1. Bem-vindos ao escutismo! Este é o nosso Agrupamento, uma só Patrulha; esta é a nossa família, alargada, incomparável. Somos uma irmandade à escala global que partilha um ideal, um método e uma missão. Baden-Powell, como ele próprio fez questão de recordar, teve uma Ideia e depois viu nessa ideia um Ideal. O ideal cresceu, consolidou-se e tornou-se Movimento. Todas as instituições, organizações, grupos apontam sempre para o grandioso; para o imenso, o maior, o mais espetacular. A grande marca do escutismo é, paradoxalmente, a simplicidade da sua proposta: “deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrámos”. Somos uma fraternidade de amigos próximos, somos um corpo, uma raíz, uma consistência. E não, não somos todos iguais;  somos altos e baixos, gordos e magros; negros, brancos, “amarelos”; mais ou menos ricos, mais ou menos cultos, mais ou menos jovens; com sensibilidades, expectativas e projectos de vida diferentes; somos muito diferentes… mas somos irmãos! E como é isso possível? É possível, porque temos algo que vertebra a nossa comunidade, que lhe dá consistência, coesão, sentido; é possível porque temos um Ideal comum! E apesar das nossas diferenças, reconhecemo-nos num conjunto básico de valores comuns, valorizamos uma tradição cultural, moral, religiosa, comum; a qual, dá à nossa existência coesão, equilíbrio e unidade. E, por isso, na nossa sociedade tão fragmentada, o escutismo resiste.

2. Palavras como “Ideal” não nos devemos, então, cansar de as repetir e, sobretudo, colocar em prática! O ideal dá equilíbrio e consistência à nossa existência, ao nosso modo de vida escutista; dá-lhe coesão, identidade, sentido de pertença. O ideal é como uma bússola que, por maior que seja a incerteza, a angústia e o sofrimento, obriga o Homem a moldar-se à Realidade. Somos um movimento de valores e ideais. Se não houvesse um Ideal comum tudo se tornaria indiferente, similar, equivalente; se não houvesse um Ideal comum tudo seria circunstancial, situacional, e tudo se transformaria em meras opiniões e preferências pessoais. Ser escuteiro é, então, muito mais que uma questão de sensações ou emoções, mais ou menos espectaculares, mais ou menos radicais; os escuteiros não andam à procura de recordes, números e estatística, nem de lugares onde sintam uma “boa energia”, e uma “boa onda”. Num mundo tão errante, tão desencontrado, algumas coisas permanecem verdadeiras: a nossa Promessa e a nossa Fé! São elas que vertebram o nosso Ideal. E, por isso, na nossa sociedade tão fragmentada, o escutismo resiste.

3. A Religião sempre foi considerada um dos núcleos centrais dos Direitos Humanos, sempre foi considerada um dos pressupostos antropológicos fundamentais. Neste sentido, a experiência religiosa, nas suas múltiplas práticas e expressões, sempre foi considerada como algo intrinsecamente bom, e desejável para o bem estar de pessoas e grupos, povos e nações. A sociedade contemporânea expressa, contudo, uma visão redutora, parcial e caricatural da religião, considerando-a como algo gerador de divisão e conflito, e remetendo-a à esfera meramente privada. Na verdade, em nome da religião, gerou-se discórdia, divisão, conflitos e, nalguns casos, cometem-se verdadeiras atrocidades; mas estas são completamente opostas e contrárias à própria mensagem que a mesma veicula (como se os venenos que poluem a água do mar nos dessem legitimidade para concluir que o mar é, afinal, algo de mau).  Já a raíz do escutismo assenta na dimensão religiosa, na abertura e “fome” de transcendência que caracteriza a natureza humana. A religião, como nos diz Baden-Powell, é um elemento estruturante do escutismo: “nenhum homem é muito bom a menos que acredite em Deus e obedeça às suas leis. Tal que cada escuteiro deve ter uma religião” (in “Escutismo para rapazes”, p. 287). Também Bento XVI nos diz que o “quaerere Deum”, isto é, a “Busca de Deus é o eixo central sobre o qual toda a civilização e cultura são construídas constituindo-se, assim, como condição indispensável para a sobrevivência da própria Humanidade”. Não retiremos, por isso, a dimensão do transcendente da educação humana, da dinâmica social, das relações humanas, das instituições e da vida em sociedade. Seria amputar uma das dimensões mais constitutivas, mais estruturantes da natureza humana. Só ela dá plenitude e sentido à existência. E, por isso, na nossa sociedade tão fragmentada, o escutismo resiste.

