Izana foi uma das muitas kataribe – contadoras de histórias – que percorriam o Japão levando consigo contos, mitos e deliciosos episódios das vidas dos heróis. Morreu aos oitenta anos, depois de ter vivido cinquenta na corte dos Ashikaga. Era uma mulher de corpo amplo, voz grave e espessa, e caminhava devagar, como se cada passo tivesse de abrir caminho através de uma camada invisível de nevoeiro. Tinha uma filha, de pai incógnito, que a ajudava nas tarefas domésticas e lhe preparava as refeições quando voltava das suas viagens.
Izana aprendera a ler na corte do terceiro Shogun do período Muromachi. Ou, pelo menos, era essa a explicação que todos esperavam ouvir. Quando o senhor lhe perguntou um dia onde adquirira uma arte tão difícil, ela respondeu que fora no mercado, com os anúncios dos vendedores de fruta e legumes. As palavras, dizia, estavam penduradas entre nabos, maçãs, cabaças e peixe; era preciso apenas esperar que alguém as pronunciasse com a voz certa.
Quioto era então uma cidade embriagada de crisântemos, vinho e canções. Nas ruas, os homens discutiam poesia; nos jardins, as mulheres viam as folhas de ácer cair sobre os lagos; nos pátios interiores, as crianças perseguiam sombras de aves que ninguém conseguia apanhar. Izana gostava sobretudo de faisões e de lagos. Dizia que os faisões eram como frases de cores vivas, lançadas de repente no ar, enquanto os lagos eram livros fechados, guardando no fundo tudo aquilo que os homens julgavam ter esquecido.
A sua arte consistia em ligar uma história a outra. Falava de um guerreiro e, quase sem que ninguém desse por isso, aparecia uma rapariga que bordava uma flor num quimono; dessa flor nascia uma montanha; na montanha, um eremita; e do eremita saía uma palavra que o levava de novo à infância do guerreiro. O Shogun escutava-a em silêncio, cada vez mais feliz. Até que, certo dia, Izana lhe disse:
— Meu senhor, talvez devêsseis deslocar o vosso ofício da boca para a mão. Tudo aquilo que ouvistes pode permanecer convosco, mas será preciso oferecer-lhe uma casa.
O Shogun perguntou-lhe de que casa falava.
— De uma biblioteca — respondeu ela —, uma pequena morada para os livros que ainda não conheceis e para aqueles que, sem o saberdes, já vos pertencem.
O senhor mandou que se construísse essa morada. Izana levou três anos a erguer a Cabana de Ler do Shogun. Por vezes, assentava ela própria as tábuas, segurava as vigas ou limpava com um pano a cerâmica do telhado vidrada de azul. A cabana ficava junto de um pequeno bosque de bambu. Quando o vento soprava, os caules tocavam-se uns nos outros e produziam um som fino, semelhante ao das páginas de um livro que alguém folheia sem pressa.
Izana viajou pelo Japão inteiro. Ia de norte a sul, de leste a oeste, procurando livros em casas velhas, em mosteiros abandonados, em quartos de viúvas, em lojas onde se vendiam objectos que tinham sobrevivido a incêndios e a guerras. Comprou manuscritos a sábios sem filhos, que não queriam que as suas anotações fossem queimadas depois da morte. Comprou livros a famílias que haviam perdido tudo nas guerras. Comprou ainda pequenos volumes a cortesãs que preferiam desfazer-se das suas memórias escritas a vender os quimonos bordados com flores de primavera, nos quais tinham deixado muitas noites de vigília e muitas horas roubadas ao sono.
Os livros chegavam à cabana aos ombros de carregadores ou em carroças antigas, de rodas fatigadas. Izana abria-os, sacudia o pó, limpava-lhes as capas, examinava os rasgões e os sinais de humidade. Depois colocava-os nos nichos que mandara construir nas paredes. O Shogun aparecia quase todos os dias. Aproximava-se dos volumes com uma curiosidade que lhe iluminava o rosto, como se entrasse num bosque onde todos os animais fossem desconhecidos e nenhum lhe pudesse fazer mal.
Izana não deixou, contudo, de contar histórias. Continuava a narrá-las às crianças que não conseguiam dormir e que, em vez de carneiros, precisavam de imaginar dragões, raposas, rios falantes e mulheres que se transformavam em pássaros. Quando o Shogun lia em voz alta o Kojiki, o Registo das Coisas Antigas, ela fingia apreciar a sua voz rouca. Fazia-o por cortesia, pois achava que o senhor lia como se tivesse pequenas pedras presas na garganta.
