada ao divórcio é, por mais que se custe admitir, uma tragédia transversal, incontornável, contundente: solidão, desenraizamento, famílias desestruturadas, fragmentadas; famílias desfeitas pelos mais variados motivos (ou até mesmo sem qualquer motivo); crianças vulneráveis a diversas patologias comportamentais, inseguras, baixa autoestima, sem referências, sem horizontes; crianças frequentemente instrumentalizadas, com horários partilhados, residências múltiplas, com mensagens contraditórias de vários “pais e mães”; baixo rendimento académico, caos escolar. Crianças transformadas em autêntica “carne para canhão” das clínicas psiquiátricas.

2. Todo o ser humano tem (já dizia Aristóteles) a capacidade de discernimento moral, isto é, tem a capacidade para determinar o que é o bem e o mal. Todo o ser humano, em todas as sociedades, culturas, religiões, escolas de pensamento, sabe perfeitamente que abandonar os pais idosos está errado; sabe que eliminar o bebé que cresce no ventre materno está errado, é mau; sabe que, ainda que em sofrimento, eutanasiar um idoso que o pede, está errado, é mau, é contranatura; sabe, também, que saltar de cama em cama em busca do prazer sexual sem limites é algo perverso; sabe que abandonar a mulher (ou o homem) porque ficou velha, tem celulite e engordou é mau, está errado, não se faz; todo o ser humano sabe tudo isso; tem essa forma de conhecimento imediato, tem a natureza da intuição, é algo inscrito na sua natureza. Tudo o resto são histórias, filmes que, como autonomeados realizadores, produzimos no teatro da mente (ou no que dela resta) para nos justificarmos. Tudo o resto são subterfúgios para legitimarmos o direito às nossas escolhas, à nossa realização pessoal ou profissional; ao supremo direito à felicidade e bem estar pessoal; tudo o resto são mentiras, fraudes, truques que as ideologias e respectivos manipuladores sociais criam para nos enganar, para que renunciemos à nossa natureza, para esconder a verdade objectiva das coisas, para que nos tornemos mais desenraizados e desvinculados, mais fragilizados e dependentes para, finalmente, sermos mais facilmente manipulados pelo poder de turno.

3. Claro que esta capacidade de discernimento moral exige que nos confrontemos com as circunstâncias práticas e específicas de cada situação real. A velha “razão teórica” diz respeito aos grandes princípios e valores; já a “razão prática” aplica os mesmos às circunstâncias particulares de cada caso concreto. Assim, através do bom e recto uso da razão prática podemos discernir que um determinado comportamento, inaceitável em si mesmo, pode, circunstancialmente, reclamar um tipo diferente de avaliação, de análise, de apuro. O que o nosso mundo contemporâneo geralmente faz é dispensar a razão teórica e fazer um uso puramente utilitarista da razão prática. Ora, a razão prática não pode, em caso algum, dispensar os princípios que a conformam; não pode dissociá-la da razão teórica pois, desta forma, a pessoa desumaniza-se, torna-se cruel, sem humanidade, oportunista, que se quer aproveitar das circunstâncias para negar a verdade.

4. Não ignorando o drama e o sofrimento que envolve a história de muitos casais que se divorciam; não ignorando que, em muitos casos, o divórcio não é o resultado de irresponsabilidades acumuladas, futilidades ou frivolidades, mas consequência de relações falhadas, histórias mal geridas, fracassadas; não ignorando que esse mesmo divórcio pode servir como justificação para resolver situações extremas, insustentáveis, de maus tratos, de violência; não ignorando que em alguns casos, a separação pode ser “moralmente necessária”; ainda assim, o divórcio será sempre um subterfúgio, um “mal menor”, um remédio que seria melhor não ter que tomar. O divórcio será sempre algo intrinsecamente mau, negativo, ameaçador. O ideal não é, em nome de uma alegada liberdade conquistada, absoluta, aritmética, banalizar e normalizar o divórcio, a rotura, a fragmentação da família, quadro que inevitavelmente gerará separação, sofrimento, incerteza, ansiedade, quebra de promessas, vazio existencial. O ideal é a família unida, forte, coesa, cujos membros se amam mutuamente.

