Nos últimos tempos, a discussão sobre a presença de telemóveis nas escolas — sobretudo no 1.º ciclo — tem ocupado o espaço mediático e, na semana passada ficamos a conhecer a intenção do XXV governo constitucional em proibir os telemóveis na escola até ao 6.º ano. No entanto, este foco desvia-nos de questões muito mais profundas e estruturais. Os verdadeiros problemas da escola são outros: a fragilidade da parentalidade, a desautorização do professor, o populismo pedagógico e a ausência de políticas educativas sustentadas.

Comecemos pela parentalidade. O uso de ecrãs como forma de entretenimento passivo tem vindo a substituir o tempo de qualidade entre pais e filhos. A UNESCO, no seu relatório de 2023, alerta para os impactos negativos da exposição precoce e desregulada à tecnologia, nomeadamente em termos de desenvolvimento cognitivo e socio emocional. Quando o ecrã substitui a interação humana, perdemos a oportunidade de formar crianças com empatia, resiliência e autorregulação.1

Ao mesmo tempo, há uma pedagogia implícita — muitas vezes promovida pelos próprios pais — centrada na satisfação imediata do querer da criança, e não na construção do seu futuro. Educa-se, desde cedo, que basta uma birra para obter o que se deseja. Esta cultura da gratificação instantânea e da evitação sistemática da frustração compromete o desenvolvimento da resiliência, da persistência e do sentido de responsabilidade. Como diria o psicólogo Barry Schwartz, crianças educadas desta forma crescem a acreditar que tudo lhes é devido — sem esforço, sem mérito — desde que se mantenham constantemente entretidas2, desresponsabilizadas e sem resiliência necessária à vida em sociedade.

Por outro lado, os professores são frequentemente desautorizados. Pais que contestam qualquer repreensão, que veem um “não”, ou uma orientação corretiva, como uma afronta pessoal ou uma ameaça à autoestima da criança, desconstroem a autoridade educativa. As crianças, como afirma o pedopsiquiatra Pedro Strecht, precisam de adultos que lhes imponham limites com segurança e afetividade3 sem a “tirania das notas” a que tantas vezes alude o psicólogo Eduardo Sá. Sem essa estrutura, a escola torna-se um espaço vulnerável, onde ensinar (e educar) são cada vez mais difíceis.

Acresce ainda o fenómeno dos “especialistas de educação” que, apesar de, muitas vezes, não darem aulas há décadas, opinam com veemência sobre o que os professores devem ou não fazer. Como ironizou o ministro de educação australiano Dan Tehan, “na educação, todos têm uma opinião porque todos andaram na escola”.4  Esta proliferação de opiniões desligadas da realidade do ensino só acrescenta ruído ao debate e retira legitimidade a quem está no terreno. É verdade que, como enfatizam os dados do último PISA 2022, mais de 2h/dia de tecnologia leva ao retrocesso dos resultados dos alunos5. Mas, será o uso por uso da tecnologia ou a desregulação pedagógica da mesma?

Finalmente, temos as políticas educativas. Currículos vagos e sem metas objetivas, avaliações inconsistentes e sucessivas reformas populistas, promotoras de sucesso académico assegurado com ou sem esforço, desenhadas em gabinetes políticos afastam-se das necessidades reais dos alunos, dos professores e da sociedade. O próprio Conselho Nacional de Educação e a OCDE têm alertado repetidamente para a necessidade de estabilidade, exigência, valorização e respeito pelo saber do corpo docente como pilares de uma escola de e com futuro. 6,7

Não nos enganemos: os telemóveis não são o problema. O problema é termos uma escola cada vez mais isolada, desautorizada e deixada à mercê de modas, opiniões e políticas avulsas. Se queremos verdadeiramente defender a escola, temos de começar por protegê-la — não dos telemóveis, mas da erosão silenciosa da sua missão educativa.

1UNESCO 2023 GEM Report: Technology in Education: A Tool on Whose Terms? https://doi.org/10.54676/JKLA7966
2Schwartz, B. (2004). The Paradox of Choice: Why More is Less. Harper Perennial.
3Strecht, P. (2017). A minha escola não é esta. Lisboa: Assírio & Alvim.
4Tehan, D. (2018) Address to the 2018 Australian Council for Educational Leaders (ACEL) National Conference. Mlebourne.
5Marôco, J. (2024). Conectados ou desconectados? O impacto dos dispositivos digitais no desempenho académico e bem-estar dos estudantes. Lisboa: Iniciativa Educação.
5Conselho Nacional de Educação (2022). Estado da Educação 2021. Lisboa: CNE6OECD (2020). TALIS 2018 Results: Teachers and School Leaders as lifelong learners. Paris: OECD