O poema “O guardador de rebanhos,” em quarenta e nove partes, é um dos poemas mais conhecidos de Fernando Pessoa (1888-1935). Ao contrário de outros versos de Fernando Pessoa, que passaram à fama por causa das complicações mentais que descrevem e das tonturas que provocam a quem as quer seguir com atenção, “O guardador de rebanhos” parece muito simples. Conta a história de alguém que acha que as complicações mentais não são precisas, e que tudo o que temos são sensações, causadas pelos nossos sentidos. “Pensar,” conclui o protagonista, “é não compreender.”
O título “O guardador de rebanhos” sugere que esse protagonista, que exprime opiniões desfavoráveis sobre complicações mentais, tem uma profissão pastoril. Não foi a primeira vez que se reclamou esta profissão em verso. Estas declarações de actividade não enganam porém nenhum leitor; e aliás não há qualquer motivo para um leitor se enganar: logo no princípio do poema o protagonista diz francamente que nunca guardou rebanhos. Levanta-se assim a questão de saber se não estará a querer dizer uma coisa diferente.
A esperança de que guardar rebanhos queira dizer qualquer outra coisa é no entanto incerta. Logo a seguir a dizer que nunca guardou rebanhos, o pastor admite que “é como se os guardasse.” A razão parece ser porque “Minha alma é como um pastor.” Se alguém tem alma de pastor é provável que, independentemente da sua experiência, seja uma espécie de pastor: mas que espécie? O leitor de Fernando Pessoa reconhece aqui a perplexidade que terá sentido noutras ocasiões perante declarações sobre coisas que não são coisas e que afinal são outras coisas.
A explicação vai aparecer um pouco mais tarde no poema. Na parte IX Pessoa esclarece que “O rebanho é os meus pensamentos / E os meus pensamentos são todos sensações.” Esta explicação restaurará um pouco o alívio perdido. ‘Guardar rebanhos’ significa o mesmo que ‘guardar pensamentos’; e ‘pensamentos’ o mesmo que ‘sensações.’ Basta substituir algumas palavras e ficará tudo percebido. A pastorícia seria afinal um pretexto para falar de filosofia, como aqueles pastores da poesia antiga que falavam da alma, do corpo e do fim de todas as coisas à sombra das faias.
Continua todavia sem se compreender tudo. Não se percebe principalmente porque é que seria preciso guardar pensamentos, e porque dedica o protagonista tantos versos à pastorícia mental. Uma explicação que ocorre é que para Fernando Pessoa os nossos pensamentos, como as ovelhas, parecem ter uma vida própria: seguem-se uns aos outros por obstinação; sopram onde querem e não se sabe para onde vão. Tal como as ovelhas são o desespero dos pastores, os pensamentos, ou as sensações, metem medo à alma. Precisam assim de guardadores. “O guardador de rebanhos” é o maior poema sobre esse medo: o medo de que os nossos pensamentos e as nossas sensações se tresmalhem ou sejam roubados por alguém.