O responsável da Uber em Portugal, veio recentemente a público partilhar a sua preocupação com o futuro do sector TVDE, alertando que as alterações às leis da imigração e da nacionalidade podem representar um “risco”. Segundo ele, o sector vive num “equilíbrio sensível”, e qualquer mexida pode provocar “reflexos rápidos e amplificados”.

É tocante. Depois de anos a operar com uma base de motoristas altamente precarizada, muitos dos quais imigrantes em situação vulnerável, a Uber descobre agora a fragilidade do sistema que ela própria construiu. Só que não estamos a falar de fragilidade no sentido humano — o que preocupa a Uber não é a vida dos motoristas, mas a possível escassez de mão de obra barata e descartável.

O “equilíbrio” de que fala é o equilíbrio do negócio: tarifas esmagadas para os motoristas comissões gordas para a plataforma, e motoristas a correr de um lado para o outro 12 horas por dia para tirar o equivalente ao salário mínimo (quando tiram). Esse equilíbrio, sim, é sensível — porque se deixar de haver fluxo constante de trabalhadores prontos a aceitar essas condições, o castelo de cartas treme.

O mais curioso — ou cínico — é que agora, no meio desta preocupação súbita pela sustentabilidade do sector, o responsavel da Uber, propõe uma medida revolucionária: que os motoristas possam avaliar os clientes. A sério. Depois de anos a permitir que qualquer utilizador frustrado com o trânsito ou com a sua própria vida possa afundar a avaliação de um motorista com um toque, eis que surge a ideia brilhante da reciprocidade.

Mas não nos iludamos: permitir que os motoristas deem estrelinhas aos passageiros não corrige a assimetria brutal do sistema. É só um gesto cosmético, um placebo para disfarçar a realidade — que os motoristas continuam sem voz nas decisões, sem poder de negociação, e sujeitos a uma pressão constante de desempenho algorítmico.

Também não faltou a habitual conversa sobre “flexibilidade com direitos sociais”, uma espécie de bandeira retórica da nova economia de plataforma. Mas na prática, a tal flexibilidade significa instabilidade, e os direitos sociais continuam a ser exigidos por quem está no volante — não por quem gere a app.

No fim, o que verdadeiramente aflige o responsável da Uber em Portugal não é a imigração em si, mas a possibilidade de perder acesso facilitado a uma massa de trabalhadores economicamente fragilizados, prontos a aceitar as regras de um jogo que nunca foi feito para lhes favorecer.

Falar de “riscos” agora é admitir, sem o dizer, que o modelo TVDE como está não se sustenta sem exploração. E que, talvez, o verdadeiro risco para o sector seja o de um dia os motoristas deixarem de estar dispostos a aceitar estas regras.

Honestidade intelectual e bom senso precisa-se!