Com o arranque de mais um ano letivo e a entrada de novos alunos no Ensino Superior, torna-se inevitável refletir sobre a atual gestão deste setor em Portugal. A cada novo Concurso Nacional de Acesso, verificamos uma descida progressiva das médias de entrada em muitos cursos e, em simultâneo, um aumento de vagas por preencher em áreas que outrora eram das mais procuradas. Este fenómeno não é, por si só, negativo: pode traduzir simplesmente a democratização do acesso ao ensino superior. No entanto, também revela como as escolhas dos estudantes estão cada vez mais concentradas em determinados cursos “da moda”, deixando outros com menor procura e contribuindo para um desequilíbrio na oferta formativa. É neste contexto que importa questionar: que plano tem o Estado para o Ensino Superior no presente e no futuro?
De forma geral, o sistema parece estar a ser conduzido mais pela lógica das “modas” do que por uma estratégia sólida e de longo prazo. Tome-se como exemplo o caso da Engenharia Aeroespacial: em Portugal, existem hoje cinco licenciaturas nesta área, totalizando mais de 200 vagas anuais. Mas será esta uma prioridade nacional ou apenas mais uma aposta numa área de aparente prestígio, que acaba por formar estudantes para que outros países deles beneficiem? Ao mesmo tempo, áreas estruturais como a enfermagem ou as ciências agrárias registam dificuldade em captar alunos, apesar da sua importância vital para a sociedade e para o funcionamento do país.
A retenção de talento é, de facto, um dos maiores problemas. Segundo um estudo da Associação Business Roundtable Portugal de 2023, Portugal perde cerca de 20 mil licenciados por ano, o que representa milhares de milhões de euros em investimento público, impostos e contributos sociais que não trarão retorno para o país. Apesar de medidas como a devolução parcial das propinas, o IRS Jovem ou o Programa Regressar, 71% dos jovens consideram estas políticas insuficientes (sondagem para DN, JN e TSF de 2023). O próprio Primeiro-Ministro sublinhou que reter talento “transcende a política salarial” e implica condições de vida atrativas, oportunidades de crescimento e estabilidade. Países como a Alemanha e a França, por exemplo, investem em programas de integração direta no mercado e em políticas regionais de fixação de jovens qualificados, assegurando que a formação académica responde a necessidades concretas da economia e da sociedade.
Assim, importa questionar: qual é o papel que queremos para o Ensino Superior? Queremos vê-lo como um motor de desenvolvimento nacional, que forma cidadãos e profissionais para suprir as necessidades do país e das suas regiões? Ou pretendemos que funcione somente como uma “fábrica de sonhos” que exporta talento, sem qualquer retorno para a sociedade portuguesa?
É fundamental que a tutela e as Instituições de Ensino Superior assumam maior responsabilidade. A estratégia não pode ser apenas aumentar vagas em cursos populares, mas antes modernizar métodos de ensino, adaptar programas à realidade atual e comunicar de forma clara o valor de todos os cursos. Não é sustentável perpetuar a ideia de que apenas ciências de dados, engenharias, direito, medicina ou economia asseguram futuro. Esta perceção conduz a desequilíbrios: excesso de estudantes formados em certas áreas e défice noutros setores vitais, como a saúde, o ensino, as ciências naturais, exatas e sociais ou as artes.
Em Portugal começam a surgir exemplos de colaborações entre universidades e empresas que demonstram ser possível articular a formação académica com uma integração mais direta no mercado de trabalho, através de estágios, desafios práticos e programas de atualização de competências. No entanto, é necessário estender este modo de atuação a outras áreas, pois não é sustentável que apenas alguns setores se modernizem.
Mais do que nunca, precisamos de uma reflexão séria e de uma estratégia nacional para o Ensino Superior, que envolva o Governo, as IES, as Empresas, os Estudantes e as Entidades Públicas. É urgente alinhar a oferta formativa com as necessidades sociais e económicas do país, criar incentivos reais para a retenção de jovens qualificados e valorizar todas as áreas de conhecimento. Só assim garantiremos que o investimento feito na formação não seja desperdiçado e que o Ensino Superior cumpra a sua verdadeira missão: formar cidadãos e profissionais para o futuro de Portugal.