5. Causas do divórcio: Existe uma natureza muito sentimental nas relações do homem contemporâneo que se revela problemática para a coesão e consistência de relações duradouras; “já não sinto o que sentia”. O mito de que se tem de sentir as coisas, sempre da mesma maneira, é pernicioso. Claro que já não se pode sentir como antes. E tal acontece com o casado, com o padre, com a religiosa, com o professor, com o escritor, com o artista, com qualquer pessoa. Ou ainda, “faz o que o teu coração manda”, “sê tu mesmo”. Estamos exaustos deste tipo de mensagens repetidas até à exaustão (na escola, na família, no trabalho, na cultura, nos media, no grupo de amigos; pasme-se, até dentro da própria igreja). Há uma exacerbação desmedida, contraproducente dos sentimentos; a capacidade de equilibrar a razão com o coração é fundamental;

Há um discurso sobre a felicidade que é igualmente perverso: “Tu tens direito a ser feliz”. És feliz no casamento? Então vai em frente! Já não és feliz no casamento? Não estás feliz, sentes-te sozinha? Então separa-te! Que tipo de felicidade se está a propor às pessoas? A felicidade é uma “destilação da vida”, não é um estado de ânimo, de espírito; a vida quotidiana tem muitos fardos, facetas, muitos conflitos, muitas coisas boas e más;

O sentimentalismo contemporâneo, caracterizado por aceitar erros, ou falhas, com complacência e falta de autocrítica, e com a consequência nefasta da fuga às responsabilidades individuais, tenta apresentar o divórcio como um triunfo da liberdade. Vivemos, assim, uma época que “aplaude” e celebra o divórcio como uma conquista, como uma espécie de prémio, uma expressão da liberdade individual. Mais uma vez, que horizontes, que tipo de felicidade e sentido de compromisso se está a propor às pessoas?

Uma conceção “idealista” da vida (idealismo: essa doença terrível do nosso tempo, a incapacidade de se agarrar à realidade), autocentrada, em torno de uma certa concepção jovem da vida, fluída, sensorial, pragmática, de saúde e bem-estar pessoal, uma concepção de liberdade exacerbada, absoluta, para viver “autenticamente”, impregna a mentalidade do Homem contemporâneo. Tal, paradoxalmente, é sinal da “desumanização” de que somos alvo, pois a fragilidade humana, a fraqueza, o sofrimento, fazem parte da vida e da natureza humana. São precisamente estas fragilidades geradoras de fraternidade, de solidariedade e apoio mútuo, da possibilidade de um futuro mais humano para todos;

À doação generosa e recíproca dos cônjuges, cimento base (e milenar) de qualquer “história de amor”, sobrepõe-se agora o direito à liberdade absoluta, o valor supremo da realização pessoal e profissional de cada um. Este processo é amplamente suportado por leis que facilitam o divórcio, sendo valorizado e incentivado pela cultura dominante;

Vivemos numa sociedade onde o casamento é desvalorizado. De facto, no nosso ordenamento jurídico, o casamento é um contrato sem valor, precário, vulnerável, que pode ser dissolvido unilateralmente, sem necessidade de alegar qualquer causa ou razão. Ou seja, o compromisso matrimonial, com todos os seus inabarcáveis dons, hoje não se reflete, paradoxal e incompreensivelmente, na lei;

Os novos paradigmas culturais não contribuem para a formação de personalidades maduras. Por isso, muitas pessoas chegam imaturas ao casamento. Contabilizam-se muitos divórcios, muitos deles após dois, três anos de casamento. Tal é revelador, precisamente, dessa imaturidade em relação ao matrimónio;

Os modos de vida mais tradicionais, em que se tinha um forte apego à terra, à família, à memória, ao legado, à comunidade, também facilitavam a criação de laços fortes, duradouros (o que não quer dizer que não houvesse também maus tratos e violência);

Hoje, de forma desproporcionada, construímos as nossas vidas em torno do sucesso académico, profissional, pessoal. Vamos perdendo o sentido do “bem comum”. Vivemos de forma estranha, desenraizados, dispersos, sem horizontes para além dos nossos interesses imediatos. Os nossos estilos de vida, de facto, conspiram contra o casamento. Claro que o sucesso pessoal e a realização profissional é algo desejável e legítimo; agora quando isso é elevado a valor supremo da nossa existência, e se transforma no centro da nossa vida, então transformamo-nos em adeptos incondicionais do individualismo e adonismo em estado puro, focado na satisfação exclusiva dos próprios desejos;

O Homem contemporâneo, diz-nos Bento XVI, “perdeu o sentido do compromisso, que é a expressão mais elevada da liberdade humana, pois significa estabelecer livremente limites à sua liberdade individual”. A união das “duas liberdades” dos cônjuges, que se limitam e complementam, faz do matrimónio uma união e um vínculo mais fortes do que qualquer sistema legal. É esta liberdade de limitar a própria liberdade (de que falava Chesterton), isto é, a “capacidade que se tem de escolher todos os dias o que é bom para si e o que é bom para os outros”.

