Quando passo por Lisboa gosto de me recolher uns instantes, no Rossio, na igreja de São Domingos, que foi da Ordem à qual pertenço. Ali, junto da sacristia, que sobreviveu aos cataclismos, encontram-se dois túmulos: um deles é o de frei Luís de Granada.
Apesar de todas as destruições e da inclemência dos homens e do tempo, este túmulo no Rossio ergue-se como um baluarte. Apagou-se a sua voz, permaneceu a língua dos seus livros. Estes foram traduzidos e editados em toda a Europa e não só. A difusão dos seus livros foi imensa, inigualável. Em Madrid, a 29 de maio de 2008, ocorreu a sessão solene, na Biblioteca Nacional, de apresentação das suas Obras Completas (51 volumes). Nesse encontro esteve presente uma universitária japonesa, a qual mostrou com orgulho uma cópia duma obra do frei Luís publicada durante a sua vida, no Japão, devido ao empenho dos Jesuítas. Cabe aqui também recordar que em 1582, a chamada Embaixada Tensho, uma delegação de jovens japoneses, foi a primeira missão diplomática do Japão à Europa, com o intuito de estes jovens se encontrarem com o Papa e vários reis europeus. A embaixada iniciou no nosso país o seu roteiro europeu. Este grupo de jovens esteve entre outros locais, em Évora e em Lisboa, onde consta terem-se encontrado com frei Luís de Granada.
Frei Luís de Granada
Nascido em 1504 em Granada, frei Luís, filho de pais originários da Galiza, assistiu naquela cidade ao nascimento dum novo mundo, após a queda do reino muçulmano de Granada, em 1492. Após ter entrado na Ordem dominicana e estudado em Granada, prosseguiu os seus estudos no Estúdio Geral de Valladolid, onde se encontravam os mais dotados de entre os frades dominicanos. Frei Luís viverá mais tarde um período contemplativo na região de Córdoba, no convento de Scala Coeli. Este foi um lugar importante no seu itinerário, contribuindo para preparar várias obras de grande influência espiritual e teológica. Nessa altura, a sua pregação no Sul da Espanha foi marcada pela amizade indefetível com São João de Ávila, aquele que é considerado o apóstolo da Andaluzia.
No final de 1550 ou início de 1551, frei Luís sai da sua Andaluzia natal e cruza a fronteira portuguesa para se estabelecer na cidade de Évora. Esta mudança irá marcar definitivamente o seu percurso, visto que frei Luís permanecerá no território português até à sua morte, em 1588. Sem dúvida ele não era nem o primeiro religioso estrangeiro, nem o primeiro dominicano a fazê-lo. Mas quando aprofundamos o seu itinerário, damo-nos conta de que a sua pregação e os seus escritos irão marcar não só o nosso país, mas também a sua Espanha natal, a Europa e o mundo. Mas qual foi a razão da vinda de frei Luís de Granada para o nosso país?
O Cardeal D. Henrique, que viria a ser rei por pouco tempo
Em 1550, D. Henrique, o cardeal-infante, começou a residir em Évora, na sua diocese, o que era uma novidade, sobretudo para um membro da casa real portuguesa. É um homem ainda jovem, com 38 anos, desejoso de pastorear efetivamente os seus fiéis. O cardeal D. Henrique, de facto, possui um perfil reformador e reformista. Constata a urgência dum reforço naquela diocese de religiosos bem formados. Já outros religiosos castelhanos tinham cruzado a fronteira portuguesa. Frei Juan de Padilha, castelhano, é nessa época o prior provincial dos dominicanos de Portugal. Da mesma forma, frei Francisco de Bobadilha, que é prior do convento dominicano de Lisboa. A assinação – termo jurídico indicativo da mudança dum frade para outro convento – irá transformar-se no caso de frei Luís – numa transfiliação, ou seja, na sua transferência definitiva para a província de Portugal. Isso acontecerá já em 1556, quando frei Luís, ao ser eleito prior provincial da província portuguesa dos dominicanos, é canonicamente transfiliado da província dominicana de Andaluzia para o território lusitano. Isso terá muitas consequências. E Portugal contraiu uma dívida para com frei Luís de Granada, inclusivamente até aos nossos dias.
