Em meados de 1467, Ali Ben Ziyad al-Quti partiu de Toledo rumo ao exílio. Ia com a família, alguns servos e uma biblioteca que não cabia inteiramente nos baús que a transportavam. Não porque os manuscritos fossem muitos — embora o fossem —, mas porque cada folha levava consigo uma espessura que não se mede em peso: vozes antigas, leis, genealogias, poemas, fórmulas, comentários de sábios, contas de mercadores, nomes de árvores, desenhos de constelações. Enrolada em pergaminhos e dobrada em cadernos, Ali Ben Ziyad al-Quti levava uma parte do mundo.
O destino era Tombuctu, remoto e poeirento, terra de vento, escassas chuvas e areia capaz de entrar nos livros como nas casas, nos olhos e na memória. Levava documentos em castelhano, hebraico e árabe, procedentes da sua biblioteca. Talvez tivesse a sensação de não transportar apenas uma herança, mas a própria possibilidade de a herança sobreviver. Cada letra conservada parecia uma pequena defesa contra o fim; cada página, um abrigo para tudo aquilo que a violência desejava desalojar.
Os séculos chamariam Fundo Kati a essa constelação de manuscritos. Cresceria devagar, de mão em mão, de geração em geração, até reunir milhares de volumes de natureza diversa. Recolher-se-ia em baús, caves, torres, minaretes, paredes falsas e troncos ocos. Conheceria a precariedade dos que sabem que uma biblioteca não se salva de uma vez para sempre. Salva-se todos os dias: ao fechar uma arca, ao atravessar uma fronteira, ao confiar um volume a alguém que talvez não consiga lê-lo, mas reconhece a obrigação de o proteger.
Por fora, entre muralhas e pátios, Tombuctu ardia por vezes em gritos, desmandos, sangue vertido ao acaso do ódio. Mas, dentro dos baús, dormiam os poemas, as leis, as fábulas, as alegrias botânicas e os nomes das estrelas. Dormiam sem saber que dormiam. Ou talvez, à sua maneira, o soubessem. Os livros não dormem como os corpos: aguardam, conservam uma vigília imóvel, uma paciência feita de fibras, tinta e silêncio. Basta que uma mão os abra para que tudo volte a mover-se.
Um «regresso» contém já uma pequena promessa. Regressar não é apenas voltar ao lugar donde se partiu, mas reaparecer diante daquilo que julgávamos perdido e descobrir que, entretanto, também nós mudámos. Nenhum exilado regressa verdadeiramente à cidade que deixou: as ruas parecem mais estreitas ou mais largas, as árvores adquiriram outra sombra, o rio continua a correr mas já não pertence ao mesmo tempo. Ainda assim, alguma coisa reconhece alguma coisa: uma pedra, uma palavra, a inclinação de um telhado, uma voz que pronuncia um nome antigo. E esse reconhecimento, por breve que seja, reconcilia as margens separadas da vida.
Quinhentos e cinquenta anos depois, uma parte do Fundo Kati regressaria a Toledo. A viagem, quase tão improvável como a primeira, passou por Jerez e Tarifa e realizou-se pelas mãos de Ismael Diadié Haidara, descendente remoto de Ali Ben Ziyad al-Quti. Ismael não conseguia ler a maioria dos livros que guardara, mas conhecia o seu valor. Não possuir uma língua não significa estar fora da sua herança. Há livros que pertencem àqueles que os escrevem; e outros que pertencem sobretudo aos que, sem os decifrarem inteiramente, os salvam do fogo.
Séculos de cruzamentos haviam escurecido a sua pele, e o vento de Tombuctu, com os seus uivos secos e a sua poeira persistente, despertava-lhe nostalgias de Espanha cuja origem lhe era difícil explicar. A nostalgia é talvez uma forma de regresso anterior ao próprio regresso. O corpo pressente uma morada antes de a memória saber nomeá-la. Há paisagens que nos chamam através do sangue, de uma palavra herdada, de uma ausência que não nos pertence inteiramente e, contudo, dói como se fosse nossa.
Ismael contou que não era a primeira vez que o Fundo Kati se deslocava. Conhecera esconderijos, subterrâneos, torres, minaretes, paredes duplas e árvores ocas. A barbárie deixara-o em paz apenas porque ignorava onde ele estava. Se pudesse encontrá-lo, lançá-lo-ia ao fogo. A destruição dos livros não nasce do excesso de convicção, mas do horror perante a diversidade das vozes. Quem destrói um livro não queima apenas papel: tenta interromper o mais humano dos diálogos. Não suporta que, em qualquer ponto do mundo, alguém possa pensar de outro modo, suspirar perante outra beleza, ou descobrir uma pergunta que não cabe no seu pequeno império de certezas.