Frequentemente, a relação de um casal moderno baseia-se exclusivamente no olhar um para o outro, ou seja, centrada apenas nos dois (projecto meramente humano). Em momento algum aspiram a algo maior do que eles próprios; basta-lhes estar juntos, sentirem-se bem, viver momentos bonitos, recordá-los. E quando tal acaba, acaba também o casamento;

A cultura contemporânea (em crise) não educa para valorizar e manter o compromisso, não gera horizontes para além do imediato. É a velha questão do compromisso “enquanto dura” em contraposição ao “compromisso para sempre”;

O casamento sobrevaloriza a atração afetivo-sexual entre o homem e a mulher, em detrimento do universo de compromissos de abertura à vida, ao afeto, à solidariedade, à vontade de se amarem e de se perdoarem em prol de um bem maior.

6. A evolução do processo legislativo que vivemos no ocidente revela-nos que nada aconteceu por acaso: em primeiro lugar, o estado laico separou o casamento da lei divina, “transformando-o” apenas numa lei humana (a palavra casamento vem do latim voto, o que significa que há uma ligação entre as pessoas que se casam, que fazem um voto; e um voto tem uma conotação religiosa. A sua origem, ainda que nem sempre com expressões religiosas, esteve sempre associada a um sentimento religioso, um significado religioso). Depois como é agora, apenas, uma união humana, e respectiva lei humana que a regula, removemos dela o aspecto “para toda a vida”. Depois, reduzimo-la ainda a uma lei frágil, frívola, superficial que não traduz, paradoxalmente, a relevância e o valor humano, social, psicológico, financeiro, simbólico que constitui precisamente o Matrimónio. Finalmente, afastamos o conceito de união entre homem e mulher. Portanto, trata-se de um processo ideológico, concertado, anticatólico e, sobretudo, anti-humano, no qual se tem vindo, de etapa em etapa, a colapsar a instituição matrimonial.

A hipocrisia social é também um elemento muito presente quando se analisa este fenómeno:ba hipocrisia de um mundo onde levantar a voz, dar uma palmada numa criança é praticamente um crime; já o divórcio, e o seu impacto devastador nas crianças e famílias, é considerado uma vitória, um hino à liberdade. Como podemos ser assim tão hipócritas?

Como se pode vender a ideia de que é melhor para as crianças, porque o que elas querem é ser felizes; e se a felicidade estiver no divórcio, então as crianças serão muito mais felizes. Como é que estas ideias absurdas, sem qualquer sustento na realidade, conseguem impor-se à nossa experiência? Claro que é melhor para as crianças, para a sua educação, estabilidade e maturidade, terem os pais juntos;

É igualmente curioso que nos media em geral se oculte o “estado civil” dos agressores. Essas referências, outrora públicas, foram removidas das estatísticas para esconder o facto de que mais de 80% dos casos de violência de género reportados ocorrem entre pessoas não casadas ou em processo de divórcio. Ou seja, o casamento e a família contribuem significativamente para a prevenção e redução da referida violência (as divergências que surgem do divórcio são frequentemente a causa disso);

Existem situações extremas. Sempre que estes temas são discutidos, os defensores do divórcio (o mesmo acontece com os defensores do aborto, eutanásia; os defensores das calamidades) argumentam sempre com os casos extremos. É claro que no âmbito legal sempre houve soluções para casos extremos. Ou seja, sempre houve a separação, sempre houve a anulação de um casamento que foi fundado em mentiras (e que, portanto, nunca existiu). Sempre houve soluções.