Em primeiro lugar, frei Luís entra em relação estreita em Évora com a primeira geração jesuíta. Numa carta dirigida a Inácio de Loyola, o jesuíta português Melchior Carneiro sublinhará junto do fundador da Companhia de Jesus, a que ponto frei Luís favoreceu a Companhia e é um grande amigo desta. Isso num período em que a jovem Companhia de Jesus enfrentava uma série de sobressaltos ou de invejas típicas duma nova fundação eclesial. Já nessa altura o jesuíta português dá testemunho de ser frei Luís um «homem de muito espírito». Em 1554, frei Luís publica o seu famoso Livro da Oração. Nos anais da história da Igreja, essa obra vai-se tornar um best-seller da Cristandade. A obra é publicada em Salamanca, mas é a partir de Portugal que a decisão é tomada. É uma obra de grande fôlego. Nesta obra o seu perfil místico revela-se, embora a obra seja proposta para todos os estados de vida, o que provocará no caso de frei Luís e não só, embaraços sérios junto da Inquisição espanhola. Nesta obra ele escreve o seguinte: «Oração é subir a alma em si mesma e sobre toda a criação e juntar-se com Deus e engolfar-se naquele oceano de infinita suavidade e amor». E acrescenta: «De maneira que a oração é uma páscoa da alma, uns deleites e abraços com Deus, um beijo de paz entre o Esposo e a Esposa, um sábado espiritual em que Deus folga com ela e um solar de repouso no monte Líbano, onde o verdadeiro Salomão tem os seus deleites com os filhos dos homens». (Livro da Oração, IIIª parte).
Tendo frei Luís de acompanhar o cardeal D. Henrique em várias das suas deslocações, rapidamente Lisboa será o seu lugar de eleição. A capital será, para o dominicano, um lugar de observação da corte e da sociedade portuguesas. E o granadino não se furtará a descrever as suas observações, particularmente na sua correspondência. O seu olhar é acutilante ao observar as qualidades e os defeitos lusitanos. Seria aqui necessário revisitar a sua correspondência para o demonstrar claramente. Mas será Lisboa igualmente a forja de inúmeras obras de frei Luís.
A rainha D. Catarina, rainha consorte com D. João III
Nessa época, a rainha D. Catarina, regente do Reino, desejava que frei Luís assumisse o Arcebispado de Braga, por este se encontrar vacante. Ela tinha-o em grande estima, assim como Filipe II de Espanha, Iº de Portugal. Frei Luís foi sagaz e não aceitou o cargo. Perante a insistência da rainha, ele propôs em seu lugar frei Bartolomeu dos Mártires, que era professor de teologia no convento da Batalha. E o caso teve os seus laivos de emoção e de nobre obediência. Frei Luís, sendo provincial nessa época, foi à Batalha e fez preceito formal a frei Bartolomeu, e este obedeceu humildemente. Frei Bartolomeu recebeu a ordenação episcopal na igreja de São Domingos de Lisboa a 4 de outubro de 1559, indo de imediato para a diocese de Braga.
O futuro deu razão a frei Luís na forma decidida como agiu: frei Bartolomeu era um excelente teólogo, um homem de oração e de convicções firmes e inabaláveis. A sua presença na terceira e derradeira sessão do concílio de Trento, a amizade forjada durante a sua estadia na Itália, junto do sobrinho do Papa Pio IV, o jovem Carlos Borromeu, marcarão de forma indelével a receção do concílio no nosso país, deixando um rasto marcante na correspondência entre os dois arcebispos.
A relação de frei Luís com a corte portuguesa também é manifesta quando constatamos que foi Dona Catarina de Áustria, que mandou imprimir e custear as despesas do Compêndio de Doutrina Cristã. Esta obra redigida por frei Luís, saiu dos prelos em Lisboa, em 1559, junto dum editor de origem alemã, com méritos reconhecidos. Neste volume ele juntou Treze Sermões, sendo este conjunto a parte portuguesa da obra do dominicano espanhol, o restante e muito substancial, sendo constituído por obras em castelhano e em latim. Os Treze Sermões eram destinados aos párocos, visto que, em muitas igrejas «de diversas partes, onde quase todo o ano não há sermão, nem disposição para que isso aconteça. E assim se encontra a gente rústica e popular quase toda a sua vida sem luz, sem doutrina e sem ouvir a palavra de Deus, que é viver nas trevas e na região da sombra da morte». Assim justifica frei Luís a sua iniciativa catequética e parenética.
Este belo volume em caracteres góticos portugueses, encontra-se quase caído no esquecimento. É, no entanto, uma das joias da literatura espiritual de língua portuguesa. Os sermões, como o dirá frei Álvaro Huerga, o organizador da edição crítica espanhola, são «uma maravilha de unção e uma maravilha de bem dizer». Outros episódios, alguns dramáticos, fazem parte do inventário que carecem também de ser apresentados numa futura intervenção.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]