Há profissões que não se escolhem por estatuto ou pelo ordenado ao fim do mês, mas por convicção, por sentido de dever, por aquilo a que, talvez de forma ingénua mas nobre, ainda se chama vocação. Ser bombeiro é enfrentar o que todos evitam, entrar onde todos fogem, carregar nas costas não apenas o peso do equipamento, mas também a vida de quem se tenta salvar. E, no entanto, em Portugal, esta vocação está a desaparecer. Entre 1998 e 2022, o país perdeu mais de 9.500 bombeiros. O número de voluntários caiu a pique e, embora o contingente profissional tenha crescido, o saldo final é negativo. Este ano, os concursos públicos abriram vagas para pouco mais de uma centena de bombeiros sapadores, um reforço tímido incapaz de inverter a tendência de perda. O retrato é simples e cruel: menos recrutamento, menos disponibilidade, menos gente disposta a dizer “sim” quando a sirene toca.
Quem entra muitas vezes enfrenta um sistema que pouco valor dá a quem arrisca a vida. Um bombeiro sapador em início de carreira recebe, na melhor das hipóteses, entre 820 e 900 euros líquidos, um valor quase colado ao salário mínimo e que não se aproxima do custo físico, emocional e psicológico da função. No caso dos voluntários, a realidade é ainda mais dura: recebem ajudas simbólicas, sem contrato, acumulando o voluntariado com outros trabalhos para pagar as contas. Não é apenas uma questão de justiça — é uma questão de sobrevivência da própria missão. Profissões tão exigentes não se sustentam apenas de coragem, precisam de dignidade material e sem isso a vocação perde-se e as fileiras esvaziam-se.
Aqui entra uma preocupação que me inquieta como parte da minha geração. Cresci a ver, com respeito, os bombeiros como heróis da comunidade, mas hoje ouço cada vez mais um outro discurso, especialmente entre os mais novos: Quero ser CEO”, “quero ser influencer”, “quero trabalhar online e viver do digital”. Não é um ataque, é uma constatação. Esses sonhos são legítimos e, para alguns, até realizáveis, mas pergunto-me se todos sonharmos apenas com isso, quem apagará os incêndios, quem cuidará dos feridos, quem irá de madrugada abrir caminho na estrada para que uma ambulância passe. A ausência de promoção destas profissões é gritante. Campanhas de recrutamento emocionantes quase não existem. Reconhecimento público constante, apenas no verão, quando o país arde e aplaudimos quem arrisca a vida. No resto do ano, silêncio.
Enquanto o mundo digital promete notoriedade instantânea, as profissões que garantem a segurança física e emocional das comunidades ficam invisíveis. Mas a invisibilidade cobra um preço. Corpos de bombeiros envelhecidos, meios limitados, sobrecarga de trabalho. E se esta tendência continuar, não será apenas um problema dos bombeiros — será um colapso de funções vitais. Quem ensinará, quem cuidará dos doentes, quem alimentará as cidades, quem garantirá que, quando algo corre mal, alguém está disposto a correr na nossa direção.
Diz-se que os heróis não vivem de aplausos e é verdade. Não vivem de palmas nem de posts no Instagram. Vivem, ou deveriam viver, de salários justos, carreiras estáveis, respeito e reconhecimento. Vivem de saber que o país que protegem também os protege a eles. Se não invertermos este rumo, corremos o risco de, um dia, ouvir a sirene e perceber que ninguém vem. Nesse dia, não será apenas a nossa casa a arder — será a própria ideia de comunidade a desfazer-se em cinzas.