O regresso dos manuscritos contém, por isso, uma espécie de redenção. Não porque apague os séculos de fuga, as mortes, os saques ou as violências que obrigaram os livros a ocultar-se. Nada regressa sem trazer consigo as suas cicatrizes. O pergaminho sobrevivente transporta a poeira dos lugares onde esteve escondido; a encadernação conserva o odor dos baús; a tinta escurece como escurecem as mãos de quem trabalhou para que ela não desaparecesse. O que volta não recupera uma inocência anterior. Regressa marcado, mais frágil e, por isso mesmo, mais precioso.
Entre os manuscritos levados a Toledo havia um pequeno pergaminho com uma passagem do Livro de Ezequiel: «Convertei-vos e vivereis.» Alguém a leu e traduziu a Ismael Diadié Haidara no palácio onde se encontravam. Sentou-se, fulminado pela coerência, num velho cadeirão de couro de Córdova: estava em Toledo, a cidade de onde o antepassado partira séculos antes, pressentindo os perigos que se aproximavam da sua família e dos seus livros. A frase bíblica parecia falar-lhe ao mesmo tempo do corpo, da história e do acervo: voltai, e vivereis.
Mas voltar para onde? A questão é menos simples do que parece. Voltar não é desfazer o caminho, nem negar aquilo que o caminho transformou. É reconhecer que existe em nós uma direcção esquecida, um ponto de origem que não coincide com o passado, mas continua a orientar os nossos passos. Há retornos que não nos levam para trás. Levam-nos, estranhamente, mais fundo. Fazem-nos entrar pela primeira vez no lugar que julgávamos conhecer.
Disseram a Ismael que, naquela cidade, tinham sido traduzidas jóias do saber para as línguas do século XIII; e que, então como agora, o rio corria impassível junto às construções de pedra acinzentada, tão diferentes das de Tombuctu, a cidade da sua infância. Sorriu com amargura e reconheceu que, de tudo quanto regressa, talvez os livros fossem o mais maravilhoso.
Talvez porque os livros regressam de muitas maneiras: regressam quando uma biblioteca perdida reaparece depois de séculos; quando uma frase lida na juventude, esquecida durante décadas, volta de súbito à memória no instante exacto em que se torna necessária; quando abrimos um volume herdado e encontramos, entre as páginas, a caligrafia de alguém morto; regressam ainda quando lemos uma língua antiga e compreendemos que uma dor, uma alegria ou uma pergunta atravessou milénios para alcançar o nosso coração.
Ler é deixar que os mortos retomem a palavra sem exigirem que abandonemos o presente. Um livro não ressuscita literalmente quem o escreveu; oferece, porém, outra forma de presença. Faz-nos escutar o pensamento de alguém que já não pode falar, faz-nos acolher uma respiração que atravessou os séculos e chegou até nós. O leitor torna-se ponte: não uma ponte imóvel, mas uma passagem continuamente percorrida por vozes, ideias, imagens e afectos.
O professor que traduzira a passagem de Ezequiel observou que ler devolvia os mortos como se ainda estivessem vivos. E acrescentou que a leitura fazia dos vivos uma ponte pela qual os pensamentos cruzavam incessantemente, trocando cores e ideias. Ismael lamentou que a crueldade continuasse.
“Mas também a intermitência dos regressos”, suspirou o professor, guardando cuidadosamente o pergaminho. “Também a intermitência dos regressos.”
A história não é uma roda perfeita, nem possui a delicadeza de reparar por inteiro aquilo que destruiu. O tempo devolve pouco e devolve-o irregularmente, como uma nascente que ora corre, ora se esconde debaixo da pedra.
Mas é precisamente essa irregularidade que torna cada regresso uma dádiva. Se tudo voltasse sempre, nada seria recebido como milagre. A intermitência é a medida humana da esperança: não a certeza de que tudo será restaurado, mas a disponibilidade para reconhecer aquilo que, contra toda a probabilidade, reaparece. Uma folha guardada, um nome recordado, uma língua que não morreu, um filho que abre o livro do pai, um manuscrito que atravessa o deserto dentro de uma arca.
Há retornos que pertencem aos lugares; outros pertencem às pessoas; outros, ainda, às palavras. Toledo recebe alguns dos seus livros. Tombuctu conserva a memória dos que partem e dos que permanecem. Ismael regressa a uma origem que nunca conheceu inteiramente. Ali Ben Ziyad al-Quti regressa no gesto do seu descendente, embora os seus ossos continuem longe. E os manuscritos regressam sobretudo cada vez que uma página se abre e alguém, em silêncio, permite que as suas letras recuperem o ar.
A intermitência dos regressos é, assim, uma liturgia discreta contra o desaparecimento. Não promete uma vitória definitiva sobre a perda. Ensina apenas que a perda não possui soberania absoluta. Há sempre algo que resiste: um fragmento de tinta, uma palavra escondida, a memória de uma voz, uma mão que transporta um baú através da noite. E enquanto houver quem reconheça esse fragmento e lhe dê abrigo, o mundo continuará a reencontrar, de modo irregular e luminoso, o caminho de volta a si mesmo.