O Pedro Nuno acorda cedo, talvez nem durma, talvez passe a noite a revirar-se na cama, a pensar no país, no partido, no destino, na grande obra em que está metido, que começou quando ainda era um rapazinho franzino, meio desgrenhado, a bradar contra os interesses, contra a corrupção, contra os privilégios, contra os ricos, contra os que mandam e que sempre mandaram. Cresceu a repetir-se a si próprio que um dia seria ele a fazer diferente, mas a vida, essa grande professora cínica, ensinou-lhe outra coisa: que não há nada mais confortável do que o que sempre foi.
Abre a janela da casa nova, aquela que comprou por meio milhão e que, por um daqueles milagres fiscais que só acontecem a quem tem o nome certo, paga 143 euros de IMI. Olha para a rua, vê Lisboa lá em baixo, essa Lisboa que lhe pertence sem ele sequer precisar de se mexer, essa Lisboa que lhe paga os subsídios, que lhe garante que pode viver ali e, ao mesmo tempo, receber dinheiro por fingir que não vive. O Pedro Nuno pensa nisto e encolhe os ombros. O que é um subsídio a mais ou a menos? O que são 203 mil euros em deslocações quando se tem um país inteiro a deslocar-se para pagar os vícios de quem manda?
Talvez se lembre do pai. O pai que lhe ensinou que o mundo pertence a quem sabe esperar, que os contratos públicos são como as cerejas: vêm sempre agarrados uns aos outros, que as portas certas se abrem com um sorriso e um cartão do partido no bolso do casaco. Tecmacal, chama-se a empresa. Nome sem sabor, sem cor, sem peso. Tecmacal, que ao longo de 14 anos celebrou 22 contratos com o Estado, 16 deles por ajuste directo. Ajuste directo, expressão bonita, sedosa, que desliza pela língua sem que ninguém repare na dentada que está a dar. O Pedro Nuno leu os números uma vez num jornal e não ficou preocupado. Não precisava. Quem vai querer saber disto?
Na rádio, falam de Montenegro, do escândalo, da queda, do governo desfeito como um castelo de cartas ao vento. Pedro Nuno sorri. Sim, a moralidade interessa, claro que interessa, mas só quando é para os outros. Ele, que sobreviveu à ferrovia, à TAP, às promessas feitas e esquecidas, sabe que a política em Portugal não é uma questão de ética. É uma questão de tempo. É esperar que passe, que a atenção mude, que o próximo escândalo ocupe os jornais.
Veste o fato, ajeita a gravata, olha-se ao espelho. Um homem de Estado. Um homem sério. Um homem que defende os pobres e os injustiçados. Um homem que fala em habitação acessível enquanto dorme na sua casa de meio milhão. Um homem que condena subsídios injustificados enquanto recebe um sem pestanejar. Um homem que exige transparência enquanto os negócios da família florescem à sombra do dinheiro público.
Desce as escadas, sai para a rua, entra no carro. O dia começa e tudo continua exactamente como sempre foi.