4. O escutismo é tradição; e o escuta é um herdeiro. Na vivência do espírito escutista é muito importante a herança, a memória, o legado; pois… quem corta as suas tradições vai, tal como a árvore a quem cortaram as raízes, secando, secando. O escuta é, por isso, herdeiro de um passado, de uma história, de uma tradição, de uma igreja, de uma fé. E nunca esquecendo o “alerta” o sábio: “Tradição é a transmissão do fogo, não a adoração das cinzas”. Usemos, então, a nossa imaginação, e transportemo-nos aos tempos de Baden-Powell, mais precisamente aos bosques centenários, palco de refúgio e aventura, mais precisamente a uma milenar caçada à raposa: os cães partem, precipitam-se e correm, correm sem parar. E como se explica a proeza dos dois, três cães que, extenuados, chegaram ao fim? Resposta: foram os únicos que estiveram sempre a ver a raposa desde o início; os outros corriam (sem parar), apenas porque viam os da frente a correr! Ou seja, a tradição é muito importante mas precisa de ser complementada com a experiência interior; é o fogo que interessa, não são as cinzas. Não façamos, por isso, as coisas de forma automática, por obrigação, por decreto. Não corramos, corramos sem saber porquê; não avancemos atrás dos outros sem saber para onde. Olhemos a experiência concreta, pessoal, incomum. Contemplemos a sabedoria única dos vitrais e habituemo-nos a ver por dentro. Do lado de fora, percebemos que a luz bate, mas a imagem é difusa, imprecisa; só quando “saímos” ao lado de dentro percebemos o seu esplendor. Não fiquemos satisfeitos com a primeira impressão, com a superfície. Habituemo-nos a ver por dentro! E, por isso, na nossa sociedade tão fragmentada, o escutismo resiste.

5. O escuta e o Sagrado. A dessacralização do quotidiano é, nas sociedades contemporâneas, uma realidade imparável! A dessacralização do quotidiano significa que a mística, o motor da nossa vida escutista, vai perdendo importância, valor, sentido. E sem a mística, sem o desejo incessante do transcendente, o prático, o vulgar, e o funcional, tenderão a sobrepor-se a tudo. E, sem este desejo, o escutismo corria o risco de se banalizar, mundanizar; e não passar de uma mera organização, de uma coletividade, de uma junta de freguesia. Se desvalorizarmos o sagrado reduzimos a mística a uma “energia”, a uma “fezada”, a um “gás”, fugaz e efémero; a algo dependente das  emoções do momento, passageiras e circunstanciais. É evidente que o Sagrado está na raiz da experiência Humana! É isso que o torna especificamente humano. Por outro lado, Sagrado é muito diferente de “prático e funcional”. Em certa medida é, precisamente, o oposto! Por isso, o plástico não é igual ao ouro, o prato não é igual à Patena, o copo não é igual ao Cálice! Se não percebermos isto, não percebemos o valor da poesia, da pintura ou da música. Se não percebermos isto não percebemos a simbologia cristã; não percebemos a simbologia escutista. Se não percebermos isto, não percebemos porque é que a nossa sociedade está tão vazia, tão fragmentada, com tanta “perda de sentido”. E, por isso, na nossa sociedade tão fragmentada, o escutismo resiste.

