Estamos a viver uma época de grandes desafios para a Humanidade. As novas tecnologias e a Inteligência Artificial — com computadores quânticos, robôs altamente sofisticados, impressoras de ADN — estão a ter um impacto exponencial e profundo no mundo e na forma como vivemos que, na opinião de muitos investigadores, suplanta o trazido pela Revolução Industrial. Este progresso acarreta enormes benefícios como a descoberta da cura para várias doenças através dos avanços na biotecnologia, a produção de energia mais barata e limpa, o desenvolvimento de uma agricultura mais sustentável e saudável, a produção de algas que extraem carbono da atmosfera e um conhecimento mais vasto dos segredos do Universo, mas também faz-se acompanhar de vários perigos que importa conhecer para desenvolver respostas adequadas. Com a IA podemos alterar o código genético dos seres vivos, editando genes quase como texto (na China, em 2018, nasceram as primeiras crianças com genomas editados) e produzindo bactérias em computador, conceber sistemas que escapam ao nosso controlo e ficar à mercê de algoritmos que não compreendemos, diz-nos Mustafa Suleyman, um dos maiores especialistas em inteligência artificial e vice-presidente da gestão de produtos e políticas de IA na Google. Hoje é possível comprar um sintetizador de ADN de bancada por 25 mil euros e usar como se quiser, sem restrições nem controlo, em casa, na biogaragem. No futuro, a IA poderá dominar, deixando aos humanos apenas a supervisão, enquanto o seu desenvolvimento descontrolado e sem regulação central aumenta os riscos de uso indevido.
Para enfrentar estes desafios da “próxima vaga” é preciso preparar as novas gerações. É urgente apetrechá-las de pensamento reflexivo e crítico para que sejam mais proativas e responsáveis quanto ao curso do seu devir, exigindo dos Estados que as governam garantias de paz, segurança e equidade, só possíveis através da criação de mecanismos de contenção e regulação da nova onda tecnológica.
Por isso, é urgente contrariar a tendência global de estagnação ou recuo dos níveis de educação, do défice dos índices de confiança das populações nas democracias em geral, que vem sendo acompanhado pela afirmação dos nacionalismos e autoritarismos, alimentadoras de ondas de populismo. É preciso enfrentar eficazmente as desigualdades sociais que, também, se vêm avolumando.
No cenário atual, o ritmo acelerado e o excesso de estímulos digitais — seja através das redes sociais, videojogos ou outros ecrãs — têm um impacto nocivo na formação destas novas gerações. A busca frenética por novidades e entretenimento instantâneo, bem como a desinformação reduz o tempo de reflexão e introspeção, elementos essenciais para o desenvolvimento do pensamento crítico. O “tempo lento”, necessário para compreender o curso da História, o rumo que ele está a tomar e nos empurra constantemente para um futuro incerto, cedeu lugar a uma cultura de superficialidade e consumo rápido de (des)informação, que distorce o discurso democrático e a confiança nas instituições e na segurança pública.
O estímulo constante dos ecrãs impede que os jovens experimentem o silêncio, a solidão criativa e a reflexão profunda. Em vez disso, estão presos a uma catarata de imagens, sons e interações instantâneas que os distanciam de si mesmos e da realidade circundante. A tecnologia oferece avanços, mas também nos cobra um preço elevado: o risco de perdermos a conexão com o que realmente nos define enquanto seres humanos.
O neurocientista Michel Desmurget, autor do livro A Fábrica de Cretinos Digitais, que recebeu o prémio Femina de Ensaio em França, alerta-nos para esses perigos. Nas suas palavras: O smartphone segue-nos para todo o lado, sem dó nem piedade. É o Santo Graal dos sugadores de cérebro, o derradeiro cavalo de Troia da nossa descerebração. Quanto mais “inteligentes” se tornam as aplicações, mais substituem o nosso pensamento e mais nos permitem tornar-nos idiotas. Já escolhem os nossos restaurantes, ordenam-nos as informações de que dispomos, selecionam os anúncios que nos são enviados, determinam as rotas que devemos seguir, domesticam-nos os filhos a partir do jardim de infância etc. Mais um esforço e, realmente, acabarão por pensar por nós.
Em oposição a esta dependência dos ecrãs, o livro emerge como um símbolo do tempo lento e da reflexão. A leitura não é apenas um ato de adquirir conhecimento, mas uma forma de mergulhar na História, compreender outras narrativas e perspetivas e explorar as profundezas do espírito humano. Ao ler, somos convidados a desacelerar, a refletir e nos conectar com uma riqueza de ideias que transcendem o momento presente.
A educação tem aqui um papel crucial. Se as escolas e instituições de ensino derem prioridade à leitura e à valorização da tradição cultural, ajudarão a formar cidadãos mais conscientes, críticos e ligados ao seu próprio ser e à sua História. A educação deve ensinar os jovens a encontrar o equilíbrio no uso da tecnologia, a navegar no passado para entender e problematizar o presente e construir um futuro sustentável para todos. Apenas, assim, poderemos construir uma sociedade que valorize não só o progresso tecnológico, mas também a sabedoria, a empatia e a consciência de si. O famoso psiquiatra Carl Jung já alertava para a perda da relação com as raízes e para o “espírito de gravidade” que escraviza o indivíduo quando este se torna parte de uma massa. Hoje, vemos este espírito manifestar-se no comportamento dos jovens que, muitas vezes, se submetem às normas e pressões das redes sociais, perdendo autonomia e autenticidade. Também será importante recordar as palavras de Ray Bradbury, o visionário autor de Fahrenheit 451: Não é preciso queimar livros para destruir uma cultura. Basta que as pessoas deixem de os ler.
É animada por estas causas tão preciosas – o livro, a cultura e a educação, bem como o sentido de comunidade e partilha — que oriento a minha atividade profissional. Coordenar as Jornadas Pedagógicas de História Local – Barreiro: passado, presente e futuro com colegas de todo o concelho, alunos, famílias, autarquia, técnicos de museus e arquivos é lembrar e reinventar a nossa identidade barreirense. Incentivar à leitura através do projeto Ler mais, melhor e com prazer, que envolve a partilha de livros entre os membros da comunidade escolar e enfatiza a leitura por prazer. Promover, com todos estes parceiros, concursos de escrita criativa associados à nossa História local e a publicação de um livro com os contos premiados; “Tertúlias no Convento da Verderena”; “Conferências do Casino Casquilhense”; “Olimpíadas da História”; o “Barreiro em curtas”, educando para o cinema documental; o “VULTOS juvenil”, biografando personalidades do Barreiro, e os “Percursos no Tempo”, roteiros histórico-culturais preparados e guiados pelos alunos ao património local e regional para colegas de outros cursos ou ciclos de ensino; a “Arte de Entrevistar” preparada e dirigida pelos alunos a personalidades ligadas a diversas áreas da cultura são iniciativas que me dão motivos de grande regozijo. Dignificam a nossa Terra, a sua História e dignificam-nos como seres humanos, criadores de cultura, capazes de nos aperfeiçoar e desafiar com os olhos postos no presente e no futuro e o coração animado pelas vidas, palavras, sons, exemplos apaixonantes do passado!
Helena Sardinha Pereira é professora de História na Escola Secundária de Casquilhos, Barreiro, vencedora da “Menção Honrosa Acesso à Cultura” do Global Teacher Prize Portugal 2024 e “Medalha Barreiro Reconhecido 2024” atribuída pela Câmara Municipal do Barreiro.