7. Teólogos, líderes religiosos e pensadores referem-se ao divórcio como expressão de uma crise antropológica sem precedentes que envenena o homem contemporâneo:

A perda, e banalização do sentido do mal e do “pecado” (precisamente, o grande pecado do século), o qual é agora substituído por um simples lapso, erro ou desadaptação humana mais ou menos temporária, onde cada um define o que é certo e errado;

O “eclipse da consciência” e o afastamento do sentido de Deus, traduz-se na dificuldade acrescida de discernir o bem e o mal;

O “até que a morte nos separe” dá lugar ao “enquanto o amor durar”;

No âmbito do divórcio, surgem novos e criativos conceitos; o “bom divórcio”, o “divórcio feliz”, “o divórcio sem dor”, “mais vale um bom divórcio que um mau casamento” parecendo ignorar-se todas as consequências já referidas, e associando-se o divórcio a uma “nova oportunidade de crescimento e desenvolvimento pessoal”; a um “novo percurso, novo caminho, novo desafio”. Esta perversão em modo “paliativo” caracteriza bem a crise antropológica que vivemos. Não falta originalidade para condimentar tudo isto, desde as tatuagens de divórcio, às novas “divorce selfies”, passando pelas festas de “despedida de casada” ou de “Miss divorciada”, com direito a limousine, iate ou mesmo balões de ar quente.

8. Considerações finais: O divórcio acarreta múltiplas consequências (familiares, psicológicas, financeiras, sociais), afetando profundamente a família e, principalmente, as crianças envolvidas. Claro que, felizmente, há filhos de pais divorciados que, na idade adulta, constroem relações conjugais sólidas, duradouras e exemplares (e também o seu contrário). Ninguém tem a sua vida predeterminada; existe sempre um espaço de liberdade e autonomia para cada um poder “construir” o seu caminho, o seu futuro;

O amor não é um sentimento (estes variam); é uma decisão, é um ato de vontade e um compromisso existencial profundo;

Os principais pilares do casamento são o amor e o perdão; não é a felicidade. A felicidade vem naturalmente por acréscimo; o perdão é a chave (“Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido…”);

Não mitifiquemos a vida dos outros (o homem casado mitifica a vida do solteiro);

É preciso apostar num tipo diferente de “relação”; optemos por construir histórias, não por construir momentos maravilhosos, espectaculares. Assumamos que uma história terá sempre bons e maus momentos; não tão fácil ou exuberante, mas será uma história mais real, autêntica, humana. Caso contrário, corremos o risco de, quando a fugacidade e a efemeridade do momento terminar, nos depararmos com a velha sensação: “Já não sinto nada”. Isso serve para desacreditar tudo o que as pessoas foram construindo;

Uma das componentes mais importantes em qualquer história de amor, para além da atração afetivo-sexual entre o homem e a mulher, é o papel da vontade no amor, da vontade de querer amar, que permite ultrapassar os momentos e períodos mais difíceis;

Criou-se a ideia que o casamento para toda a vida é uma versão exclusiva das cosmovisões religiosas. Mas não, esta opção por uma vida matrimonial duradoura é algo valorizado não só a nível religioso, mas também a nível antropológico, filosófico, humano. Perder esta verdade perene é um problema para toda a humanidade, e não só para os crentes (os resultados estão à vista);

Não podemos ignorar a influência nefasta que sistemas filosóficos e correntes de pensamento contemporâneas têm no colapso do casamento. Eles incentivam e promovem (não inocentemente) uma cultura hedonista centrada na busca imediata e incessante pelo prazer, elevando-o a bem supremo e motor da existência;

O divórcio é também, num certo sentido, expressão de uma derrota que a todos responsabiliza enquanto sociedade; vamos deixando (uns mais do que outros) que a qualidade da nossa liberdade, e o seu exercício, interfira directa e negativamente na qualidade dos nossos compromissos;

Não será que estamos a organizar as nossas vidas de acordo com aspirações muito centradas em nós mesmos; no nosso sucesso pessoal e material, e não de acordo com o interesse do próximo, dos filhos, das famílias em geral, do bem comum?

Não será evidente que construir o casamento com base num mero “projecto humano”, ignorando a sua dimensão transcendente, não tornará o mesmo, a prazo, em algo redutor, incompleto, pobre, parco de horizontes?

Como é que se pode, finalmente, separar o alegado “triunfo da liberdade e autonomia pessoal”, associado ao divórcio, e depois ignorar-se, desvalorizar-se, ocultar-se as consequências devastadoras que caem sobre as famílias, e sobretudo as crianças?

Hoje em dia é constrangedor, inconveniente, politicamente incorrecto falar sobre o divórcio, os seus efeitos e causas. Todos temos casos na família, no círculo de amigos, conhecidos, no local de trabalho, que não queremos agitar, perturbar, magoar. Mas temos que enfrentar a realidade, quebrar barreiras e abordar o tema com a necessária delicadeza, mas com frontalidade e honestidade.