1 O aparecimento e uso da farda remonta a tempos longínquos (séc XV) e o seu fundamento começou por ser essencialmente de natureza prática: os guerreiros de um mesmo exército não se podiam confundir com os inimigos no campo de batalha; símbolos específicos, vestes diferenciadas, acessórios, cores… eram então usados para diferenciar grupos, exércitos, combatentes, aliados. Ao longo dos tempos, contudo, as fardas evoluíram para além da mera identificação imediata refletindo, gradualmente, hierarquias, prestígio, identidade, tradição, cultura, modas, padrões, tendências. No movimento escutista a farda, e toda a sua tradição e simbolismo inerente, carrega uma forte componente histórica e cultural, contribuindo de forma muito significativa para a missão e para o ideal comum que todos os escuteiros voluntariamente abraçam. Ordem, disciplina e sentimento de pertença são igualmente factores estruturantes associados ao uso da farda escutista.

2 A forma como os uniformes se vão alterando ao longo dos tempos é, então, muito mais que uma mera questão de modas e tendências, de mais ou menos acessórios, de mais ou menos cores e padrões. É sobretudo um sinal forte, uma expressão, um retrato fiel da instituição que representam, reflectindo o respeito e consideração pelo seu legado histórico, pelo sentido de compromisso com os seus valores mais estruturantes, pela fidelidade à missão vertebradora que lhe dá sentido e razão de ser. Em tempos de propostas, projectos, sugestões… para modificar o uniforme escutista segue-se um conjunto de reflexões com o objectivo de contribuir construtivamente para o debate público, de momento em curso para o efeito.

3 O que é que a farda escutista NÃO É?

  • A farda não é o somatório de alguns pedaços de tecidos inertes, linhas e padrões, mais ou menos práticos e funcionais; não é uma mera colecção de “coisas” materiais, acessórios, insígnias e distintivos que faz sobrepor a aparência àquilo que é essencial;
  • A farda não é um mero detalhe visual comum, que nos identifica mais facilmente e nos permite dizer que somos todos iguais; aliás, somos todos diferentes; podemos (e devemos) é dizer que somos todos irmãos, o que é algo totalmente diferente;
  • A farda não é um mero adereço, não é elemento de vaidade, privilégio, status paroquial, ou de qualquer tipo de arrogância tribalista;
  • A farda não é um mecanismo de controlo que visa impedir os escutas de expressar a sua identidade e originalidade próprias; nem tão pouco uma forma enviesada de relacionamento interpessoal, ou de qualquer tipo de adesão a uma sociedade cada vez mais materialista, hedonista na qual a aparência é o mais importante;
  • A farda não é um instrumento de identidade cultural distintiva que tem um efeito de exclusão, de segregação, de afastamento;
  • A farda não é uma forma de lealdade a tradições próprias com o intuito subtil de qualquer tipo de supremacia cultural.

4 O que é que a farda escutista É?

  • A farda tem um valor simbólico raro; os escutas têm o maior orgulho na sua farda, transmitido de geração em geração. Ao vestir a farda, o escuteiro representa o movimento no seu conjunto, tornando-o visível na comunidade. Ele é factor de coesão, de união e identidade de grupo, tornando os escuteiros facilmente reconhecíveis como membros de uma mesma fraternidade local, nacional e mundial;
  • A farda, com as suas insígnias e distintivos, evoca memórias de aventuras partilhadas, acampamentos, raides, noites de campo, jogos nocturnos, fogueiras, canções, tendas, estrelas e amizades, reforçando os laços entre os escutas;
  • A farda tem vida própria; ela é “impregnada” de memórias, de sonhos, lágrimas e conquistas; de responsabilidade e sentido de compromisso, de sentimento de pertença, alegria especial, coragem, vontade de superação e comunhão;
  • A farda assume uma característica quase mágica; quando a olhamos pendurada no quarto sentimos que ela é capaz de carregar e abraçar o nosso corpo, as nossas memórias, a nossa origem, a família, de onde vimos, o que nos move, e de todos os momentos inesquecíveis que vivemos; ela recebe-nos e sustém o nosso ideal, o nosso suor, o nosso esforço, as nossas lágrimas. A nossa farda incorpora tudo isto, intacto, depositado, abençoado, inesquecível; ela é por isso, depositária de referências, segredos, anseios, expectativas, memórias, luz, fé, Deus;
  • Ao vestir a MESMA FARDA, o escuta sente-se parte de algo que o ultrapassa, que o transcende; sente-se parte de algo maior do que ele próprio;
  • A farda é algo central na experiência vital do escuta; ela reveste o nosso corpo sendo quase como uma “segunda pele”; ela têm vida, alma e memória; ela transporta  a história de milhares de escutas que se dedicaram em prol de um ideal comum.
  • Quando vestimos a farda estamos a dizer que — eu não sou o centro do mundo, estamos a dizer que pertencemos a um corpo; não somos autossuficientes, individualistas; estamos a dizer que aceitamos o legado, a tradição, a experiência, o testemunho daqueles que nos precederam;
  • Quando vestimos a farda podemos dizer que já não vale tudo; significa que eu não sou o dono disto tudo, significa que existe um “nós”;
  • A farda desempenha um papel fundamental no escutismo. A evolução “normal” da farda é aceitável (nalguns aspectos, desejável), mas não podemos correr o risco de a desvirtuar ao ponto da mesma deixar de ser uma farda, um uniforme, algo que nos une, que nos identifica a todos como escuteiros. A farda não poderá nunca, em caso algum, deixar de ser o que significa!

5 Por vezes, a pressão dos novos paradigmas culturais, a pressão dos media, da escola, da cultura, pasme-se, no seio da própria igreja… parece que nos quer transformar, à força, em homens apenas do nosso tempo; em escutas apenas do nosso tempo. Mas não deve ser assim. Nós, escuteiros, somos os herdeiros. Somos escutas do nosso tempo, estamos abertos ao enriquecimento cultural e à defesa do universal, mas somos também herdeiros de um passado, de uma história, de um legado, de uma tradição, de uma igreja, de uma fé. Nesta sociedade cada vez mais secularizada, fragmentada, dessacralizada; num ambiente cada vez mais descristianizado o escutismo traz a possibilidade única com o seu legado, com o seu ideal, com as suas tradições, com os seus símbolos, com a sua fé… de oferecer um modo de vida especial, uma proposta de crescimento comunitário, pessoal, espiritual única e de inabarcável valor.

A farda, e a sua seriedade, integridade, dignidade, é um sinal, uma impressão, um aceno; ela é uma expressão única, e um testemunho luminoso de tudo isto.

Nota: este artigo resulta de uma iniciativa individual e o seu conteúdo não vincula qualquer posição institucional do CNE.