Há três histórias proeminentes sobre a língua portuguesa: a de que existe desde o princípio do mundo; a de que nasceu para que houvesse poetas portugueses; e a de que nasceu graças aos poetas portugueses.  A conjunção dessas asserções incompatíveis povoa quase todos os primeiros capítulos dos manuais de literatura portuguesa, e as entrevistas dos poetas.  Depreende-se delas que um romano tardio vestido de árabe se lembrou um belo dia de fazer versos sobre mães, filhas, árvores e namorados, inspirado por manobras análogas de outros romanos um pouco menos tardios; e que o resto é a nossa língua portuguesa.

Não há razões para imaginar que qualquer destas histórias seja verdadeira.  Os mais antigos documentos que até agora se conseguiram encontrar em que se reconhece uma coisa que parece latim esquisito ou português rudimentar não são poesia ou sequer ficcionais; não são extraordinariamente antigos mas são normalmente anteriores à chamada poesia medieval; e não sugerem que a língua tenha sido inventada por quem quer que seja, mas que o princípio de uma língua escrita coincide até ver com a data do documento mais antigo que se conseguiu encontrar.

A ideia de que as origens de uma língua escrita sejam prosaicas apouca as noções sobre a nossa ancestralidade especial, como se tivéssemos descoberto que não descendemos de uma costela de Virgílio ou de Fred Flintstone mas de causas múltiplas mal identificadas.    Não há porém razão para tristezas.  Muitos desses documentos em prosa vulgar são ainda hoje maravilhosos. Como a poesia mais moderna são muito difíceis de ler e muito opacos, falam sempre dos seus autores, e apresentam queixas sobre estados de coisas.

Entre os melhores conta-se um documento conhecido pelas suas primeiras palavras: “Notícia de Torto.”  O termo ‘torto’ é primo direito de ‘torção’, de ‘entorse’, e de ‘tortura.’   A palavra quer dizer dano ou injustiça.  A justiça consistia nesses tempos em endireitar coisas tortas, em remediar tortos.  O direito era visto como um instrumento da justiça; mas, como na medicina das províncias, os juízes e árbitros, geralmente padres, abades e bispos, achavam que não deviam ser mais que endireitas.   O documento deve ter sido escrito no princípio do século XIII, mas só foi publicado em 1810.

Nesse documento, um senhor chamado Lourenço Fernandes queixa-se do mal que lhe fizeram por causa de umas heranças.   A queixa enumera com despacho e deliberação dezenas de pormenores, quase todos muito violentos: saquearam-lhe quintas, desonraram-lhe “sa filia pechena,” roubaram-lhe um porco diante dos filhos e comeram-no, e obrigaram-no a ir duas vezes a Coimbra.  A enumeração irritada destes males mostra-nos que o português como língua precisa não nasceu das musas, mas dos perigos em que se encontravam animais, casas, filhos e quintas.  É refrescante pensar que antes de se ter tornado um país de poetas Portugal tinha sido um país de proprietários.