Nasceu há 150 anos, no dia 22 de Abril. Os pais eram conservadores liberais e partidários da monarquia. A mãe, Maria Alexandrovna Blank, vinha de uma família de judeus ricos e cultos e tinha sangue germânico e sueco. O pai, Ilya Ulyanov, subira os degraus da hierarquia administrativa czarista, recebera uma alta condecoração do Estado e, por inerência, a categoria de “nobre hereditário”. A velha aristocracia russa estava em decadência e misturava-se com as novas classes burguesas enriquecidas.

Vladimir Ilyich Ulyanov chegou à política aos 17 anos com a morte do irmão mais velho, Alexandre, enforcado por conspiração para assassinar o czar Alexandre III.

Era o contrário dos heróis revolucionários imaginados pelo romance político do século XIX (de Victor Hugo, de Jules Valés ou de Zola) e tinha pouco em comum com os activistas radicais conhecidos –  boémios, generosos, idealistas, como Herzen, ou anarquistas, como Bakunine. Era um homem de regras, ascético na vida privada e familiar, talvez com excepção do ménage à trois, conhecido e consentido, que mantinha com a mulher, Nazdezha Krupskaya, e a amante, Inessa Armand.

Estudou Direito na Universidade de Kazan onde foi um excelente aluno. Muito influenciado pela morte do irmão e pela leitura de Nikolay Chernyshevsky, passara a interessar-se por política e pelo activismo político. Chernyshevsky era um intelectual russo, leitor de Belinsky e Herzen, e o seu livro Que Fazer? Marcou de tal forma o jovem Vladimir Ilyich, que, mais tarde, num momento crucial de luta político-ideológica, usaria como título a “questão vital” do intelectual russo.

Aos 18 anos tornara-se um adepto fiel – embora crítico – do pensamento e da teoria da História de Marx, co-autor, com Engels, do Manifesto Comunista. Aos 23, é expulso da Universidade de Kazan por activismo revolucionário e muda-se para S. Petersburgo onde continua, com algum sucesso, a actividade política radical.

É preso, julgado, acusado de subversão e condenado a residência fixa na Sibéria. No degredo siberiano, ainda que sempre apoiado e financiado pela mãe, aprofunda as leituras de História económica e História militar, escreve, caça, pesca, joga xadrez. É também no exílio que casa com a sua correligionária Nazdezha Krupskaya.

Em 1900, regressado do degredo e depois de ter publicado O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia, resolve partir para a Europa. Tem trinta anos. É por essa altura que lança o jornal Iskra, (A Centelha) e que escolhe o pseudónimo Lenine – lembrando o rio Lana, que corre na Sibéria.

Nicolas Berdiaev, o grande pensador cristão ortodoxo, autor de As Origens e o Sentido do Comunismo Russo, deixa-nos um retrato essencial de Vladimir Ilyich Ulyanov. Para Berdiaev, Lenine, longe de ser apenas um representante, ou mesmo um filho, da Inteligentzia russa e de ter uma inteligência e uma erudição notáveis (sendo que passara parte da vida detido ou no ócio do exílio, com milhares de horas de biblioteca em Londres, Paris, Zurique), tinha como qualidades determinantes a manha e a hipocrisia popular russa e uma costela de “despotismo oriental” de Ivan, o Terrível, e de Pedro, o Grande, “os criadores do Estado pelo terror despótico”.

Foi, do exílio, o líder incontestado do movimento bolchevique, aproveitando as debilidades da autocracia russa, que, a partir de 1905, seguia uma linha enviesada de abertura, brutalidade, liberalização, reacção. Stolypin, o único homem que ensaiou, como primeiro-ministro, uma reforma firme mas modernizante e atenta à realidade social, foi assassinado por um anarquista – como por vezes acontece aos que, seguindo uma recomendação de Hegel, se opõem à revolução, tentando fazer a revolução por cima.

Nas permanentes lutas internas do movimento socialista russo, Lenine acabou por emergir na linha da frente, argumentando, intervindo, respondendo, vencendo. Não tinha, nessas batalhas dialécticas, limites ou escrúpulos. Nem fazia prisioneiros.

Estando em Zurique e tendo tomado tarde conhecimento da Revolução de Fevereiro, é ele quem vê chegada a hora do agora ou nunca. Vê para além da teoria marxista estabelecida e dos estádios económico-sociais que a revolução é possível e que é preciso saber agarrar a oportunidade histórica. E sabe que, para agarrar essa oportunidade, vale mais conhecer bem Maquiavel e Clauzewitz do que Fourier, Marx ou Plekhanov, ou os socialistas, os intelectuais ou os economicistas europeus.

