Sabem o número de contribuinte. A matrícula do carro. Provavelmente, a palavra-passe do telemóvel. Mas, se eu vos perguntar qual é a vossa tensão arterial, o vosso colesterol e a vossa glicemia, os três números que mais determinam se vão sofrer um enfarte, um AVC ou morrer de causa cardiovascular, a maioria não sabe responder. E não é por descuido. É porque o sistema de saúde ainda não está a conseguir ir ao encontro das pessoas antes de elas adoecerem.

Este é o paradoxo que define a saúde cardiovascular em Portugal. Do lado do tratamento, temos razões para nos orgulhar: nas últimas três décadas, a mortalidade por enfarte agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral caiu de forma dramática. Construímos redes de intervenção imediata que funcionam; aprendemos a intervir mais depressa e a tratar melhor. Mas a doença cardiovascular continua a ser a nossa principal causa de morte: cerca de 30 000 vidas perdidas só no ano de 2024. Estima-se que oito em cada dez dessas mortes prematuras seriam evitáveis através de alterações no comportamento e tratamento adequado dos fatores de risco, como o tabagismo, a diabetes, a obesidade e o sedentarismo, o colesterol elevado e a hipertensão. Não são apenas teoricamente evitáveis. São evitáveis com o conhecimento e as ferramentas que já temos. O que falha não é o conhecimento médico, é o momento e o lugar em que chegamos às pessoas.

A hipertensão é silenciosa. O colesterol elevado não dói. A diabetes tipo 2 instala-se sem avisar. São doenças que se acumulam ao longo de anos, na sombra, sem sintomas que alertem para procurar um médico, até ao dia em que se apresentam como enfarte ou AVC: muitas vezes sem aviso prévio, muitas vezes sem segunda oportunidade. E enquanto esperamos que os cidadãos procurem o sistema de saúde, metade dos adultos hipertensos em Portugal continua a desconhecer o diagnóstico.

Esta semana, a Comissão Europeia lança a primeira EU Screening Week, uma mobilização simultânea em todos os Estados-Membros, sob o lema «Know Your Numbers», para que cada cidadão europeu tenha a oportunidade de mudar a sua história. A ideia é simples: durante uma semana, realizar uma campanha global que promova a medição da tensão arterial, do colesterol e da glicemia. Três números. Uma ação. Potencialmente, uma vida salva. A Sociedade Portuguesa de Cardiologia coordena a resposta nacional e, em parceria com várias entidades como farmácias, serviços de cardiologia e municípios, leva o rastreio cardiovascular à rua. O objetivo é rastrear entre 2.500 e 3.000 pessoas em seis dias. Não como um evento, mas como uma demonstração do que é possível fazer quando o sistema vai ao encontro das pessoas, em vez de esperar por elas.

A prevenção cardiovascular não pode continuar a depender de quem vai ao médico. Tem de chegar a quem não vai, e isso significa levá-la às ruas, às escolas, aos locais de trabalho e às farmácias, onde as pessoas realmente vivem. Nas escolas, onde os hábitos se formam e onde uma criança pode ser o agente de rastreio que leva para casa o desafio de medir a tensão arterial dos pais. Nos locais de trabalho, onde os adultos cujas mortes podemos ainda prevenir passam grande parte do seu tempo. Nas farmácias, que são, para muitos, o único ponto de contacto regular com o sistema de saúde. E tem de chegar, com particular determinação, às comunidades mais vulneráveis. Porque o código postal de uma pessoa continua a ser, em Portugal e no mundo, um dos maiores preditores do seu risco cardiovascular. Uma estratégia de prevenção que ignore as desigualdades no acesso falha àqueles que mais precisam de ser protegidos.

O que nos falta não é evidência científica nem instrumentos europeus. O que nos falta é a decisão política de criar um Programa Nacional de Saúde Cardiovascular, com financiamento, metas e prazos definidos, tal como foi feito para o cancro, com resultados que o país inteiro possa conhecer e avaliar. Um programa que trate a prevenção como o investimento mais custo-efetivo que existe em saúde, e não como uma linha orçamental residual. Que garanta que o rastreio da tensão arterial, do colesterol e da glicemia se torne um ato tão rotineiro como qualquer outro cuidado de saúde básico, mesmo nos adultos jovens. Que assegure que a reabilitação, hoje inacessível à maioria dos doentes após um enfarte ou AVC (cobertura de apenas 10% e 30%, respetivamente, segundo dados de 2024), chega a quem dela precisa, independentemente do local onde vive.

Escrevo hoje não apenas como presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, mas como médica que conhece o custo de chegar tarde. Cuidar do coração dos portugueses é cuidar do futuro do país, e esse cuidado começa muito antes do hospital. Começa onde as pessoas vivem, trabalham, estudam e circulam. Começa por ir ao encontro delas. Começa hoje.