Uma expressão muito conhecida diz que, para evitar confusões, devemos fugir a discussões sobre política, futebol ou religião, por serem temas que facilmente geram divisões. No entanto, basta ligar a televisão, aceder a uma rede social ou observar o quotidiano para perceber que são precisamente esses os assuntos mais falados.
Se é caso de estudo a nível mundial o tempo de antena que a discussão da contratação do novo médio ofensivo para um clube ou se o golo foi bem ou mal anulado ocupam nos órgãos de comunicação social generalistas portugueses, já os debates sobre temas políticos ou para-políticos são muito habituais em toda a parte. O que não admira, considerando que têm os ingredientes certos para o palco mediático. Mas a política não é apenas uma arena de confronto ou disputa por poder, ou sequer uma escolha entre partidos e candidatos. É o que influencia a vida das pessoas e das comunidades e por isso deve merecer a nossa atenção.
Com o ambiente de pré-campanha eleitoral e a época festiva a coincidirem, regressa a velha pergunta: há assuntos que devem ser banidos do convívio? Não se deve falar de política na mesa de Natal? Se, por um lado, sabemos que há assuntos mais controversos, por outro, não será justamente para estarmos mais à vontade para falar que servem os convívios? Talvez a questão não seja do que se fala, mas de como se fala.
Antes de mais, é sempre bom termos consciência da atitude de partida com que abordamos temas políticos em contextos de convívio. É importante lembrar que, antes das posições e da divergência política, estão as pessoas e as relações que queremos — e, já agora, precisamos — manter. Se há coisa que décadas de investigação em psicologia nos mostra é que a qualidade das relações interpessoais é um dos principais marcadores da saúde psicológica e do bem-estar de cada um de nós. A incapacidade de conviver e relações destruídas não melhoram o mundo.
Isto não significa, portanto, que não devamos falar de política no jantar de amigos, no almoço de Natal ou até na consoada. Significa, sim, que temos de pensar na atitude e partir de determinados pressupostos quando o fazemos. Conversar sobre política não é o problema — o problema é transformar a conversa numa espécie de campo de batalha, para ver quem tem razão.
Qualquer discussão só é proveitosa se houver respeito mútuo e a aceitação de um terreno comum de convivência. A forma como nos expressamos e o interesse genuíno em ouvir o outro são fundamentais. Discutir pode ser saudável, esclarecedor e até necessário. Talvez até nos possa ajudar a questionar o vídeo duvidoso ou a mensagem truncada que nos chegou pelo WhatsApp.
Mas isso só acontece se houver respeito, escuta e um mínimo de terreno comum. Saber estabelecer limites e reconhecer quando é altura de encerrar o assunto é também essencial, sobretudo se soubermos que há opiniões muito antagónicas ou pessoas que tendem a trazer temas desagradáveis para a mesa.
E, sendo provável que em muitos convívios familiares estejam presentes crianças, adolescentes e jovens, também não nos esqueçamos que há quem esteja a aprender connosco. Crianças, adolescentes e jovens observam, escutam e formam ideias sobre a política, a vida e o mundo, muito antes sequer de poderem votar. Motivo pelo qual é importante sabermos o que pensam e escutá-los. E, já agora, dar o exemplo sobre o que é desejável. Se lhes mostramos que o debate de ideias é gritaria, ataque e desrespeito, não nos surpreendamos quando reproduzirem isso. Afinal, se queremos que as crianças e adolescentes se comportem bem e sejam cidadãos mais conscientes e menos tóxicos, talvez o treino comece em casa. Incluindo à mesa de Natal.
Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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