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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de relações e casamento. Olá, Eduardo. O Eduardo escreveu que duas pessoas, quando se afastam por dentro, até conviverem mal se conheciam. Quer dizer que o casamento revela o desconhecimento, em vez de criar aproximação?
Olá, Judite. Quer dizer que nós precisamos de muito tempo para conhecer outra pessoa. E quando decidimos ficar numa relação, claro que o fazemos em função daquilo que conhecemos dessa pessoa, mas talvez conviver com ela continuadamente nos ajude a conhecê-la melhor. Talvez conviver com a família dela também nos ajude a conhecê-la melhor. Talvez conviver com os sobressaltos e as novidades que a vida nos traz nos ajude a conhecê-la melhor. Às vezes, as pessoas vão ficando um pouquinho mais afastadas uma da outra, porque se vão conhecendo melhor e, se calhar, vão falando muito pouco disso, Judite. E à medida que se vão conhecendo melhor, nem sempre gostam daquilo que descobrem ou daquilo que veem. Quando dão conta, hoje afastam-se um pouquinho, amanhã outro e, surpresa das surpresas, às vezes afastam-se muito mais do que elas alguma vez imaginariam que acontecesse. Não é um drama, é a consciência de que nunca conhecemos completamente uma pessoa. Isso não é um drama, é um desafio. O escorregadio é imaginarmos que a conhecemos tão bem, que já nem precisamos ter curiosidade ou já nem sequer precisamos de perguntar mais vezes o que é um espacinho mais obscuro ou um cantinho que de repente nos surpreendeu e que até aí era supostamente mais ou menos desconhecido de nós.
Fala numa sequência que muita gente assume como natural: paixão, carinho, amizade e, por fim, resignação.
É verdade.
A resignação não nos parece um destino normal. Não devia ser um sinal de alarme?
Judite, mas eu também acho que a amizade talvez não seja. Eu percebo o que as pessoas dizem. Às vezes as pessoas nos seus comentários, no dia a dia, costumam dizer: "Caramba, também estávamos à espera de quê? Eu já estou com esta pessoa há 20 anos", como quem diz: "Eu habituei-me a ela, mas já não tenho uma relação tão impactante com ela como gostaria de ter". E eu não estou a querer pôr pó de arroz nas coisas, mas por que uma relação amorosa tem que evoluir invariavelmente para a amizade? Por que não pode ser muito mais do que isso? Claro que lá acaba a amizade, claro que lá acaba o carinho, mas também são precisos ingredientes secretos que façam com que nós, quando olhamos para aquela pessoa à data de hoje, sejamos capazes de dizer: "Eu gostei muito daquela pessoa há não sei quanto tempo. Surpreendentemente, eu agora sou capaz de gostar um pouquinho mais dela do que gostava". E não estamos falando de coisas hipotéticas. Também existem estas relações e certamente que estas relações serão um pouquinho mais saudáveis, digo eu, do que as outras em que nós vamos ficando por uma amizade e a certa altura vamos ficando numa atmosfera mais ou menos solitária em presença de outra pessoa. É aquilo que alguns dizem numa síntese que eu acho muito clara, mas muito dura, todavia: somos as pessoas mais familiares do mundo e, ao mesmo tempo, somos um pouquinho estranhas uma para a outra.
É aí que o silêncio se instala?
Sim, às vezes eu pergunto o que acontece primeiro, se é falarmos e namorarmos a seguir, ou namorarmos e falarmos por causa de namorarmos. Eu acho que nós precisamos falar muito das relações, das coisas que às vezes não vão bem. Às vezes nós falamos da gestão corrente, de uma nota completamente constipada de um dos nossos filhos, de um episódio de trabalho que nos magoou ou pelo menos nos incomoda. Às vezes, de uma patetice de um dos pais das pessoas da relação e, portanto, um ressentimentozinho que não se resolve. Judite, mas às vezes nós falamos pouco de outras coisas, da forma como não temos todo o mimo que precisamos, o modo como às vezes perdemos admiração por aquela pessoa e o que nós queremos mais muitas vezes é isso. Às vezes até a forma como nos sentimos um pouquinho descuidados. E quando nós deixamos de falar dessas coisas, esses silêncios Ós Ditos, são uma força que arrasta e que faz com que, de silêncio em silêncio, as pessoas vão deixando de falar daquilo que é o mais importante nas relações delas e, portanto, em consequência disso, deixam de falar, deixam de namorar. E isso a mim preocupa-me muito, porque eu acho que todos nós queremos muito namorar. Não é no sentido idealizado do termo. É no sentido de termos alguém cúmplice, que seja capaz de nos ler por dentro, que seja capaz de nos dar colo também, porque isso é absolutamente insubstituível numa relação. E às vezes nós vamos ficando com a amizade, porque vamos perdendo hoje um bocadinho de colo, amanhã mais 200 gramas de colo, depois mais 500. E quando damos por conta, já não nos lembramos muito bem da última vez em que tivemos genuinamente colo. Isso faz toda a diferença.