Faz uma aliança objectiva através do misterioso “Parvus” com o governo alemão, que quer a Rússia fora da guerra e que o usa como instrumento. E segue para Petrogrado, no famoso comboio da Finlândia. Ali, os bolcheviques, sempre minoritários, sempre batendo-se em todas as frentes – contra os socialistas revolucionários e contra os contra-revolucionários de Kornilov –, não perdem tempo nem conhecem barreiras.

E é Lenine quem decide a estratégia política e comanda a execução táctica; e depois do indeciso Kerensky se ter enganado sobre o inimigo principal, é também ele quem dá o golpe de Outubro.

Golpe genial, de instinto, de sorte. Mais tarde, o mestre Eisenstein realizará para a propaganda Outubro, a gloriosa versão oficial; e o inglês John Reed escreverá os Dez dias que abalaram o mundo. Lenine tem coisas de Robespierre, e os bolcheviques, que são grandes admiradores dos jacobinos, seguem os franceses radicais na ideia de que a violência e o terror são armas absolutamente indispensáveis na revolução. Lenine não dirige directamente os tchekistas de Djerzinsky mas deixa que o façam por ele e não dá nunca um passo para os parar. Desde o massacre da família imperial – com criados, médico, cães – até ao esmagamento dos desvios “à esquerda” dos marinheiros de Kronstadt. E escreve dezenas de textos a fundamentar e justificar a violência contra todos os “inimigos da classe”, contra os quais devia fazer-se o que fosse necessário, incluindo assassiná-los e às famílias.

A esquerda gramsciana – e Gramsci tem artigos na época a defender Lenine e o seu sentido “anti-marxista” ou pelo menos “transmarxista” no golpe de Outubro –, criou a ideia de um Lenine moderado, lúcido, equilibrado que, se durasse mais uma década, teria tornado dispensável o terror, associado exclusivamente a Estaline depois da morte de Kirov. O comunismo leninista seria “bom”, mas um homem mau, intrinsecamente perverso, Estaline, esse sim um “déspota oriental”, destruíra o belo sonho e o magnânimo edifício revolucionário.

Para Lenine, a violência tchequista era uma expressão genuína e necessária da ditadura do proletariado, já que “não havia maneira de libertar as massas senão suprimindo os exploradores pela força”. E apesar de, na teoria marxista pura, as classes em luta serem só duas – a burguesia e o proletariado –, a odiada classe média, a “pequena burguesia”, devia ser também suprimida de passagem, até porque, como não tinha existência teórica, convinha que a realidade validasse a teoria.

Seria inútil dar aqui exemplos das centenas de textos teóricos e históricos e de decisões práticas de comissários soviéticos que ordenam acções e campanhas de terror contra grupos sociais específicos – que vão da aristocracia aos milhões de camponeses que não alinharam com os bolcheviques.

Trotsky foi particularmente eficaz em conseguir a colaboração no terror dos quadros militares profissionais, usando as suas famílias como reféns. Execuções sumárias, liquidações por categorias sociais ou religiosas, formas de genocídio de grupos designados como inimigos da Revolução, campos de concentração, a exaltação do tchequista-chefe, Felix Dzerzhinsky, como grande herói do socialismo e “guerreiro de aço do novo partido”, tudo isto foi concebido, autorizado, executado por Lenine. Que não seria um sádico nem um imbecil, mas que não hesitava nas maiores brutalidades desde que a razão da História e do Partido o justificassem.

Perante Lenine, a revolução, a guerra civil, a violenta conquista do poder na Rússia e as tentativas frustradas de assalto ao Estado pelos comunistas na Hungria, na Alemanha e na Itália, as classes conservadoras e as nascentes classes médias europeias não tiveram dúvidas; e com medo que lhes sucedesse o mesmo que sucedera aos russos, e dado o colapso do Estado Liberal, vão apoiar soluções “fortes”. Primeiro em Itália, em Outubro de 1922, com Mussolini, um ex-socialista radical; depois em pronunciamentos militares, como o do general Miguel Primo de Rivera e o 28 de Maio de 1926 em Portugal; e por fim, em Janeiro de 1933, com a nomeação de Hitler para Chanceler de Reich por Hindenburgo. Graças a Lenine, instalava-se na Europa o ciclo dos totalitarismos e dos autoritarismos.