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Política Científica

Posições permanentes na investigação? Assim não, obrigada!

Autor
  • Margarida Salvador Cunha

Temo que as universidades deixem de ter margem de manobra para novas contratações. Aos que ficaram de fora, só porque sim, e à nova geração de cientistas, será suprimida qualquer réstia de esperança.

Sou investigadora há 20 anos. Gozei de três bolsas de pós-doutoramento, um contrato Ciência2007, um contrato Investigador FCT, mais dois contratos atribuídos no âmbito de projetos e à data aguardo, pacientemente, que a FCT se decida a assinar os contratos do programa Estímulo para o qual, adivinhem lá… sim, também fui selecionada. E digo que aguardo pacientemente, porque os últimos seis meses foram de grande incerteza à espera de saber se o novo contrato chegará antes do atual terminar.

Perguntar-se-ão então como pode alguém aparentemente merecedor destes sucessivos contratos, e que há anos vive em tal precariedade, questionar propostas, há tanto esperadas – e devidas, diga-se de passagem – de atribuição de posições permanentes a investigadores.

Passo a explicar. No ano em que terminei o curso superior e segui rumo à Universidade de Cambridge, no Reino Unido, convicta de estar a investir num futuro de sucesso, tive oportunidade de perguntar diretamente ao então Gestor do Programa Praxis XXI o que estava a ser feito para acautelar a futura integração dos então bolseiros de doutoramento na rede de investigação portuguesa. A resposta não podia ter sido mais clara. Nada estava a ser feito porque o importante era formar. Portugal tinha, à data, um défice muito significativo de doutorados. Por isso a palavra de ordem era apenas essa: formar.

O problema é que essa palavra de ordem continuou a ser a única durante quase 20 anos. À medida que os melhores alunos seguiam rumo ao doutoramento, em muitos casos nas melhores universidades mundo fora, a carreira de investigação em Portugal foi sendo congelada e a contratação de docentes do ensino superior, sempre dependente do número de alunos inscritos, passou a ser feita a conta-gotas.

Ora um problema de 20 anos não se resolve num dia, nem num ano, nem mesmo numa legislatura. Se cairmos na tentação de o fazer, com os constrangimentos financeiros que nos caracterizam, cometeremos enormes injustiças e, indubitavelmente, condenaremos as gerações futuras.

Veja-se, por exemplo, a forma distorcida como o programa de regularização de trabalhadores precários está a ser encarado por algumas das nossas universidades, discriminando entre aqueles que têm contratos diretamente com as mesmas e os que, trabalhando para elas anos a fio, o fazem firmando contratos com instituições privadas sem fins lucrativos financiadas pelo Estado. Uma parte significativa da investigação de ponta que se faz em Portugal é desenvolvida nestas instituições. Esta política, se mal aplicada, deixará de fora muitos dos melhores investigadores da nossa praça, só porque sim. De forma totalmente arbitrária. Temo, aliás, que as nossas universidades, até aqui a contratar a conta-gotas, deixem de ter margem de manobra para novas contratações. Aos que ficaram de fora, só porque sim, e à nova geração de cientistas, será finalmente suprimida a réstia de esperança de um dia, quiçá, conseguirem uma posição. E, certamente mais importante, o país não aproveitará em pleno os melhores frutos do seu investimento.

O que fazer? A solução é clara (pelo menos aos meus olhos, porventura pouco habituados aos jogos políticos e de influência que por vezes contaminam tais decisões). Por favor façam as contas! Definam quantas contratações são necessárias para cumprir o plano estratégico para a ciência deste país e distribuam-nas no tempo, de forma a manter um fluxo de entrada na carreira adequado e sustentável. Ah, e já agora, garantam que os contratados sejam, de facto, os melhores investigadores disponíveis para trabalhar no nosso país (portugueses ou estrangeiros), algo que, na minha opinião, só poderá ser conseguido com avaliações centralizadas e com painéis internacionais (que cá o país é demasiado pequeno e os conflitos de interesse imperam!).

É tempo de (re)pensar a carreira de investigação em Portugal. Deixemo-nos de medidas avulsas, facilmente manipuláveis por aqueles que se encarregam de as aplicar. É preciso critérios claros, sustentáveis, e consistentes com a dimensão que queremos ter. Isto para que se faça finalmente justiça ao trabalho desenvolvido pelos nossos investigadores mas, acima de tudo, para bem do nosso país.

Investigadora no Centro de Astrofísica da Universidade do Porto

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