Um dos principais largos de Luanda chamava-se Pedro Alexandrino da Cunha. O topónimo era realçado por um monumento representado por uma estátua de bronze do homenageado. Era a mais antiga da cidade e, em comparação com as que se levantaram pelos anos fora, consideravam-na a mais perfeita de todas. Um primor – das feições do homenageado ao detalhe das dragonas da farda de oficial de Marinha Real que envergava.
A ninguém, tanto quanto Pedro Alexandrino da Cunha, se ficou a dever o fim do tráfico transatlântico de escravos de Angola para o Brasil. Aqueles que na Corte de Lisboa viram nele o homem providencial para finalmente acabar com tão nefanda actividade, devem ter-se sentido eternamente reconfortados por o terem nomeado governador-geral de Angola, em 1845. A missão que então lhe confiaram não podia ter melhor balanço.
Os dez anos que à época já levava de Angola, primeiro como comandante da corveta “Isabel Maria”, para lá despachada em 1835 com a “carta patente” de vigiar e reprimir o tráfico marítimo negreiro, depois como comandante da Estação Naval de Luanda, criada em 1843 para coordenar o combate a tal actividade, tudo isso havia-lhe permitido um raro conhecimento da realidade do tráfico.
O que também devem ter visto nele, foi alguém com apurada consciência de que acabar com o tráfico transatlântico de escravos era não apenas um imperativo moral e político (chegara o momento de pôr termo “àquilo”; era imperativo dar cumprimento à portaria de 1830, que mandava acabar com o tráfico em todas as partes do Reino), como correspondia a uma necessidade vital para o futuro do território.
Angola vivia completamente do tráfico de escravos desde o século XVII – há trezentos anos. O Estado, a economia, o trabalho e a sociedade em geral – tudo estava pensado, organizado e funcionava à volta do tráfico de escravos para o Brasil – negócio em larga escala empregando gente vinda do Brasil. Urgia fazer entrar Angola numa nova era económica, esta virada para a agricultura, as minas, a indústria e o mais. Ainda que os cofres estivessem vazios e fossem parcos os meios.
Não foi a Pedro Alexandrino que coube a “honra” de pregar o último prego no caixão que levou para as profundezas da terra o tráfico transatlântico de escravos. Nem terá sido isso que dele se esperava, tão ingente era a tarefa. Foi a Bapstista de Andrade, outro oficial da Armada, governador-geral na década de sessenta. A tomada militar do Ambriz, em 1855, permitira finalmente ir acabando com os “valhacoutos” de traficantes que por ali ainda existiam.
Mas foi a ele, Pedro Alexandrino, que coube a parte mais custosa do “processo”. Desde enfrentar poderosos interesses instalados (incluindo os dos traficantes e o dos potentados locais com eles mancomunados), descobrir-lhes alianças e ardis e dar-lhes-lhes caça. A Pompílio Pompeu do Carpo, em dado momento presidente do Senado da Câmara de Luanda e senhor de grossa fortuna, mandou prender e expulsar do território.
Diz a história (a escrita, aquela que conta) que Pedro Alexandrino, foi objecto da “mais solemne e honrosa despedida de que há memoria nos annaes da Província” quando num dia de Agosto de 1848 regressou ao Reino, finda a sua comissão de três anos como governador-geral. A subscrição pública à qual se ficaria a dever estátua que dali a alguns anos lhe erguem em Luanda é prova da estima em que o têm. Do mesmo modo que a obstinação daqueles que a todo o custo se opunham à sua inauguração dava conta dos adversários que tinha deixado.
Os que o admiram associam-no a progressos nunca antes vistos. A experimentação ou incremento de novas culturas, entre elas o tabaco, o algodão e o café ou a abertura de minas de ferro e cobre; o lançamento de uma nova moeda (a macuta) e a criação do Boletim Oficial; as estradas mandadas rasgar ou reparar e a inauguração de novas salas de instrução pública.
Reconhecendo-lhe os méritos, a Corte também o prenda com homenagens. D. Maria II nomeia-o para o seu conselho e em 1849 dão-lhe o comando da nau “Vasco da Gama”. Como apogeu da sua vida colonial, esperava-o ainda o governo de Macau, Timor e Solor, em 1850. Vai em substituição de João Ferreira do Amaral, primeiro comandante da Estação Naval de Luanda e às ordens do qual servira.
Não está no cargo muito mais de um mês, surpreendido por morte estranha. Não fora o também estranho sumiço dos seus restos mortais no cemitério do território, chamado de S. Miguel Arcanjo, e uma vez mais a população de Luanda, incluindo muitos filhos da terra, se prestava a homenagear o seu lembrado governador-geral quando a nau que faria o traslado das suas ossadas para o Reino ali aportasse.
O dia 25 de Março de 2026 deve ter sido aquele em que parece ter-se esfumado a memória que Portugal devia guardar do gigantesco esforço com que homens como Pedro Alexandrino da Cunha se lançaram num porfiado combate ao trafico transatlântico de escravos. A consciência universal de que era preciso fazê-lo, nascida na Velha Albion, por sinal a nação a que cabia a principal quota-parte do tráfico transatlântico, tinha finalmente substituído a antiga permissividade.
Aquele dia foi quando o representante de Portugal numa Assembleia Geral da ONU se absteve na votação de uma resolução patrocinada pelo Gana, na qual “o tráfico transatlântico de escravos e a escravização racializada de africanos”, era apresentada como “o mais grave crime cometido pela Humanidade”. Uma simples saída da sala faria mais pela guarda de memórias a que homens como e Pedro Alexandrino da Cunha deviam obrigar Portugal.
A máxima de Ortega y Gasset aplicada a indivíduos, “eu sou eu e a minha circunstância e se não a salvo a ela não me salvo a mim”, é o que diz, também se aplica aos Estados. Acontece quando conveniências políticas ou outras, mas também a ignorância, retiram força ao dever e aos princípios. Deve ter sido o que aconteceu.
Acresce que a resolução, nos termos em que está redigida, omite ou branqueia um outro tráfico de escravos africanos, esse aquele que muito mais tempo durou (diz-se que quase até aos nossos dias), desta feita no outro lado do continente africano. Atravessando o deserto ou levado no bojo de navios que tinham por destino os países árabes. Tidiane N’Diaiye um académico senegalês que estuda o assunto, descreve esse tráfico, no seu livro “Genocídio Ocultado” (Gradiva), como muito mais desumano e volumoso do que o praticado entre os dois lados do Atlântico.
Legenda da foto:
A estátua de Pedro Alexandrino da Cunha, tal como ao longo de mais de um século pôde ser vista no largo de Luanda com o seu nome. Hoje em dia é um dos monos em que a antiga estatuária de Luanda se transformou, posta a um canto da fortaleza de S.Miguel.