6. Escutismo, a sabedoria do caminho. Por vezes, damos pouco valor à sabedoria do caminho; valorizamos muito o ter e o saber, em detrimento do ser; manifestamos muita ansiedade pelas competências, pela técnica, pela eficácia dos resultados, pela quantidade, pela estatística, e andamos depressa demais, muito depressa!  Certo dia, um escuteiro montou a sua tenda e colocou meticulosamente lá dentro tudo o que precisava. Só mais tarde percebeu que a sua vida fechada era parcial, por metade, estava incompleta. Saiu a tempo, chamou os amigos e invadiu os campos! Quando chegamos ao sítio das árvores, sentimos que somos parte de uma grande ideia que nos move… e “saímos” devagar, devagar. Percebemos, então, que fomos talhados para a Comunhão, não para o vazio! O Hiper individualismo que caracteriza a vida moderna é consequência da grande mentira contemporânea que colocou o Homem no centro e elevou-o à “medida de todas as coisas”; os resultados estão à vista; estão-nos a levar à alienação e ao abismo. O nada e o vazio vão-nos consumindo, debilitando, gastando, e vão devorando o nosso mundo de relação.  A solidão, a solidão; a solidão é uma força poderosa que gera fragilidade, e medo. A solidão retira-nos o encanto, e o fascínio. É um frio imenso… que vai crescendo à medida que nos vamos afastando do Centro. Não admira, pois, o abismo, a voragem; não admira o cansaço, e a falta de sentido; não admira o tédio, o desgosto. Mas é na escuridão mais profunda que a luz brilha com maior intensidade; a esperança é muito importante, é vital! A esperança é uma confiança, é uma expectativa; e é sempre algo que é fraco contra algo que é forte; é o pequeno contra o grande! Se as coisas fossem iguais não se falava de esperança, falava-se de força. Chegou a hora de reacender a luz da esperança; a luz da esperança cristã! Vamos invadir os campos e contemplar a luz da fogueira: “ó luz beleza, clara certeza”. Mas não construas uma casa fechada (recorda o escuteiro que certo dia montou a sua tenda e colocou lá dentro tudo o que precisava…). Não construas um campo onde só tu podes entrar; não abras a porta da sede, apenas aos conhecidos, aos amigos; olha que não fomos criados para a solidão! A fé vence a solidão, a fé dá-nos Comunhão. Chegou a hora, vai para campo, acende a fogueira e medita; vai para campo e limpa-te, limpa-te, por dentro! Como dizia madre Teresa, “o fruto do silêncio é a oração; o fruto da oração é a fé; o fruto da fé é o amor; o fruto do amor é o serviço; e o fruto do serviço é a paz”. Quão poderoso é este pensamento! E, por isso, na nossa sociedade tão fragmentada, o escutismo resiste.

7. A sabedoria do joelho esfolado. O escutismo é um movimento muito maior que ele próprio; é uma poesia que liga o conhecido com o desconhecido, o velho com o novo, o céu e a terra, o que se diz e o que se faz! O escuta acredita nele próprio, mas sabe que a estrela do sucesso, cintila e arde abundantemente, mas não está encerrada dentro dele; depende da reciprocidade amorosa com o próximo! O escuta sabe que não é ele que está no centro e a sua fé ajuda-o a colocar as coisas no seu devido lugar; chama-se a isso, sentido de escala, senso das proporções e ordem das prioridades. O escuta sabe que quando se cansa muito, muito… significa, porventura, que “vai sozinho”, e isso pode ser sinal de Individualismo. O escutismo ajuda-nos a não ficarmos apenas nos nossos sentimentos automáticos, nos nossos sustos e emoções; chama-se a isso Vaidade. O escutismo ajuda-nos a não chegarmos às coisas “por cima”, com altivez e orgulho; chama-se a isso Pretensão. O escuta não reza para que as coisas más não aconteçam, o escuta reza para que as coisas que acontecem, aconteçam dentro de uma história de amor, “ao redor da fogueira”. Não é fácil ser escuteiro; é uma ousadia! É preciso ter coragem para remar contra a corrente, contra o estabelecido, contra uma certa coerência envernizada. É preciso ter coragem para invadir os campos; é preciso ter coragem para subir ao monte e acampar; chama-se a isso Promessa! A este monte Deus prometeu, connosco, subir, e connosco acampar e partilhar: “Filho, o que é meu, é teu”! Chama-se a isto Escutismo!

E, por isso, na nossa sociedade tão fragmentada, o escutismo resiste.