Parece que quem hoje pontifica no IAVE e elabora os exames de Filosofia, a entende como uma chave de interpretação de enigmas de almanaque, ou uma forma institucionalmente legitimada de cruzadismo e charadismo. É claro que tudo a coberto das providenciais “Aprendizagens Essenciais” que este nosso Governo criou e que, a bem dizer, cobrem tudo o que se quiser, sobretudo o que relevar da ignorância disfarçada de pretensiosismo e da indulgência bacoca que se lhe pretenda aplicar.

Eu, que ando nisto há mais de 45 anos, supunha que a Filosofia envolvia a capacidade de compreensão de textos complexos, como são os produzidos por algumas das mentes mais profundas e interessantes que a civilização ocidental criou e colaboraram para a definir tal como ela é; o confronto estimulante entre as teses que esses textos exibem; o entendimento dos argumentos e das razões que as sustentam; e, finalmente, o que tudo isto pode contribuir para a formação de pessoas que querem ter a audácia de pensar pela sua própria cabeça. Este último ponto sempre me pareceu o escopo final de todos os outros. Mas, afinal e como se verá, parece que estava enganado.

Tudo isto, porém – a compreensão das teses, o domínio dos argumentos e a capacidade de elaboração autónoma de um pensamento, ainda que incipiente mas marcado de início pelas regras do rigor e da complexidade que àquilo que é complexo e difícil assistem – está sempre marcado pela linguagem e pelo seu domínio próprio. Por isso, a Filosofia é linguagem e discurso escrito (malgré Sócrates) e é neles que tudo se resolve. O ensino da Filosofia tem sido, assim, confronto com discursos e produção de discursos ou, pelo menos e no caso que aqui nos ocupa, tentativa de neste sentido formar os alunos. Nem vale a pena mencionar o sentido universal e transversal que o ensino da Filosofia poderia, nesta concepção, suscitar, qualquer que seja o domínio em que se possa pensar. Nomeadamente, e sobretudo, o da formação de uma personalidade integral e crítica e livre. Mais uma vez, parece que estava errado.

Tenho usado até aqui o tempo passado. Isto porque o domínio “escolar” da Filosofia tem vindo a ser tomado por umas soi disantes mentes analíticas, mas que são, sobretudo, tristemente dogmáticas e que se manifestam agora em apoteose no exame deste ano e respectivos critérios de correcção. Restrinjo-me ao seguinte. Um aluno que não escreva uma única palavra no seu exame e se limite a enumerar as letras correspondentes às questões de escolha múltipla e à formalização de uma questão incipiente do domínio da Lógica pode obter no seu exame de Filosofia 15,5 valores!!! Se, para além disto, escrever noutra questão duas palavras, alcança 16,9!!! Falar-me-ão do conhecimento implícito do pensamento dos filósofos, da capacidade de análise e de aplicação de conhecimentos e blábláblá…

A questão é que um aluno, sem demonstrar qualquer competência de argumentação escrita, pode alcançar quase 17 valores. Podem esconder-se por detrás das tais “Aprendizagens Essenciais”, do sentido analítico do pensamento filosófico, encher a boca com palavras mágicas como formação para a cidadania, sentido crítico e promoção da autonomia… Para mim, tudo isto não passa de mais uma triste fraude a acrescentar a muitas outras na área da Educação, algumas até bem mais graves, mas quase todas elas cobertas com o silêncio de uns e a cumplicidade de outros, uma espécie de Filosofia instantânea no género do pudim Boca Doce de outros tempos, ou do da gelatina Royal.

Então e os alunos que trabalharam de acordo com os princípios tão legítimos, para mim pelo menos, quanto os desta seita dominante no IAVE e no patético Ministério da Educação? É nestas alturas que apetece citar o Luís Pacheco. Que zanagas, que lapuzes!