E é por isso que os casamentos estragam, por falta de colo.
Ós Ditos, eu acho que sim, porque nós depositamos expectativas num casamento que não depositamos em mais nenhuma relação. E, portanto, claro que são expectativas que não são exageradas, mas ós Ditos, claro que são exigentes, mal seria que não fossem exigentes, porque um casamento não é uma relação qualquer. E, portanto, quando nós vamos deixando de dizer aquilo que sentimos, porque a outra pessoa, no final de contas, não percebe, ou quando vamos encolhendo os ombros e achamos que é uma espécie de fatalidade as relações evoluírem para uma amizade, às vezes, distante, às vezes um bocadinho mais próxima, nós estamos a assumir que o colo passou a ser uma espécie de miragem, e isto é grave. E eu não me canso de chamar a atenção que as crianças pequeninas, quando pedem colo, nunca pedem colo. Exigem colo. Dão-nos um safanão nas calças e dizem "quero colo" de uma forma que não é imperativa, mas andam lá um bocadinho perto, esticam os braços e fazem um olhar sedutor, evidentemente, e nós desfazemos ternura e dizemos: "Ele quer colo". Não, ele exige colo. Eu acho que, em relação às pessoas que são muito importantes para nós, nós não podemos estar com cerimônias a pedir colo. Pedir colo e exigir colo um bocadinho a medo. E as pessoas que são assim tão importantes. Também é importante nós assumirmos que exigirmos colo só é possível porque aquela pessoa é tão representativa, que quando nós exigimos colo, exigir colo é um ato de gratidão para com ela, não é nenhuma prepotência, onde é que se viu. E, portanto, sim, as pessoas afastam-se num casamento por falta de colo. É verdade que sim.
Para quem se reconhece nisso, o que é que pode fazer para voltar a ter e a dar colo?
Ora bem, a partir do dia 27 de outubro, começar a exigiu. Ou seja, Ós Ditos, é evidente quando nós escolhemos alguém para que aquela pessoa tenha um lugar ao pé de nós, é claro que não temos a experiência que temos hoje e, portanto, que não temos a mesma capacidade de ler aquela pessoa, ou não tínhamos a mesma capacidade de a ler que hoje somos capazes de ter conquistado. Mas o que eu acho importante é que também tenhamos a humildade de perceber que por mais inexperientes que fôssemos, talvez não tenha sido tão aleatório. Talvez tenha havido um conjunto de razões pelas quais nós dissemos: "Sim, esta pessoa faz sentido na minha vida". E, portanto, se faz sentido ou se fez sentido, pelo menos, eu acho que é importante que nós possamos começar, a partir do dia 27 de outubro, por exigir colo. E exigir colo é falar sério. Falar a sério não é necessariamente fazer uma discussão, mas falar a sério da falta que faz um conjunto de cuidados, um conjunto de gestos de ternura, um ombro onde possamos deitar a cabeça. E quanto mais de colo, de preferência muito, que fazem com que a vida, que às vezes nos traz chatices sobre chatices. De repente, nos ajuda a perceber que as chatices vão continuar lá, mas quando nós temos esse bocadinho de colo, somos capazes de reagir a elas e de as ver, já agora, em perspectiva de um modo completamente diferente e não nos deixarmos engolir por elas, porque às vezes engolimo-nos por elas, por quê? Porque já nos sentimos tão combalidos, às vezes tão desolados, que uma chatice que choca conosco era quase a gota d'água que faltava para nos derrubar. Quando às vezes são estas coisas pequeninas que nos vão derrubando devagarinho, sempre conosco a perceber, sempre conosco a fazer de conta que não se passa nada, sempre conosco a fazer de conta que está tudo bem. E não, nunca está tudo bem, precisamos sempre de mais. Por alguma coisa somos pessoas inteligentes, aliás, e por isso, naturalmente, um bocadinho mais exigentes do que era suposto.
Ficamos com essa receita. A partir de hoje quem não tem colo, tem que o exigir. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Muito fácil, Dita. Até amanhã.