A situação que vivemos actualmente tem levantado inúmeros problemas na organização do trabalho e contribuído para diversas e salutares tentativas de solução. Abordamos aqui uma questão, provavelmente menor mas relevante, no domínio do ensino nas nossas escolas.

As aulas da última quinzena do segundo período no ensino básico e secundário foram dadas através de computadores, tablets e smartphones. As reuniões de avaliação realizaram-se também por estes meios. Parece que as aulas do terceiro período vai ser assim que vão ser dadas, pelo menos parcialmente. Muita gente tem falado, e bem, das dificuldades, e das desigualdades decorrentes, que esta situação implica para os alunos que, ou por não terem acesso a computador, ou a computador sem acesso (ou acesso deficiente) à Internet, ou por terem os pais em teletrabalho a utilizar o computador da casa, ou por terem irmão (s) que também precisam de usar o computador, vão sentir óbvios embaraços na sua actividade. Nem toda a gente pode ter tantos computadores quanto os membros do agregado familiar…

Do que não temos ouvido falar é desta situação na perspectiva dos professores. Também eles têm filhos e cônjuges que precisam de utilizar estes meios, precisamente pelas mesmas razões e sofrendo dos mesmos embaraços. E mais, estes meios foram por eles adquiridos pessoalmente, o acesso à Internet é por eles pago e o seu uso, sob todos os pontos de vista e para todos os fins, é de natureza privada. O mesmo se diga em relação a todos os outros instrumentos de comunicação que possuem e utilizam. Não lhes foi nunca fornecido telefones, tablets ou computadores de trabalho nem os custos associados são despesas de representação. E, porém, é com tudo isto que toda a gente tacitamente conta.

Ninguém até hoje levantou esta questão. Sobretudo, os principais envolvidos que são os professores. Parece que para eles é óbvio que aquilo que é legítima propriedade privada esteja ao serviço da sua actividade profissional e pública que é ensinar os seus alunos. E não passou, nem passa, e estamos certos que nunca passará pela cabeça de nenhum deles levantar tais questões, neste momento ou em qualquer outro. O que só abona a seu favor mas não sabemos se é devidamente reconhecido. Porém, e por causa de certas coisas que se ouvem, escrevem e decidem, seria justo que Ministério da Educação, Encarregados de Educação e Directores tomassem isto em conta. Nem que fosse a benefício de inventário.