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O que se passou no Congresso do Partido Pessoas Animais e Natureza no fim-de-semana passado levantou a ponta do véu sobre o que este partido na verdade representa, até mesmo para aqueles que são mais distraídos.

Durante toda a cobertura mediática do seu VIII Congresso – o primeiro de sempre a abrir as portas à comunicação social depois de um passado imerso em secretismo – assistimos aos tiques ditatoriais tão embrenhados neste pequeno partido que continua a tentar enganar os menos atentos agitando causas da moda, mas que depois não é capaz de disfarçar a sua essência anti-democrática ao tentar impor a lei da rolha aos seus militantes e ao tentar impor as suas visões aos portugueses, desde que se sentou pela primeira vez no Parlamento português. É caso para dizer que depois do que se viu neste passado fim-de-semana quem se meter, até mesmo internamente, com o PAN… leva.

Mas não foi só a censura do PAN que ficou a descoberto. Ficamos também todos a saber que o PAN, que tanto se vangloria de ser diferente, tem uma teia familiar, cada vez mais forte e alargada, a controlar o partido. E é essa teia que agora terá o poder para expulsar quem ousar contrariar a dita união familiar.

O ponto alto, porém, foi a revelação do plano do PAN para os animais de companhia da nossa sociedade. Nada mais nada menos do que a sua extinção! Sim, leu bem. É esse o plano do partido que faz das causas dos animais de companhia as suas bandeiras e que tanto gosta de os humanizar. E que agora vem propor a esterilização massiva de cães e gatos na sociedade portuguesa. E porquê?

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É óbvio que estamos todos de acordo de que é imperativo travar o flagelo do abandono animal. E nesse sentido, a esterilização dos animais errantes é não só uma tarefa fundamental, como uma obrigação do Estado e das autarquias. Por outro lado, o fim dos canis de abate, medida com a qual por princípio concordo, mas que foi posta em prática sem qualquer preparação prévia ou condições para tal, traduziu-se num aumento exponencial dos animais nos canis. E pronto, por proposta do PAN, está criada a ideia da esterilização massiva como a única solução possível. Quando na realidade o que tem falhado e sido completamente descurado nos últimos anos é toda uma política de educação e sensibilização da sociedade para esta realidade, bem como o cumprimento e fiscalização das leis vigentes.

Uma vez mais, a reboque de um populismo das redes sociais e do carinho da comunicação social por estas ideias, tenta-se construir um plano a começar pelo telhado, sem a mínima preparação ou construção de bases para que a mesma seja uma real solução, ou com a ingenuidade, ou ideia propositada, de criar danos secundários graves a outras realidades e atividades.

E esses danos graves serão nada mais, nada menos, que o fim da canicultura e da felinicultura, o fim das raças de cães e de gatos. Pois o PAN, tal como as suas congéneres europeias e mundiais, tem na sua génese o fim da domesticação animal, o fim do propósito animal para o homem, seja para companhia, seja para a execução de uma determinada funcionalidade ou propósito.

Ao propor a esterilização massiva de cães e gatos, o PAN sabe bem que está, passo a passo, a conseguir atingir o seu propósito, o de proibir a criação de cães e gatos de raça, proibir a comercialização de cães e gatos de raça, anunciando que com isso se abrem finalmente as portas para as adoções em massa dos animais que se encontram nos abrigos e centros de recolha, e que com isso se trava o “especismo” da mão humana na domesticação de cães e gatos. Mas, e depois?

Depois, e passada uma geração, talvez o problema dos animais errantes tenha diminuído (mas certamente não resolvido), talvez os abrigos e centros de recolha tenham fechado na sua maioria, mas as próximas gerações deixarão ter cães e gatos como animais de companhia e o PAN terá atingido os seus objetivos. Ao obrigar à esterilização massiva de cães e gatos, a canicultura e a felinicultura irão desaparecer. Não serão apenas os “rafeiros”, mas sim os cães e gatos de raça, o apuramento das raças, a diversidade genética, a funcionalidade estará irremediavelmente posta em causa. Esta ideia de extinguir cães e gatos é uma ideia delirante, totalmente irracional e tem que ser denunciada, para que se perceba bem o que é o PAN e ao que vem. Os eleitores do PAN têm consciência disto?

Radicalismos e populismos nunca conduziram a boas soluções. Juntando o ingrediente do animalismo e temos uma receita para o desastre. O PAN não é uma excentricidade de quem gosta de animais, é um projeto político totalitarista desprovido de propostas racionais que a esmagadora maioria dos Portugueses – felizmente – saberá sempre rejeitar.

A sociedade e o poder político precisam de se aperceber da abrangência do que se propõe com estes chavões da “esterilização massiva”, das consequências, da limitação dos direitos e liberdades de uma comunidade que se pretende que viva em democracia, mas onde o voto de  três ou quatro políticos sentados num hemiciclo não pode condicionar atividades ancestrais que conduziram a muitos benefícios da interação da humanidade com os animais e que não podem ser descuradas. Devemos, isso sim, valorizar os cães de intervenções assistidas por animais, os cães de assistência, os cães de biodeteção, os cães de busca e salvamento, os cães de caça, os cães associados a diversos desportos, e isto apenas para realçar alguns dos exemplos. Devemos, isso sim, valorizar o apuramento genético de séculos de trabalho para a diferenciação e optimização de raças que se adequam à companhia e a um sem fim de propósitos que o Homem acarinhou e trabalhou durante milénios! O que não devemos permitir é que estas ideias de esterilizar para extinguir façam caminho, porque esse é um caminho sem futuro, que nada resolve.

Concordamos que queremos, como sociedade, travar e acabar com o problema dos animais errantes? Com o problema do abandono de cães e gatos? Pois bem, certamente que os responsáveis pela canicultura e felinicultura serão os primeiros a trabalhar em conjunto com o Estado e com as autarquias para ajudar a arranjar soluções e serem parte da solução, pois certamente não são parte do problema. A solução para este problema não passa pela ideologia de gosto, pela imposição de proibições, pelo condicionamento de direitos e liberdades, encapotados por ações onde a tal “ponta do véu” é escondida até que seja tarde de mais.

Ao proibir-se, ou condicionar-se, a criação de raças de cães e gatos, a seguir vêm outras proibições e condicionamento, e mais outras, e outras, até que chegará a um ponto em que a sociedade se aperceberá tarde de mais das ilusões que o populismo que tanto tentam combater de uma forma, lhes tenha entrado inesperadamente na sua vida de uma maneira disfarçada, onde a imagem de ter um cão ou gato como animal de companhia será uma recordação de um passado que o radicalismo animalista nos impôs sem que a maioria de nós se venha a aperceber a tempo de o contrariar.