A Cabana de Ler tinha também o seu kami, o seu espírito protector: um rouxinol que vivia numa gaiola de bambu e quase nunca dormia. Quando entrava na sala, Izana cumprimentava-o como se se tratasse de uma pessoa. Nos dias claros, levava a gaiola para fora. O rouxinol apanhava sol e respirava o ar doce das nespereiras em flor. Depois, voltava a entrar, como se soubesse que uma biblioteca é também uma gaiola, embora feita de palavras em vez de bambu.
Certa manhã, o Shogun encontrou Izana junto às estantes. O rouxinol cantava com tanta intensidade que parecia querer perfurar o silêncio da cabana.
— Dizes que tudo o que nos rodeia é opacidade ou ensinamento — disse o senhor —: opacidade, quando não possui significado; ensinamento, quando ilumina os nossos passos pelo mundo.
— Assim é — respondeu Izana —. Os livros que aqui reunimos existem para vos devolver ao instante anterior à leitura. Lê-los não é afastar-vos do mundo, mas regressar a ele com outros olhos. Talvez, depois de abrirdes um livro, descubrais que estais a descobrir. E então, mesmo uma tempestade, um dia cinzento ou uma neve que não cessa de cair se tornarão coisas dignas de atenção.
O Shogun pareceu pensar nisso.
— E para que serve cada livro?
— Para aumentar a vossa serenidade, tornar mais aguda a vossa coragem e ensinar-vos a ver aquilo que, estando diante de vós, ainda não tínheis visto.
Um dia, enquanto passeava entre as estantes, abrindo kakemono e afastando as sedas pintadas que se misturavam com os livros, o Shogun encontrou um volume estranho. As suas páginas estavam vazias. Eram, na verdade, lâminas de bronze polido, espelhos presos numa encadernação escura.
A princípio julgou que se tratasse de um erro ou de uma brincadeira de Izana. Não lhe parecia natural que, junto das histórias de Hiruko, a criança-sanguessuga, da dança de Amaterasu ou de Iki imi, o Canto da Vida Pura, estivesse um livro feito de espelhos.
— Qual é o propósito deste objecto? — perguntou o Shogun.— Para que servem estas páginas?
Izana aproximou-se devagar. O rouxinol, naquela manhã, permanecia em silêncio.
— Servem para vos lembrar que cada leitor procura sempre ler-se a si mesmo. Nenhum homem possui uma identidade imóvel. Somos diferentes a cada instante. Recordamos, e com o ontem fabricamos a forma que temos hoje.
O senhor olhou para o seu rosto no bronze.
— Mas a minha face é sempre a mesma.
— Não — disse Izana. — Os vossos traços são uma nascente de mudanças. São uma máscara macia, um mapa de rugas, uma rede que o tempo vai escavando na vossa pele. Os outros livros levam-vos até mares, montanhas, animais, plantas e vidas alheias. Falam-vos de genealogias, de terramotos, da origem da música, das virtudes do fogo que coze os alimentos e das maldades do fogo que devora as casas. Mas este livro fala-vos de vós.
— E que me diz ele?
— Acusa-vos e recorta-vos no espaço. Mas, quando deixais de o olhar, regressa à sua quietude polida, como se nada tivesse acontecido. Não vos engoliu no seu abismo luminoso; apenas vos deixou passar. Sorri convosco quando sorrirdes e chora convosco quando chorardes.
O Shogun fechou o livro de espelhos. Por um momento, viu o seu rosto desaparecer entre as duas capas.
— Este livro anónimo — continuou Izana —, que ao abrir-se vê todos os outros livros da Cabana de Ler, ensina o uno, a unidade que não muda. Todos os outros, parece-me, ensinam a variedade infinita do universo.
— Talvez devesse lê-lo quando entro na biblioteca e também quando saio dela — disse o Shogun.
Izana inclinou a cabeça.
Foi então que o rouxinol cantou. O seu trilo fino e agudo percorreu a sala de leitura como um felino invisível e afectuoso, roçando os livros, as sedas, os espelhos e os dois rostos que, por um instante, pareciam pertencer à mesma claridade. O fio não se quebrou.