Todos os anos, quando chegam os meses mais quentes, multiplicam-se os alertas para os efeitos das temperaturas elevadas na população mais vulnerável. Falamos frequentemente dos idosos, dos doentes cardiovasculares ou da população com condições médicas crónicas. No entanto, existe um grupo de doentes para quem o calor representa uma ameaça particularmente séria e muitas vezes subvalorizada: as pessoas que vivem com Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC).

Em Portugal, cerca de 870.000 pessoas vivem com esta doença respiratória crónica – aproximadamente uma em cada sete pessoas com mais de 40 anos -, embora apenas 32,3% tenham diagnóstico confirmado por espirometria.1 A DPOC é a terceira principal causa de morte no mundo.2 Caracterizada por uma limitação persistente da passagem do ar nos pulmões, provoca sintomas como falta de ar, tosse crónica e produção de expetoração, condicionando significativamente a qualidade de vida dos doentes.2

Embora muitos associem o agravamento das doenças respiratórias ao inverno, a verdade é que o verão também traz desafios importantes. As temperaturas elevadas obrigam o organismo a realizar um esforço adicional para regular a temperatura corporal, aumentando a frequência cardíaca e respiratória. Para uma pessoa com uma função pulmonar já comprometida, esta exigência extra pode traduzir-se num agravamento da dispneia (dificuldade em respirar) e numa maior dificuldade em realizar tarefas simples do dia a dia.

Mas o problema não se resume ao calor. Em Portugal, as ondas de calor podem coincidir com episódios de poeiras provenientes do Norte de África, que aumentam a concentração de partículas em suspensão no ar.3 A isto junta-se o agravamento da poluição atmosférica, nomeadamente dos níveis de ozono troposférico: os episódios de concentrações elevadas ocorrem sobretudo no verão, em dias de forte radiação solar e temperaturas elevadas, e podem reduzir a função pulmonar e aumentar os sintomas respiratórios em pessoas que já apresentam problemas deste foro.4 O resultado é um ambiente particularmente agressivo para pulmões já fragilizados.

A evidência científica é, cada vez mais, clara. Uma revisão sistemática e meta-análise de 25 estudos observacionais concluiu que o calor extremo aumenta o risco de morbimortalidade associada à DPOC e identificou as pessoas mais velhas entre os grupos particularmente vulneráveis.5 Uma revisão recente confirma a relação entre temperaturas extremas, morbilidade e mortalidade por DPOC, bem como a interação com outros fatores ambientais.6 À medida que as alterações climáticas tornam estes episódios mais frequentes e intensos, cresce a necessidade de respostas preventivas adaptadas.

Perante este cenário, a prevenção assume um papel central. Evitar a exposição ao calor nas horas de maior intensidade, manter uma hidratação adequada, acompanhar os índices de qualidade do ar e cumprir rigorosamente a terapêutica prescrita são medidas fundamentais para reduzir o risco de descompensação. Igualmente importante é reconhecer precocemente sinais de agravamento, como um aumento súbito da falta de ar ou alterações na expetoração, procurando assistência médica sem demora.

No entanto, proteger os doentes com DPOC não pode ser apenas uma responsabilidade individual. Em Portugal, o reduzido número de diagnósticos confirmados por espirometria evidencia um subdiagnóstico significativo, o que significa que muitas pessoas podem conviver diariamente com a doença sem acesso ao acompanhamento adequado.1 Por outro lado, os avanços terapêuticos dos últimos anos, incluindo novas opções para doentes com perfis específicos da doença, reforçam a importância de garantir acesso atempado à inovação e aos cuidados especializados.

Num contexto em que as alterações climáticas já fazem parte da nossa realidade, a saúde respiratória deve ser encarada como uma prioridade de saúde pública. Precisamos de mais literacia, mais diagnóstico precoce, melhores sistemas de alerta para grupos vulneráveis e acesso equitativo aos tratamentos disponíveis.

Neste verão, o desafio é coletivo: cidadãos, profissionais de saúde, decisores políticos e instituições devem unir esforços para garantir que nenhum doente com DPOC enfrente sozinho os efeitos do calor extremo. Porque proteger os pulmões dos portugueses é também preparar o país para os desafios climáticos do futuro.

Referências:
EPICOPD. Dados de prevalência, subdiagnóstico, impacto e custos da DPOC em Portugal. Consultado em 2026. Disponível em: https://epicopd.pt/
World Health Organization. Chronic obstructive pulmonary disease (COPD). Fact sheet, 10 de junho de 2026. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/chronic-obstructive-pulmonary-disease-(copd)
Agência Portuguesa do Ambiente. Por um país com bom ar: partículas em suspensão, transporte de poeiras do Saara e qualidade do ar em Portugal. Disponível em: https://por1bom-ar.apambiente.pt/
Agência Portuguesa do Ambiente. Ozono (O3): informação sobre formação de ozono troposférico no verão e efeitos na saúde respiratória. Disponível em: https://apambiente.pt/ar-e-ruido/ozono-o3
Tran HM, et al. “Extreme temperature increases the risk of COPD morbimortality: a systematic review and meta-analysis”. Science of the Total Environment. 2025;958:178087. doi: 10.1016/j.scitotenv.2024.178087. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2024.178087
Xu J, et al. “COPD risk due to extreme temperature exposure: combining epidemiological evidence with pathophysiological mechanisms”. eBioMedicine. 2025;116:105731. doi: 10.1016/j.ebiom.2025.105731. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.ebiom.2025.105731