Há um momento, antes de qualquer guerra, em que a guerra ainda não existe, mas já se fala dela. Ninguém a pede. Fala-se de segurança, de responsabilidade, de estar à altura das circunstâncias. E as pessoas, que ainda ontem achavam a ideia absurda, dão por si a discutir os pormenores.

É isso que está a acontecer com a Ucrânia. Governos, comentadores e profissionais da indignação estão a preparar os cidadãos para aceitar um envolvimento cada vez maior numa guerra que não é nossa. Primeiro pedem armas. Depois pedem dinheiro. Depois pedem preparação. Um dia, se ninguém travar a lógica, pedirão os nossos filhos.

Não o dizem assim, claro. Ninguém entra num estúdio de televisão a dizer que talvez seja necessário enviar jovens portugueses para uma guerra no Leste. Dizem antes que é preciso reforçar a segurança europeia, preparar a sociedade, proteger a democracia, responder às provocações, mostrar unidade, manter a dissuasão. A linguagem é sempre limpa, técnica, quase administrativa. O resultado é que a guerra começa a entrar na vida pública como se fosse uma inevitabilidade, e não uma escolha.

Agora dizem-nos que a Rússia pode estar a preparar ataques com drones contra o sul da Europa. A notícia aparece, circula, é repetida por jornais, televisões e comentadores, e ao fim de algumas horas já parece uma certeza. A prova pública é a construção habitual: fontes anónimas, outra fonte a confirmar a fonte anónima, e a repetição a fazer o trabalho que a prova não fez. Portugal nem sequer estava entre os países referidos. Falava-se de Espanha, França e Itália. O próprio ministro da Defesa italiano disse que o alarme não tinha fundamento. Mas isso já interessa pouco. A emoção ficou lançada.

É assim que se prepara uma população. Primeiro aproxima-se a ameaça. Depois transforma-se a ameaça numa presença constante. Depois espera-se que as pessoas deixem de perguntar o que está realmente em causa. A Rússia passa a estar por trás de cada drone, cada navio, cada helicóptero, cada alarme, cada frase dita em tom grave por alguém com ar de especialista. O objectivo não é apenas informar. É cansar a resistência mental das pessoas até que a escalada pareça prudência.

A mesma operação está a acontecer em vários países. No Reino Unido, figuras militares de topo já falam da necessidade de a nação inteira estar preparada. O governo britânico está a actualizar planos antigos para saber como funcionariam os militares, a polícia, os hospitais e a indústria num conflito de grande escala. Na Alemanha, dezenas de milhares de jovens saíram à rua contra medidas ligadas a uma possível conscrição. Eles perceberam aquilo que muitos adultos fingem não perceber: quando os governos começam a preparar a sociedade para a guerra, são quase sempre os jovens que acabam por pagar a factura.

Cada incidente é usado para empurrar a mesma conclusão. Um helicóptero russo entra 300 metros no espaço aéreo polaco durante menos de um minuto e, imediatamente, somos chamados a entender que a NATO está a ser provocada. Muito bem. Talvez esteja. Mas a Europa também está a enviar armas de longo alcance, mísseis Storm Shadow, mísseis SCALP, aviões Mirage e outros equipamentos para uma guerra contra a Rússia. E numa guerra contra a Rússia não morrem apenas soldados russos. Morrem também civis russos, embora esses raramente entrem na contabilidade moral de quem transforma cada entrega de armamento num acto de virtude. Não somos espectadores inocentes ofendidos com o barulho. Somos participantes a fingir surpresa por o outro lado ter reparado.

A Rússia invadiu a Ucrânia. A Rússia mente. A Rússia mata. A propaganda russa existe, e quem acredita que Moscovo entrou na Ucrânia por pura generosidade devia procurar ajuda. Mas muitos pegaram nesse facto e transformaram-no numa autorização sem limite. A partir daí, qualquer escalada proposta em Bruxelas, Londres ou Paris deve ser aceite como prova de seriedade moral. Não deve. Nada obriga Portugal a aceitar cada passo rumo a uma guerra maior. Nada obriga pais portugueses a oferecerem os seus filhos a Kiev. Nada faz da Ucrânia o nosso país, a nossa aliança ou a nossa obrigação sagrada.

A Ucrânia não está na NATO. A Ucrânia não está na União Europeia. É um país do Leste da Europa, invadido pela Rússia, apoiado pelo Ocidente e tratado por muitos políticos europeus como se as suas fronteiras fossem as nossas. Não são. Se defender a Ucrânia passou a ser o mesmo que defender Portugal, então alguém devia explicar quando é que essa decisão foi tomada, quem a tomou e por que razão o povo português não foi consultado.

Em vez disso, recebemos chantagem moral. Se questionas a escalada, és pró-russo. Se perguntas o que significa vitória, és fraco. Se perguntas quem vai lutar, és cobarde. Se perguntas se o teu filho deve morrer por um país que não faz parte das nossas alianças, dizem-te que não percebes a história. É sempre assim que as classes respeitáveis falam antes de enviarem os filhos dos outros para a guerra.

E repare-se em quem fala mais alto. Os homens que descrevem esta guerra como existencial não são os homens que irão para a frente, nem tão pouco estão a preencher os papéis de ingresso para se juntarem à Legião Internacional do Exército ucraniano, que certamente agradeceria a ajuda. O grande sacrifício deles é um estúdio de televisão, uma coluna de opinião, uma conferência, uma declaração ministerial. Exigem coragem num tom que sugere nunca terem imaginado o custo a bater-lhes à porta.

A coragem que pedem é sempre mais barata quando será paga por outros.

Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, tem ajudado a colocar Portugal na linha da frente do apoio político à Ucrânia, como se isso fosse um dever nacional evidente e não uma escolha feita por pessoas muito longe das consequências. Este entusiasmo tornou-se comum num certo tipo de político europeu: ar sério, linguagem moral, nenhum risco pessoal. Falam de compromisso, segurança e Europa, mas a direcção é sempre a mesma. Mais armas, mais envolvimento, mais aceitação de que Portugal deve ser arrastado para uma guerra que não é nossa.

A Rússia era inimiga de Portugal antes desta campanha? Não era. Antes desta tentativa de lavagem cerebral, as relações entre Portugal e a Rússia não eram hostis. Eram muitas vezes cooperantes e, em vários momentos, amigáveis. Quando Portugal ardia em 2016 e pedia ajuda, a Rússia enviou aviões Beriev para combater os nossos incêndios. Esse facto devia incomodar quem agora nos quer convencer de que a Rússia sempre foi uma ameaça directa a Portugal. Durante anos, a relação foi suficientemente normal para haver cooperação. Agora querem que esqueçamos tudo isso em nome de uma urgência fabricada.

A propaganda é também intelectualmente ridícula. À segunda-feira dizem-nos que a Rússia é uma potência militar medíocre, exausta, humilhada, a perder a guerra, incapaz de derrotar a Ucrânia. À quinta-feira a mesma Rússia está preparada para conquistar a Europa inteira, de Kiev à ilha do Corvo. Afinal, está ao mesmo tempo em colapso e imparável. É fraca quando é preciso justificar mais armas. É invencível quando é preciso justificar mais medo. Espera-se que o público não repare.

Depois chegam os influencers, os especialistas, os moralistas profissionais da internet. Uns repetem propaganda russa e fingem que Moscovo só quer paz, ordem e protecção. Outros repetem propaganda ucraniana e falam como se a guerra com a Rússia fosse inevitável, desejável ou, pelo menos, um dever nobre para todos excepto para eles próprios. Ambos mentem. A diferença é que o segundo grupo é aquele que pede as nossas armas, os nossos impostos e, eventualmente, os nossos filhos.

Há qualquer coisa de obsceno em ver pessoas que nunca arriscam nada falar com tanta vontade sobre sacrifício. Dizem que “nós” temos de resistir. Dizem que “nós” não podemos ter medo. Dizem que “nós” temos de estar preparados. Mas o “nós” deles é falso. Querem dizer soldados. Querem dizer jovens. Querem dizer famílias que receberão bandeiras dobradas e frases oficiais. Querem dizer pais a quem será explicado que a sua dor tem significado geopolítico.

Até um vídeo promocional da NATO, posto outra vez a circular há dias, ajudou a expor a lógica do momento. Toda a gente reparou que, de repente, a diversidade tinha deixado de ser necessária. O mesmo padrão repete-se na propaganda de recrutamento por quase todo o lado: nos anúncios, nos cartazes, nos discursos sobre o dever nacional, o homem branco e cristão é chamado de volta ao centro. Para morrer pela pátria, ou por interesses que nos apresentam como pátria, a diversidade já não parece assim tão importante. A carne para canhão, afinal, continua a ter uma identidade muito tradicional.

O perigo para nós portugueses não é a Rússia. O perigo é a forma como os governos europeus estão a preparar as suas próprias populações para aceitar uma guerra em que nunca votaram e pela qual um dia podem ser chamados a morrer. O perigo é a facilidade com que se passa de armas para treino, de treino para “missões de paz”, de missões de paz para prontidão, de prontidão para conscrição. O perigo é que, quando as pessoas perceberem o que aconteceu, a linguagem já terá mudado e a decisão já terá sido preparada.

Nenhum pai português deve um filho à Ucrânia.

Se a classe política acredita no contrário, que o diga claramente. Que deixe de se esconder atrás de drones, avisos anónimos, teatro moral e coragem emprestada. Que olhe o país de frente e diga: esta guerra vale vidas portuguesas.

Aí teremos a oportunidade de os mandar para onde merecem.

Nota editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não refletem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.